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                 O Grande Mentecapto
Relato das aventuras e desventuras de Geraldo Viramundo e de suas
                   inenarrveis peregrinaes


                        Fernando Sabino
                       A mui nobre, distinta e formosa
                          senhora dos meus afetos


              Dona Lygia Marina de S leito Pires de Moraes


De cujos encantos meu corao  cativo e a cujo estmulo deve esta obra o ter
             chegado a seu termo, dedico, ofereo e consagro.
        CAPTULO I


        De como Geraldo Viramundo, tendo nascido em Rio Acima, foi parar no
seminrio de Mariana, depois de virar homem, levado por um padre que um dia
passou por l.


        O VERDADEIRO nome de Geraldo Viramundo, embora ele afirmasse ser
Jos Geraldo Peres da Nbrega e Silva, era realmente Geraldo Boaventura, e assim
est lanado no livro de nascimentos em Rio Acima. Seu pai, um portugus, tinha
vindo para o Brasil em 189***, na primeira leva de imigrantes que sucedeu ao
decreto de nova poltica imigratria da Repblica recm-proclamada, e se casou no
Rio com uma italiana naquele mesmo ano. Como ele foi acabar morando em Rio
Acima, s Deus sabe.
        Boaventura tinha junto  estrada sua casinhola,  frente da qual duas portas
se abriam para o pomposamente chamado "Armazm Boaventura - Secos e
Molhados", no mais que uma venda, de cujos proventos vivia a famlia toda - e
eram treze filhos.
        Geraldo vinha a ser o caula. Quando nasceu, o pai, temendo a crise que se
sucedeu ento  Guerra Mundial, cujas conseqncias poderiam chegar at Rio
Acima, adotou nova poltica com relao a dona Nina, sua mulher. Ou, mais
precisamente, com relao s suas relaes: deixou de fornicar com ela at que as
coisas melhorassem. J no era pouco ter de cuidar de treze meninos, que iam
crescendo moleques de beira de estrada.
        A estrada de Belo Horizonte passava na sua porta. Com o correr do tempo
ela ia derrotando como fonte de renda a cidadezinha, onde logo se fez sentir a
esmagadora concorrncia de um grande emprio aberto por uns italianos j donos
da olaria. Mas a estrada era tambm a maior fonte de preocupao do casal. Nada
direi com relao aos outros filhos, seno na medida em que participaram mais
diretamente da infncia de Geraldo, que  de quem cuida a nossa histria. Este, to
logo se fez gente e capaz de equilibrar-se nas prprias perninhas, comeou a trazer
os pais em constante preocupao por causa da estrada. Construda junto a uma
simples picada (o pai no tinha ainda seu negocinho, e trabalhava na olaria), a
casinha acabou ficando com a estrada  sua porta. Por um triz os engenheiros com
seus traados e mapas no levaram de cambulhada com rvores, pedras e
barrancos a morada do Boaventura. (Corria em Rio Acima que ele viera para o
serto de Minas com a mulher, fugindo das autoridades imigratrias que queriam
mand-los de volta; outros diziam que ele fugia era da justia, por causa de um
crime, cometido ainda a bordo. Mas tudo isso no passava de conjectura, e
nenhuma importncia tem para o nosso relato). De tal maneira ficou sendo a estrada
parte integrante da casa, que a filharada do casal cresceu toda no meio dela. Um
dos filhos, dizem que quase nasceu na estrada, quando dona Nina, j no nono ms,
sucumbiu ao peso de um feixe de lenha; outro, contudo, o mais velho,  certo que foi
gerado ali, exatamente junto  curva, quando nem casa nem estrada havia. No
princpio s passavam por ela carros de boi e outras vagarosas viaturas de trao
animal, que de longe se avistavam, dando sinal de alarme e pedindo passagem.
Mas logo comearam a trafegar os primeiros automveis, e os meninos fugiam como
galinhas, para voltar em seguida. s vezes um carro se detinha e, sob o olhar de
curiosidade da meninada, os viajantes pediam gua, ou compravam qualquer coisa
e seguiam, levantando poeira.
        Apesar da estrada, que ele j apanhou bastante mais movimentada e
atraente, a infncia de Geraldo Viramundo transcorreu como a de seus irmos.
Como seus irmos ele comeu terra, botou lombrigas, arrebentou cupim para ver
como era dentro, seguiu as formigas para ver aonde iam, misturou acar com sal
no armazm, furtou garrafa de guaran e depois mijou dentro botando no lugar para
o pai no descobrir, brinco com fogo e mijou na cama, brincou de pegador, tic-tac
carambola, este dentro e este fora, matou passarinho com bodoque, enterrou ovo
choco e fez fogo em cima para ver se nascia pinto, foi mordido de marimbondo e
ficou de cara inchada, amarrou lata vazia em rabo de gato, fez galinha danar em
cima de lata quente, contou com o ovo no rabo da galinha, enfiou o dedo no rabo
dela, teve sarampo, catapora, caxumba e coqueluche, pegou sarna para se coar,
correu de boi bravo, botou cigarro na boca de sapo para ele fumar at rebentar, se
escondeu na cesta de roupa suja para ver a irm mais velha tomar banho, quis
pegar a irm mais nova e depois teve remorso, perdeu a virgindade numa cabrita,
fugiu de casa e apanhou e por isso tornou a fugir e por isso tornou a apanhar,
construiu casinhas de barro, caiu da rvore e se machucou, comeu manga com leite
e adoeceu, contou as estrelas do cu e ficou com berrugas, pegou carona em
caminho, aprendeu a ler na escola, fez do travesseiro o corpo da professora, teve
medo do Joo Carangola que fugiu da priso e gostava de menino, assobiou e
chupou cana ao mesmo tempo, fumou cigarro de chuchu, fez coleo de favas, foi 
missa aos domingos, assistiu fita de Tom Mix, Buck Jones e Carlito no cineminha da
cidade, apanhou bicho-de-p, pisou em urina de cavalo e ficou com mijao, armou
arapuca no mato, jogou futebol com bola de meia, teve dor de dente de noite, foi
coroinha na igreja, contou quantas vezes fazia coisa feia para se lembrar na
confisso, procurou no mastigar a hstia para que no sasse sangue, fez flautinha
de bambu, ficou preso pela piroca num gargalo de garrafa, molhou o pijama de noite
e teve medo de estar doente, ficou com pedra na maminha e perguntou  me o que
era, se apaixonou pela filha mais velha dos italianos do emprio, tirou o cavalinho da
chuva, pensou na morte da bezerra, chorou escondido, teve medo, descobriu que o
cu era imenso, teve vontade de morrer, ficou acordado de madrugada ouvindo o
galo cantar sem saber onde, sentiu dores nos culhes, comeu a negra Adelaide e
virou homem.1


          NO posso fazer Geraldo Viramundo virar homem sem antes falar no rio.
S quem passou a infncia junto a um rio pode saber o que o rio significa. Eu, como
no passei a minha, no posso saber. Sei s que Geraldo, mal acabava a aula na
escola, saa correndo feito doido em direo ao rio, do outro lado da cidade. s
vezes iam com ele alguns companheiros, os irmos; s vezes ele ia s. L
chegando, tirava a roupa toda e se atirava n gua, mesmo que estivesse fazendo
frio. Quando outros iam com ele, ficavam brincando de se empurrar, fazer guerra de
gua, mergulhar para passar debaixo das pernas uns dos outros ou simplesmente
para fazer borbulha. Os mais corajosos conseguiam cruzar a correnteza a nado e
atingir a outra margem. Um dia um menino morreu afogado, um pretinho chamado
Brejela, mas nesse dia Geraldo Viramundo no estava l, e portanto nada tem a ver
com a nossa histria. Quando ele ia s, em vez de pular de uma vez dentro d'gua,
ia entrando devagarinho, enterrando-se at a canela no barro viscoso do fundo. A
gua, em geral gelada, fazia seu corpo estremecer num arrepio que subia, subia... e
era disso que ele mais gostava. Quando suas pernas estavam quase desaparecidas

1
   margem das anotaes recolhidas durante minhas pesquisas sobre a vida de Geraldo Viramundo, h uma
rubrica de meu prprio punho que diz: "O episdio da negra Adelaide merece ser contato." Mas isto faz tempo
que anotei, e no me lembro absolutamente o que apurei na poca sobre a negra Adelaide, naquilo que concerne
o nosso heri. (N. do A.)
por completo na superfcie barrenta, o arrepio j na altura da virilha, ele em geral
parava. O frio, cortante como navalha, parecia separ-lo em dois, como se as
pernas fossem independentes do resto do corpo. Olhava para cima, para o cu que
escurecia com o sol posto, e para baixo, para o prprio sexo que mal tocava a
superfcie, encolhido como um passarinho a beber gua. Retardava o mais possvel
o momento de se molhar completamente, porque sabia que no fim o frio acabava lhe
dando uma sensao de prazer de ser cortado to aguda como a dor. S ento se
atirava de cabea, mergulhando. Nadava para o meio do rio, mergulhava de novo e
l embaixo abria os olhos. No enxergava nada, seno um vermelho escuro, grosso,
impenetrvel. O corpo largado ao sabor da correnteza se enredava nos ramos mais
compridos das plantas do fundo, enquanto um rumor longnquo se fazia ouvir
suicidamente, como uma cachoeira submersa. Ele soltava o resto do ar e descia
mais, tocando s vezes o fundo arenoso com os ps. Seus cabelos subiam, frouxos,
abrindo-se feito uma planta monstruosa. Enquanto isso ele contava mentalmente:
um, dois, trs, quatro, cinco, seis, sete, vendo quanto tempo agentava ficar sem
respirar. Jamais contava menos de vinte, era uma questo de honra. Em geral
chegava a trinta. Ento ganhava rpido a superfcie, sabendo que um segundo mais
e morreria. No podia tolerar a idia de que o homem no conseguisse ficar debaixo
d'gua o tempo que quisesse, como os peixes. (Da idia de que o homem um dia
pudesse voar como os pssaros j tinha desistido, desde que viu pela primeira vez
um avio.) J na tona, percebia que a correnteza o arrastara para muito longe, que
escurecera quase por completo e que no cu as primeiras estrelas brilhavam. A
maior delas incidia diretamente sobre a gua, multiplicando-se em reflexos, como se
subisse o rio. Ele nadava, nadava, em sua perseguio, mas ela se afastava
sempre. As rvores se aglomeravam em sombras nas duas margens, e no se ouvia
seno o muito distante. Ele erguia os olhos para a estrela, agitando os braos
n'gua, e gritava com todas as suas foras: "Estreeeela! Olha eu aqui, estrela!
Estreeeeela!" Ou simplesmente acenava-lhe com a mo, em despedida. E sentindo
a sua solido como uma fora, dono do mundo e de si mesmo, tocava a nadar para
a margem. Depois voltava para as suas roupas, a correr, trmulo de frio e de medo
da escurido.Em geral, ao chegar em casa, depois de todos j terem jantado, levava
uma surra de chinela de dona Nina e ia para a cama sem comer.
           POR FIM, o trem de ferro. O trem no parava em Rio Acima naquela poca.
Mas ainda assim sua existncia era um deslumbramento para a molecada. Todos
sabiam exatamente a hora que ele passava, iam postar-se na estrada, no alto dos
barrancos, junto  cerca de arame farpado, a esper-lo, grandioso espetculo
diariamente repetido. Apostavam para saber quem  que iria v-lo primeiro, colavam
o ouvido nos trilhos para ouvir o rudo das rodas. Assim que algum dava o alarme,
todos se colocavam em posio e dentro em pouco uma fumacinha apontava longe,
rolava no ar um rudo em crescendo e finalmente a locomotiva surgia l embaixo, na
curva da estrada.
           - Hoje no apitou na curva! - um deles protestava, sem tirar os olhos da
mquina. E o trem passava como um raio, num estrondo de ensurdecer, cobrindo o
cu de fumaa, agitando loucamente as plantinhas das margens, fazendo os
dormentes estremecerem no cascalho negro da estrada. Mal se podia ver quem ia
nas    janelinhas       dos     carros      que,     vidros     brilhando      ao     sol,   se     sucediam
vertiginosamente. Apesar disso, os que estavam embaixo corriam ao lado do trem,
desatinados, enquanto os mais bem situados, em cima dos barrancos, com mais
perspectiva, se limitavam a dar adeuses e bananas para os passageiros.
           Geraldo Viramundo,isolado num canto, ficava s olhando, olhando. Logo o
trem ia se afundando na distncia, levando consigo o barulho, a fumaa e a alegria
dos meninos. Ficava no ar um vazio, que era o trem j ter passado sem que nada
acontecesse de diferente, s restando esperar pelo dia seguinte. O despeito maior
de Geraldo Viramundo era o trem de ferro no parar em Rio Acima. Por que ser
que ele no parava?2
           - Porque no tem estao - respondeu um de seus irmos, quando um dia
Geraldo props a questo ao grupo.
           - No tem estao o qu! - falou outro. - Aquilo l no  estao?
           E apontou para a casinha de um s quarto junto  estrada, onde estava
escrito em letras pretas: RIO ACIMA.
           -  porque no tem ningum para tomar o trem.
           Mas um terceiro destruiu tambm esta explicao:
           - No tem ningum para tomar o trem porque o trem no pra.
2
 Consta que a estao da Central foi inaugurada em 1890, o que no deixou de trazer algum impulso ao lugar. O
certo  que,  poca dos fatos aqui narrados, o trem no parava l, sendo esta, mesmo, a causa do episdio que se
segue. (N. do A.)
        Ningum ficou sabendo por que o trem no parava. Geraldo Viramundo
calado, sem ouvir, pensando, pensando.
        - Eu sei por que o trem no pra.
        Todos se voltaram para ele.
        - No pra porque o maquinista no quer.
        Um "oh!" prolongado exprimiu o desapontamento geral. Geraldo Viramundo
acrescentou, como se falasse para si mesmo:
        - Mas se eu quiser, ele pra.
        Viu-se logo cercado de carinhas curiosas ou cticas. Ningum sabia que
misteriosa conexo poderia haver entre ele e o maquinista. Desafiavam:
        - Deixa de conversa...
        - Pra nada...
        - Nem se voc deitar na linha ele pra.
        Algum se lembrou de um boi que tinha sido esquartejado pela locomotiva
ali mesmo, na curva - o que provava de maneira definitiva a impossibilidade de fazer
o trem parar.
        - Pois vocs vo ver...
        Ficou tudo combinado, as apostas foram feitas. No dia seguinte, muito antes
da hora em que o trem costumava passar, eles j tinham ido para junto da linha.
Eram ao todo quinze: Dino, Zezico, Toninho, Vivi, Jacar, Celito, Nan, Joo
Mozinha, Joo Piudo Joo Molenga, Pingolinha, Bertoldo e Nazar - estes dois
ltimos irmos de Geraldo e duas meninas, a Cremilda, filha da professora e amada
de todos eles, e a pretinha Salom. A notcia da aposta com Geraldo Viramundo
tinha se espalhado depressa, pois ele punha em jogo a sua afamada coleo de
bolinhas de gude. Apostavam contra ela, respectivamente: um bodoque, um
canivetinho com saca-rolha, uma fivela de cinto, outro bodoque, cinco botes de
madreprola, uma manga-espada, um estojo com lpis e borracha, outro bodoque,
trs bombinhas de So Joo e uma tira de espanta-coi, um vidro cheio de vaga-
lumes, um pacotinho de pastilhas de hortel-pimenta, um pio com a fieira, um
canudo de lata, um beijo na boca e uma bexiga de boi - de acordo com as posses de
cada um.
        Geraldo Viramundo chegou com os bolsos cheios de bolinhas de vidro
(nunca perdeu de ningum na birosca), passou por baixo da cerca de arame farpado
e subiu o barranco onde os outros j esperavam. De propsito tinha deixado que
eles viessem antes, para dar mais importncia ao acontecimento.
           - Que  que voc vai fazer? - alguns perguntaram.3
           No se dignou de responder. Exigiu, antes, que enfileirassem na pedra
grande do barranco tudo que eles apostavam. Menos a Cremilda, que perderia um
beijo, segundo Geraldo tinha estipulado, porque seno no haveria nada.
           - E voc? - Cremilda quis saber. - Que  que voc perde?
           - Perco minhas bolas, j no falei? D mais de dez para cada um.
           - Quero l saber de bola de gude? - desafiou a menina, mozinhas na
cintura.
           Geraldo riu:
           - Ento perco um beijo tambm, pronto.
           E deu-lhes as costas, foi examinar um por um, com ateno, os objetos
enfileirados em cima da pedra. Deteve-se num bodoque malfeito, de forquilha
grande e torta.
           - Isso  bodoque mais aonde! No quero no.
           Joo Molenga fez logo cara de choro.
           - T bem, seu fresco, eu aceito: no  preciso chorar no.
           Nan, o mais velho de todos, se adiantou:
           - No chama ele de fresco no, que ele  meu irmo.
           - Merda pra voc e pra ele.
           A importncia de Geraldo atingiu o auge naquele momento. Ningum nunca
tinha mandado Nan  merda sem ir tambm logo em seguida, e depois de apanhar
na cara. Era o que provavelmente aconteceria, se algum no tivesse gritado:
           - T na hora! Evm o trem!
           Ao longe apontava a primeira fumacinha, j conhecida. Viramundo desceu o
barranco aos pulos, enquanto a molecada se ajeitava l em cima. Escorregou para o
leito da estrada, ouviu no ar o rudo da locomotiva cada vez mais forte. Ela j surgia
l longe, na curva, apenas uma mancha negra aumentando, aumentando. Geraldo
Viramundo saltou sobre os trilhos, pulou dois dormentes e se postou sobre o


3
  Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a
oportunidade de conhecerem novas obras.
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receb-lo em nosso grupo.
terceiro, firme, pernas separadas, bracinhos erguidos. Os meninos l em cima
gritavam de horror, alguns fugiram, outros esconderam a cara.
        - Sai, Geraldo! Sai! - berrou apavorado o Bertoldo, seu irmo.
        A mquina, ameaadoramente visvel e crescendo como um demnio,
apitou pela primeira vez. Depois apitou outra, mais outra - Geraldo Viramundo olhou
para ela pela ltima vez e fechou os olhos, sentindo o dormente vibrar sob seus ps.
O apito agora era continuado, as rodas rangiam nos trilhos, o barulho perdia o ritmo
numa desordem de silvos e entrechoque de ferros. Geraldo, braos ainda erguidos,
lembrou-se de prometer vinte ave-marias e vinte padre-nossos se o trem parasse -
no se ele no morresse, mas se o trem parasse - e foi a ltima coisa de que se
lembrou. Os freios rinchavam doidamente, a mquina esguichava fumaa e vapor
por todos os lados, perdendo velocidade, j se podia distinguir o brao do
maquinista do lado de fora em frenticos sinais. Embora quase devagar, a
locomotiva, a resfolegar como um touro enfurecido, j estava tremendamente perto
quando se deteve, num arranque ltimo e mais forte, que fez se chocarem com
violncia os carros uns nos outros do primeiro ao ltimo.
        No alto do barranco os meninos naquela sarabanda de emoo espiavam,
plidos, boquiabertos, desfigurados - os poucos que tiveram coragem de olhar.
Geraldo Viramundo abriu devagarinho os olhos e viu de perto, a menos de dez
metros, aquela mquina preta e enorme, avassaladora, a muralha de ferro do limpa-
trilhos, o vidro do farol brilhando como o olho de Deus, aquele arfar incessante do
monstro derrotado. Sentiu subir dentro de si uma onda de entusiasmo, agitou
loucamente os braos, pulando sobre o dormente:
        - Ele parou! Ele parou, pessoal! Ele parou!
        O maquinista, no seu macaco riscadinho e sujo de carvo, descia com
dificuldade a escadinha, seguido do foguista, enquanto das janelas dos carros
cabeas assustadas e curiosas assomavam, no meio de um perguntar incessante:
que aconteceu? que aconteceu?
        - Menino filho da puta, eu te ensino! - gritava o maquinista, ganhando o
cho, mas ningum ouviu, tamanho era o rudo da caldeira, esguichando vapor e
gua fervente na estrada. Geraldo Viramundo saiu pulando de dormente em
dormente e parou mais adiante, enquanto o maquinista tentava alcan-lo, gemendo
de dor, pois levara uma esguichada de vapor nas canelas.
        - Parou, pessoal! Eu no disse que parava? Parou!
        J no podia mais de alegria. Danava sobre o carvo mido da estrada,
como um doido. Depois ganhou o barranco com um salto, no justo momento em que
o maquinista ia alcan-lo. Quase foi apanhado pela perna, mas nem viu seu
perseguidor. Corria agora ao longo do barranco, se aproximando dos companheiros.
Num ltimo olhar de orgulho para a mquina l embaixo, se deteve bem no alto e
bateu no peito:
        - Eu! Eu fiz o trem parar!
        Retirou do bolso as mos cheias de bolinhas de vidro de todas as cores,
jogou-as para cima:
        - Toma, negrada! No quero aposta nem nada! Quantas bolas quiserem!
Todas, todas! Parou, vocs viram? Eu disse que parava!
        E mediu com o olhar o tamanho do comboio, como se avaliasse a extenso
de sua faanha. A seus ps, o maquinista tentava subir o barranco, enlouquecido de
raiva, vermelho, suado, aos palavres. O chefe do trem se aproximava:
        - Que foi? Que aconteceu? Por que voc parou?
        - Foi essa peste de menino que ficou na linha!
        Alguns passageiros tinham descido dos carros para vir espiar. Geraldo
Viramundo desbarrancou com o p descalo um pouco de terra sobre a cabea do
maquinista. Os meninos j fugiam pelo pasto, com medo do chefe do trem. Na pedra
grande no tinha ficado um s objeto. Ningum pensou na hora em recolher as
bolinhas, todos pensaram em voltar para busc-las depois. Geraldo Viramundo nem
olhou o que se passava na estrada: ignorou o chefe do trem e o foguista que j
subiam o barranco, para apanh-lo, cada um de um lado, e enfiou-se pela cerca de
arame farpado, ganhou tambm o pasto. Na fuga, passou pelo Pingolinha, que
corria com dificuldade com suas perninhas tortas.
        - Corre, Pingolinha! - gritou alegremente.
        Do outro lado do pasto, junto do campo de futebol, avistou Cremilda no seu
vestidinho curto, encostada numa rvore, olhando para todos os lados, plida,
ofegante, transfigurada de medo.
        - Cremilda!
        Acercou-se dela correndo, segurou-lhe o rosto com as duas mos:
        - Cremilda, eu quero o meu beijo.
        A menina s teve tempo de encar-lo com olhos enormes. Ele beijou-a com
tanto mpeto que os dois rolaram no capim, abraados.
        - Mais Cremilda mais!
        E tomava a beij-la, s gargalhadas. Cremilda chorava.
        Mais tarde, a caminho de casa, Geraldo Viramundo se lembrou dos dois
irmos que j deviam ter chegado, e era provvel que contassem tudo para os pais.
Estremeceu de medo, achou que talvez fosse melhor chegar de noitinha, e
persignou-se. Ento se lembrou da promessa de vinte ave-marias e vinte padre-
nossos. Resolveu rezar cinqenta, caso desta vez no apanhasse.
        Rezou vinte.


        MAS o pior no foi isso.
        O trem acabou indo embora, para no aumentar o atraso, e tudo parecia
indicar que o caso no teria maiores conseqncias. No dia seguinte Geraldo
Viramundo era um heri na escola. At a professora, me da Cremilda, j sabia da
proeza, e, para aumentar-lhe a glria, passou-lhe um pito em plena aula. Depois o
caso se espalhou pela cidade e de noite no botequim os homens contavam uns para
os outros. Quando encontravam o Boaventura, gracejavam:
        - Aquele seu filho  de fazer parar o trem.
        No princpio o portugus ficava aborrecido e prometia mentalmente dar no
filho mais umas surras adicionais, por conta da fama que o caso ganhou. Acabou,
porm, se sentindo intimamente envaidecido, embora no o confessasse. E diria
para a mulher:
        - Esse menino s vezes me deixa admirado. Ele tem qualquer coisa que eu
no sei no.
        Quando Geraldo Viramundo passava pela olaria, os operrios apontavam:
        - L vai o moleque que fez o trem parar.
        E muitos perguntavam a ele se era verdade, como  que tinha sido.
Geraldo, em vez de se entusiasmar, no contava nada e conclua, pensativo:
        - Esse povo  meio bobo.
        Acabou tomando raiva do caso, que deu que falar durante algum tempo.
Mas num domingo o Pingolinha, o menor de todos que o haviam presenciado (tinha
cinco ou seis anos) e que ficara numa admirao sem limites pelo Geraldo
Viramundo, resolveu imitar o seu heri: tomou por testemunha outro molequinho da
mesma idade, e foi para a estrada de ferro fazer parar o trem. Um terceiro que ficou
com medo de ir denunciou ao pai:
        - O Pingolinha foi l no trem de ferro fazer ele parar.
        - Quem  "Pingolinha", menino?
        O homem, logo que entendeu o que o filho dizia, saiu correndo afobado a
avisar seu Gervsio, o sapateiro, pai do Pingolinha. Algum mais j chegava
dizendo:
        - Vi seu filho com um outro passando a cerca l perto da estrada.
        O sapateiro, que mesmo sendo domingo estava trabalhando, largou a sola e
o martelo, na pressa entornou uma caixa de pregos e saiu desatinado. Em pouco
todo mundo na rua sabia e foi tambm para l, engrossando uma pequena multido.
O trem sempre passava s trs e quinze, trs e vinte da tarde, com os atrasos. E o
sino da matriz tinha acabado de bater trs horas.
        Avistando de longe o negro Tobias, encarregado da estrada, seu Gervsio
gritou, aflito, enquanto corria pelo pasto, cortando caminho:
        -  Tobias, o trem j passou? O trem j passou?
        J tinha passado. Naquele dia o trem no se atrasou.
        Uma hora mais tarde o sapateiro voltava pela picada, caminhando devagar,
como um autmato, e seguido pelos outros como numa pequena procisso, a
carregar nos braos, enrolado no prprio avental, o que restava do corpo do
Pingolinha. No via nada, olhos imveis e saltados, no ouvia nada, embora os
outros falassem baixinho com ele, tentando consol-lo, tirar-lhe o filho dos braos.
        Eram sete horas e j estava escuro, enquanto continuava a chegar gente na
casa do seu Gervsio, no fundo da sapataria. Era uma casa de cho de tijolo e
coberta de telha v. Havia duas velas acesas e uma coisa informe embrulhada em
cima da mesa. O vigrio j estava l, acabando de improvisar um altarzinho. A um
canto as mulheres puxavam o tero. Os irmos do Pingolinha espiavam da porta do
quarto, uma escadinha de moleques de p descalo, sujos e barrigudos: olhavam
admirados para o lenol enrolado sobre a mesa, sem saber o que continha. A me
chorava baixinho, recostada no ombro de outra mulher. Entre os homens mais
afastados, corria de mo em mo uma garrafa de cachaa, e um rumor se
engrossava:
        - ...se no fosse ele...
        - ...peste de menino.
        - ... coisa que se invente? S com o diabo no corpo.
        - ...e em vez do filho da me morrer, quem morre  o outro.
        - ...que no tinha nada com isso.
        - Que no tinha.
        Algum de repente perguntou:
        - E por que ser que o Boaventura no veio?
        - Portugus safado: no teve coragem de vir.
        Este era um que devia na venda do Boaventura. Mas a onda ia aumentando
e em pouco um mais exaltado gritava:
        - Pois vamos l saber por que  que ele no veio.
        E saiu  rua. Os outros o seguiram, a sala se esvaziou. O sapateiro quieto
num canto, sem ver nada, sem falar nada, lgrimas escorrendo pela cara, fazendo
brilhar as cerdas brancas da barba. O vigrio correu para a porta:
        - No faam isso! Onde  que vocs vo?
        Ningum respondeu. Ganharam a estrada e tocaram para a casa do
portugus. Eram nove horas e o caminho estava escuro, no se enxergava nada.
Dois faris rasgaram a noite, uma buzina pediu passagem e logo o caminho se
perdeu na escurido com suas luzinhas vermelhas a caminho de Belo Horizonte. Os
homens retomaram a estrada e continuaram, envoltos numa nuvem de poeira, cada
vez mais excitados, dispostos a tudo.
        Boaventura no tinha ido simplesmente porque no sabia de nada. Como
era domingo, tinha fechado a venda e assim ningum esteve l, ningum lhe contou.
Mas de nada adiantaram suas explicaes. Os homens falaram alto, xingaram,
cobriram de insultos toda a sua famlia. S no acabaram depredando a casa dele e
saqueando a venda porque de repente comeou a cair uma chuva grossa, que os
botou em debandada. Tremendo de raiva e humilhao, o portugus entrou de novo
em casa, apanhou o chapu e o guarda-chuva e tomou a sair.
        No quarto, enquanto os irmos dormiam, Geraldo Viramundo tinha ouvido
tudo: a discusso l fora na estrada e a gritaria dos homens o acordaram. Quando
ouviu falar no trem de ferro, fora escutar da janela, escondido. Achou a princpio que
ainda era o seu caso que tinha comeado a dar complicao. Mas ficou sabendo
logo que o trem tinha apanhado o Pingolinha. Sentiu de modo confuso que os
homens l fora o culpavam disso, culpavam seu pai. Voltou para a cama e chorou
quase a noite toda.
        No dia seguinte foi o enterro. Para espanto de todos, o Boaventura
compareceu com a mulher e a filharada, todos calados e arrumadinhos. Geraldo
Viramundo usava uma roupa de brim ordinrio, j meio apertada para ele. O pai
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havia estado na casa do sapateiro na noite anterior, e l no encontrou mais
ningum: os outros se abrigaram da chuva no botequim, e o velrio passara a ser
feito de longe.
          Aos dez anos de idade Geraldo Viramundo viu um enterro pela primeira vez.


          COM o tempo o acontecimento foi sendo esquecido. No princpio perdurou
na cidade certa animosidade contra o Boaventura, como se seus filhos fossem
responsveis pelo que de mal acontecia com os filhos dos outros. Os fregueses da
venda diminuram. Mas nem assim o portugus, que agora fornecia mantimentos
para vrias localidades vizinhas, deixava de ir lentamente prosperando. Breno, o
filho mais velho, ajudava no armazm, e a estrada, cada vez mais movimentada,
fazia o resto. Um belo dia, sem que ningum soubesse como, Boaventura
encomendou a construo de um bangal na cidade. E os amigos foram voltando.
          Geraldo Viramundo, que suportou a importncia de ser ovelha negra entre
os meninos da cidade, foi-se tomando de novo a figura apagada que corria pelos
pastos, tomava banho no rio, empinava papagaios.
           Mas nunca mais se misturou com os outros. Afastou-se at dos irmos e
andava sempre sozinho, pelos cantos, ensimesmado e pensativo. Quando
completou quinze anos, comeou a trabalhar na olaria. Os outros irmos j
trabalhavam l. Terminara o grupo escolar e passava o dia junto ao calor do grande
forno, lidando com tijolos de barro como se fossem pes. De noite saa
vagabundando pela rua, cruzava a ponte sobre o rio, s vezes, depois de muito
andar, acabava saltando a cerca do pasto, ia sentar-se na pedra grande do
barranco, junto  estrada de ferro. Lembrava-se da morte do Pingolinha, nunca mais
esqueceria a impresso que teve no enterro, o caixozinho branco que na ltima
hora arranjaram, o cortejo a p da sapataria ao cemitrio, a cara do seu Gervsio, a
reza do padre, a terra caindo na sepultura com um barulho oco. Olhava longamente
os trilhos de ao que brilhavam  luz da lua, e se perdiam longe, no infinito. Sentia
uma emoo tom-lo de repente, que era a um tempo o medo da morte e uma


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vontade de partir. Nada ele desejava mais na vida que um dia tomar o trem e ir para
longe, longe de todos, para um lugar que no sabia onde.
        No dia que virou homem, um sentimento novo se apossou dele. Porque
Geraldo Viramundo virou homem de repente, num dia em que, s quatro horas da
tarde, olhou para o mundo e surpreendeu um de seus mistrios.
        Era uma tarde de sbado, e ele estava deitado debaixo de uma mangueira
no quintal de sua casa. Havia silncio em tudo, pairando sobre as rvores e as
coisas ao redor. O sino da igreja tinha acabado de bater. Ento Geraldo Viramundo
se apoiou nos cotovelos e estendeu o olhar, meio para longe, meio para cima.
Centenas de vezes tinha estado ali, naquela mesma posio, era uma paisagem
conhecida e to familiar como o seu prprio modo de viver, que nela se completava.
Mas naquele mesmo instante uma buzina de automvel soou na estrada, um boi
mugiu no pasto, uma menininha de vermelho passava correndo l longe, na ponte,
um vento leve comeou a sacudir a ramagem das rvores. O momento assim
surpreendido parecia conter um significado qualquer que lhe escapava, e a tudo se
subordinava, como as notas de uma msica. Geraldo Viramundo se sentiu mais s
do que quando mergulhava no rio, mas era uma solido feita de desamparo e de
saudade da infncia - quando, minutos mais tarde, se ergueu e caminhou em
direo  casa, percebeu que no era menino mais. O mugido do boi se repetiu, a
menina de vermelho era agora plenamente visvel, muito mais perto, e se tomava
mesmo na filha do seu Raimundo da olaria, levando a marmita do pai. Outra buzina
se fez ouvir na estrada e o vento continuava a soprar sobre as rvores. Mas agora
tudo eram incidentes naturais na paisagem, sem msicas e sem mistrios. Logo a
me o chamou da janela para a janta.


        POR essa poca, Boaventura se mudou para a cidade, deixando a casinha
da estrada e a venda aos cuidados de seu filho Breno. Um padre seu conterrneo,
de nome Limeira, que estava de passagem por Rio Acima, abenoou a casa e l se
hospedou por algum tempo. Fora vigrio na cidade natal do Boaventura, e ambos
no resistiram  tentao de matar saudades da terrinha.
        Um dia Geraldo Viramundo perguntou ao padre:
        - Padre Limeira, em que  que o padre  diferente dos outros homens, alm
da batina?
            Esta pergunta, feita assim sem mais nem menos, desconcertou o padre.
Voltando-se vivamente, ele se dispunha mesmo a censurar aquele desrespeito, mas
deu com uns olhos srios que o fitavam, esperando a resposta, e no parecia haver
neles a inteno de desrespeitar ningum.
            - Que pergunta, menino - falou ento. - O padre  o representante de Deus
na terra.
            - Eu sei - Geraldo Viramundo insistiu: - Mas eu quero saber a diferena
entre o padre e os outros homens. Por que os outros no podem ser representantes
de Deus na terra?
            Padre Limeira no sabia o que dizer, nem onde o rapazinho queria chegar:
            - O padre se prepara para isso - respondeu evasivamente. - Ele  tocado
pela Graa.
            - Tocado por quem?
            - Pela Graa: pelo divino Esprito Santo. Voc no estudou catecismo?
            - E por que os outros homens no so tocados pelo divino Esprito Santo?
            Agora o padre j se pusera mais  vontade para explicar:
            - No so porque levam uma vida de pecados e dissoluo. O padre tem o
poder de Deus para perdoar estes pecados. Quando voc se confessa, Deus perdoa
seus pecados atravs do padre.
            - O padre nunca peca?
            - Peca tambm,.ora essa. Mas  diferente.
            - Isso  que eu perguntei: diferente em qu?
            Nesse ponto o padre percebeu que tudo ia comear de novo e perdeu a
pacincia:
            - Por que  que voc quer saber?
            - Porque eu talvez resolva ser padre.
            Padre Limeira esperava por tudo, menos por esta.
            - Muito bem, meu rapaz. Fico satisfeito em saber. Vou lhe explicar: a
diferena est em que o padre dedica-se inteiramente a Deus. Foge dos prazeres do
mundo e pe-se a servio da religio, pela prtica da orao, da obedincia, da vida
asctica, da meditao.
            Geraldo Viramundo quis saber o que era "vida asctica". O padre explicou-
lhe como pde, e a conversa ficou nisso. Mas influenciada pela presena do padre,
a vida de Geraldo ia-se transformando inteiramente. O misticismo crescia nele com
poderosas foras: comeou a policiar com dureza os seus pecados, duplicou o
nmero de oraes durante a noite. E tendo entendido  sua maneira o que o padre
lhe ensinara, comeou tambm a praticar o seu ascetismo: passou a recusar a
sobremesa depois do jantar, e para que ningum desconfiasse, metia as mos nos
bolsos e saa assobiando; todas as noites, antes de se deitar, ficava parado com os
braos abertos, sem se mexer, enquanto contava baixinho, como no tempo em que
mergulhava no rio, at que a dor no corpo o prostrava sobre a cama; ficava se
excitando mentalmente, a pensar as maiores imoralidades, j deitado, at que o
sexo lhe doa de tanto desejo, e depois, mos atrs das costas, se recusava.
Quando fracassava neste ltimo sacrifcio (o que aconteceu quase todas as vezes),
martirizava o corpo no dia seguinte, intensificando ainda mais os outros. Eram de
uma variedade infinita, desde o mosquito que lhe pousava na testa e que ele,
embora morrendo de ccegas, se recusava a espantar, at a vitria sobre o desejo
de olhar para trs quando passava a filha dos italianos. Tambm passou a cultivar a
obedincia de uma maneira exagerada, a ponto de os irmos abusarem dele. Um
dia Breno, o mais velho, achou graa quando o ps a descarregar sozinho umas
sacas de arroz de um caminho, e ao fim deu com ele estendido no cho, prostrado
de cansao:
        - Arriou a trouxa, seu frouxo?
        S a meditao  que no conseguia atingir, pois, embora fosse hbito seu
j de longo tempo andar sozinho, absorvido em pensamentos, no sabia
propriamente em que meditar.
        - Meditar em que, padre Limeira?
        Um dia, sem pensar muito tempo, enfrentou o espanto geral da mesa de
jantar, falando de repente:
        - Papai, eu quero ser padre.
        A presena do padre Limeira fez o resto. Por esse tempo, alm do mais,
Geraldo Viramundo j no trabalhava na olaria, pois o Boaventura, que, como eu
disse, tambm tinha comeado na olaria, estava melhor de vida e achava o trabalho
l pesado demais para o filho. Assim sendo, Geraldo Viramundo no trabalhava em
lugar nenhum e passava o dia inteiro dentro de casa. Tudo foi assentado com o
padre Limeira, que se disps a lev-lo para o seminrio.
        Houve choradeira de dona Nina, o Boaventura disfarou uma lgrima em
duas graolas na hora da despedida e numa manh de fevereiro Geraldo Viramundo
deixou Rio Acima e tomou o trem de ferro pela primeira vez na vida (j parava l) a
caminho de Mariana.


        CAPTULO II


        Onde no se conta nada do que se passou com Geraldo no seminrio de
Mariana, mas se explica como ele saiu de l e se tornou Viramundo.


        NO disponho de nenhum dado sobre o perodo da vida de Geraldo
Viramundo no seminrio. E isso  tanto mais lamentvel, quanto se sabe que esse
perodo foi de fundamental importncia para o seu destino. Houve, mesmo, entre os
estudiosos do assunto, quem aventasse ter ido ele para o Caraa - hiptese logo
afastada, pois sobre no apresentar nenhum fundamento que a sustentasse, sabe-
se que os egressos daquele estabelecimento de ensino apresentam em sua
formao certas caractersticas (como o hbito de citaes em latim) inexistentes na
de Viramundo.
        Um padre meu amigo, que estudou em Mariana naquela poca, me diz de
um rapazinho que logo no terceiro dia de aula deu uma lambida na mo do bispo em
vez de beijar-lhe o anel, por ocasio da visita de Sua Eminncia ao seminrio. Mas 
pouco provvel que se trate de Geraldo Viramundo, ainda que a descrio que lhe
fiz condiga com a lembrana que ele tem, porque, como vimos, o rapaz sara de Rio
Acima inteiramente diferente do que era antes. Em Mariana, onde estive para tal fim,
no encontrei a menor notcia a seu respeito, seno a que se prende ao
acontecimento que abalou toda a cidade e que motivou sua sada de l.
        Assim, a bem da verdade, sou obrigado a passar por cima de suas
inquietudes e deslumbramentos, distraes e maceraes, arroubos de misticismo e
insubordinao, tentaes diurnas ou noturnas, inclusive a tentao da carne, ou
propriamente dita - enfim, tudo que possa ter constitudo a sua grande experincia
de seminarista. Sei que com isso estou me dispensando de lanar mo de todo um
sugestivo vocabulrio que, alm de amparar-me a prosa nos meandros em que ela
se mete, levada pelo meu surpreendente personagem, dar-lhe-ia tambm certo
colorido de espiritualidade que falta  vida dele mas sobeja nas minhas intenes:
Deus, missa, novena, matina, batina, orao, confisso, comunho, incenso,
turbulo, f, esperana, caridade, liturgia, domingo, contritamente, aleluia, devoo
episcopal, ladainha, e por a afora - sem falar no latinrio: peccata mundi, Deo
gratias, Dominus vobiscum, et cum spiritu tuo - para limitar-me ao episdio da
confisso da viva e todas as suas lamentveis conseqncias.


         HAVIA em Mariana por essa poca uma viva, que se apresentava como a
viva Correia Lopes, no somente porque seu defunto assim se chamasse, mas
tambm porque seu primeiro nome, Pietrolina, pela mettese do ie em ei, a
sonorizao do t em d, e a sncope do r (fenmenos etimolgicos que seria ocioso
enumerar aqui, no fora para revelar que estudei a fundo o assunto), transformou-se
em Peidolina, ofensivo ao decoro da virtuosa famlia mineira dessa viva que seu
marido    morrera   em     circunstncias   bastante   suspeitas   e   para   ambos
comprometedoras. Certo dia, amanhecera morto na cama, a seu lado, e ela
explicava, corando, que sua morte at que fora bem natural. Corriam uns versinhos
entre a molecada:


         Mais um marido termina
         Comprometido ao morrer:
         Meteu-se com a Peidolina,
         Morreu de tanto meter.


         Pois essa Dona Peidolina, que terei por bem daqui por diante chamar
apenas de viva Correia Lopes, depois da morte do marido resolvera tornar-se
virtuosa ia todos os sbados  capela do seminrio se confessar com um padre
chamado padre Tibrio, segundo ela o nico que a compreendia. Alguns, inclusive o
padre, sustentavam que ela ficara mesmo virtuosa. Outros, que ela estava tentando
seduzir o prprio padre.
         Se havia alguma razo para duvidar do comportamento da viva, alm dos
versinhos que acima transcrevi (mais pelo interesse folclrico do que pela qualidade
literria), no me cabe cogitar aqui, j que a vida ntima dessa senhora s interessa
ao nosso relato desde o momento em que veio a cruzar com a de Geraldo
Viramundo. Tal cruzamento se me permitem a expresso, se deu na prpria capela
do seminrio, em circunstncias que, para melhor entendimento, serei forado a
explicar com mais vagar.
          Naquele sbado Geraldo Viramundo, ento com dezoito anos, saiu da aula
                                                                                                       5
de Teologia com os colegas, mas em vez de se dirigir ao ptio, como geralmente
faziam todos na hora de folga, foi para a capela, naquele momento deserta, para
meditar um pouco. Era agora um rapazinho mirrado e triste, com duas espinhas na
testa, precocemente envelhecido, a mocidade e alguns dentes irremediavelmente
estragados, que sabia de cor os Evangelhos e vrios trechos de Santo Agostinho.
Nada na sua figura faria lembrar o menino que ele fora, nem sugeria o homem que
ainda viria a ser. Estava, por assim dizer, num instante de transio em que a
existncia parece pairar em suspenso entre dois vazios ou entre dois mistrios que
se completam; atingira aos dezoito anos aquele momento de no ter mais o passado
como companheiro nem de reconhecer suas vises, que o escritor Mrio de Andrade
atingiu aos cinqenta. Esse momento, que  exatamente daqueles capazes de
decidir um destino, talvez tenha sido toda a sua vida dentro do seminrio, talvez
tenha sido o exato minuto em que decidiu abrir mo das distraes do ptio em favor
da meditao na capela - coisa que nunca lhe ocorrera antes.
          Meditou, meditou, meditou. Em que meditava Geraldo Viramundo? Meditar
em qu? Eis uma pergunta que um dia o prprio Geraldo fez, e o velho padre
Limeira no soube responder. Nem eu, tampouco, o saberia. Propus-me narrar as
aventuras e desventuras de Geraldo Viramundo, e suas peregrinaes, valendo-me
dos dados que tenho  mo e jogando-os com a mesma objetividade com que o
jogador maneja os dados propriamente ditos - o que no inclui as suas meditaes.
Portanto, digamos genericamente que Geraldo Viramundo meditou no seu passado,
nos irmos distantes, na casinha de Rio Acima, na vida que j no tinha, na
Cremilda e no Pingolinha, nos seus jogos de infncia. Na verdade seus
pensamentos, embora dessa ordem, deviam ser bem intensos, pois ao fim de certo
tempo ele comeou a chorar. E tanto chorou, sentado no banco da capela, que em
breve suas lgrimas formavam uma larga poa nos ladrilhos.
          Mas eis que a porta da capela se abre e entra o padre Tibrio. Para no ser
apanhado em flagrante delito de choro, pois o padre Tibrio era bastante bondoso
como homem, mas desgraadamente chato como padre, Geraldo Viramundo se
valeu da sombra de uma coluna para ocultar-se. O padre, porm, no se dirigiu 
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sacristia, como era de se esperar, mas veio caminhando em direo ao altar-mor - e
fatalmente surpreenderia o seminarista atrs da coluna se este no se refugiasse no
confessionrio.
          Em duas faltas incorria Viramundo: a de estar chorando secretamente, pois
no havia dor, nem aflio, nem sofrimento que passassem despercebidos a padre
Tibrio naquele seminrio; e a de estar meditando na hora de folga, o que, segundo
a lgica do padre, revelaria ter ele folgado na hora de meditar. A estas se somava
agora uma terceira, bem mais grave, fosse ela descoberta - pois a gravidade das
faltas, pelo menos no entendimento dos seminaristas, estaria em se deixarem
descobrir pelo padre Tibrio: a de ter-se escondido dentro do confessionrio.
          Mas padre Tibrio no o descobriu. Ajoelhou-se diante do altar-mor, fez o
nome-do-padre e olhou para a porta, depois de consultar o relgio:
          - A Peidolina hoje no veio - falou em voz alta. - Graas a Deus.
          Tornou a ajoelhar-se, persignou-se outra vez e, depois de coar-se por
sobre a batina de maneira nada clerical, atravessou de novo a capela em direo 
sada.
          Assim que se viu s, Geraldo Viramundo pensou em sair do confessionrio
e da capela, para se juntar aos outros na hora de folga, que j devia estar
terminando. Mas um irresistvel abatimento o possura depois da crise de choro,
dando-lhe aos membros inesperado torpor. Esticou as pernas molemente, ajeitou-se
no banquinho de madeira, encostou a cabea na parede do cubculo e cerrou os
olhos.
          Novamente meditou, e novamente deixarei que ele medite em paz. Apenas
direi que no meditou muito tempo, porque em breve o envolvia aquela preguia que
sucede s meditaes, conhecida dos santos e eremitas, e aquele sono que sucede
 preguia: Geraldo Viramundo adormeceu.


          DESPERTOU-O a voz da viva Correia Lopes, sussurrada atravs da
palhinha:
          - Demorei muito hoje, padre Tibrio?
          Geraldo Viramundo, sobressaltado, se endireitou no banco e pensou
imediatamente em levantar-se e sair do confessionrio. Mas a voz da viva o
deteve:
          - O senhor foi to bonzinho em ter me esperado.
        .Houve      um   instante   de   silncio.   Viramundo     pensava   agora    nas
conseqncias que adviriam se sasse e se a viva contasse para o padre. Ficou
calado,  espera.
        - O senhor sabe? - prosseguiu a mulher, soprando atravs da janelinha: -
Na ltima vez que eu me confessei, sbado passado, no tive tempo de rezar toda a
penitncia antes da comunho. Ficaram faltando duas ave-marias e dois padre-
nossos, que eu rezei depois. Tem importncia, padre Tibrio?
        Geraldo Viramundo continuava calado, pensando em dizer claramente: Eu
no sou o padre Tibrio, minha senhora. A frase se revirava na sua cabea, ele com
medo de diz-la. O suor comeava a brotar-lhe da testa. Acabou deixando escapar
apenas um "no", com voz de padre em confessionrio.
        - Bem, ento eu vou comear no ponto em que deixei no sbado passado.
        E comeou. Se h quem pense que vou passar agora a revelar os pecados
da viva Correia Lopes, muito se engana. Eles, por si s, bastariam para fazer com
que Geraldo Viramundo de novo adormecesse, e com ele, eu e meus possveis
leitores - no fosse o que se passou em seguida.
        Depois de desfiar seus interminveis pecadinhos, a viva Correia Lopes
comeou a estranhar o silncio do padre:
        - Padre Tibrio - ela chamou.
        Era preciso responder alguma coisa. Geraldo Viramundo fez apenas "Ahn?",
atravs da janelinha, e continuou calado.
        - Pensei que o senhor tivesse dormido...
        Viramundo fez de novo "Ahn", desta vez em tom reticente. A mulher ficou
em silncio,  espera. Como ele no dissesse mais nada, comunicou:
        -  s, padre Tibrio.
        Se    continuasse     indefinidamente        resmungando     "ahn"   dentro   do
confessionrio, a viva nunca mais iria embora. E agora, que fazer? Havia o perigo
de padre Tibrio voltar de uma hora para outra. Ento pensou em falar apenas "est
bem", mas, em se tratando de pecado, no podia estar bem, e sim estar mal, muito
mal, minha filha - qualquer coisa assim. Em vez disso perguntou, numa voz
bafejada, o mais clerical que lhe foi possvel:
        -  s?
        -  s - repetiu a viva, temerosamente, e acrescentou: - Bem, padre
Tibrio, h mais, e o pior. Quero lhe pedir um conselho.
         - Ahn.
         -  a respeito do meu marido. O senhor sabe, eu at j tinha esquecido tudo
o que se passou, no ? Mas acontece que agora ele comeou a me perseguir, o
senhor nem imagina. Aparece para mim e me diz coisas, entro no quarto e ele j
est l na cama me esperando. No agento mais. E o senhor sabe o que ele quer.
         - Ahn.
         - Pois . Ele quer, quer, quer. No h quem agente. Me atormenta que s
o senhor vendo. O pior  que... eu tambm quero, e um dia eu acabo no resistindo.
Como  meu marido, eu pensei... O senhor acha que eu posso?
         Geraldo Viramundo j se esquecera das precaues e se interessava
vivamente pelo que lhe contava a viva:
         - Pode o que, minha senhora?
         A viva levou um susto ante a pergunta, estranhando a voz diferente do
padre. Mas ainda assim prosseguiu:
         - O senhor sabe, padre! Ele quer dormir comigo..
         - Ele quem?
         - O meu marido!
         - O seu marido j no morreu?
         A essa altura a viva Correia Lopes se convenceu de que definitivamente
alguma coisa de errada se passava naquele dia com o padre Tibrio (o nico que a
compreendia), como j vinha desconfiando desde o princpio.
         - Padre Tibrio, o senhor hoje est muito esquisito.
         Geraldo Viramundo ficara indignado:
         - Estou esquisito, primeiro, porque no sou o padre Tibrio. Segundo, o que
acho esquisito  a senhora...
         - Hein? O qu? No  o padre Tibrio?
         - ...vir me dizer sem mais nem menos que o seu marido, at depois de
morto, ainda queira fornicar com a senhora. Pois no foi disso que ele morreu?
Terceiro, porque se a senhora tambm quer...
         - Quem  o senhor? Quem  o senhor?
         - Sou um seminarista. Se a senhora tambm quer, ento isso quer dizer
que...
         A viva dava gritinhos:
        - Um seminarista? Ento eu me confessei com um seminarista? E  padre
Tibrio? O que  que o senhor est fazendo a dentro?
        Geraldo Viramundo prosseguia, imperturbvel:
        - ...quer dizer, de duas, uma: ou o seu marido no morreu, e a senhora
ento no tem nada que estranhar ele querer, ou ele morreu mesmo e - que a paz
do Senhor seja com ele! - a senhora est querendo fornicar com algum mais. Os
mortos no fornicam, dona Peidolina.
        - Peidolina  a sua me!
        - Perdo, minha senhora, no tive intuito de ofend-la. Mas nada de
confuses: a senhora no pode enganar o seu marido dormindo com ele prprio - e -
evidentemente  a isso que a senhora quer chegar. Mas essa histria est muito mal
contada. Por que a senhora no conta para o padre Tibrio a coisa como ela , sem
essas sutilezas? So Paulo disse para as vivas: "Todavia, se no tm continncia,
casem-se." Epstola aos Corntios, nmero sete, versculo nove. Por que a senhora
no torna a se casar?
        Nesse momento a viva, j histrica, gritava a plenos pulmes e xingava
nomes de fazer corar um frade de pedra. Como Geraldo Viramundo no fosse frade
e muito menos de pedra, mas seminarista, e de carne e osso, pouco se importou
com a gritaria da viva e j ia saindo calmamente do confessionrio, quando chegou
o padre Tibrio, todo afobado:
        - Que foi que houve? Que aconteceu?
        No dia seguinte Geraldo Viramundo era expulso do seminrio.


        O INCIDENTE no terminou a. No se sabe como, a histria da confisso
da viva Correia Lopes se espalhou imediatamente por toda a cidade, nos menores
detalhes (o marido que at depois de morto ainda queria, e tudo mais), e em breve
foi ganhando de boca para boca propores fantsticas, em novos detalhes que lhe
acrescentavam. Diziam que o defunto aparecia mesmo para ela durante a noite,
alguns at j o tinham visto entrar furtivamente a horas mortas pelo porto dos
fundos. Outros diziam que a viva tinha parte com o diabo. Outros diziam que o
fantasma do marido lhe vigiava a casa, para fazer recair sua maldio sobre todo
aquele que se aventurasse a cobiar sua esposa. A esta hiptese, os homens da
cidade se persignavam, atemorizados. Outros diziam que ele em vida sempre fora
insacivel - pois no morrera disso? - e que para ele no havia mulher que
chegasse. Ao que as mulheres da cidade intimamente confirmavam.
        Devido  onda cada vez mais forte de comentrios, alguns desairosos para
com as tradies de virtude do lugar, o Prefeito, que fora amigo pessoal do morto,
fez circular uma portaria proibindo genericamente quaisquer comentrios sobre a
vida ntima das vivas e dos defuntos e recomendando queles que freqentavam a
capela do seminrio que antes verificassem bem com quem estavam se
confessando, para que a falta de cuidado e discrio no desse margem
futuramente a outros incidentes como aquele, to comprometedores para com as
honrosas (escreveu honrosas sem h) mulheres no fossem atingidas.
        Ah, para qu! O padre Tibrio sentiu-se atingido e tomou as dores dos fiis,
ou, mais propriamente, da viva, a ponto de os infiis engrossarem o que j se dizia
tambm dele com ela. No primeiro domingo que se seguiu, veio a pblico, ou a
plpito, para descompor o Prefeito, dizendo que os fiis se confessavam como, onde
e com quem bem entendessem, e acrescentando que a dita portaria no tinha por
fim seno prevenir a divulgao de pecados das vivas que por acaso o
envolvessem, a ele, Prefeito, que haveria por melhor no comprometer a autonomia,
garantida por lei, entre o poder temporal e o poder espiritual.
        Os amigos do falecido Correia Lopes, a essa altura dos acontecimentos,
resolveram que tudo aquilo era uma afronta  memria do homem, que na paz de
seu tmulo no tinha mais nada a ver com os pecados da viva, e assim sendo,
organizaram naquela mesma tarde, como desagravo, uma romaria ao cemitrio,
com flores, discursos e tudo mais.
        Ora, aconteceu que Geraldo Viramundo, expulso do seminrio, sem a batina
e sem aonde ir, tinha escolhido justamente o cemitrio para passar suas noites,
pensando muito sensatamente que, se aparecesse na cidade, sua presena poderia
criar novos incidentes e mal-entendidos. Sabia que a princpio o procuravam para
castig-lo, que toda a cidade se erguera contra ele, e teria morrido de fome se no
fosse um rapazinho seu conhecido (tambm expulso do seminrio), o Alphonsinhos
empregado da Padaria Papi, e poeta ao que me indica, lhe trazer diariamente uns
pes s escondi das. No seminrio o supunham em Rio Acima, para onde recebera
ordem terminante de embarcar. Burlara a vigilncia do irmo que fora lev-lo 
                                                                                                       6
estao, porque no queria partir sem um ltimo adeus ao tmulo do poeta
Alphonsus de Guimaraens, seu nico amigo em Mariana, cujos versos sabia de cor.
E acabara ficando por l.
          J escurecia naquele domingo, quando Viramundo, descansando numa
sepultura vazia que a erva cobrira e que havia escolhido para seu abrigo, viu a
multido invadir o cemitrio, em direo ao tmulo do falecido Correia Lopes.
Pensou que o procuravam. Esperou que chegassem bem perto, e quando j
estavam ao alcance de sua voz, levantou-se na sepultura, gritando para eles,
revoltado:
          - Por que me perseguem, escribas e fariseus hipcritas? Sepulcros caiados
de branco! Por que no me deixam em paz?
          Ao verem aquele vulto sair da cova e, emoldurado pela lua imensa como um
balo de papel que j surgia longe e dizendo aquelas palavras, os homens
estacaram, paralisados de terror. Um segundo depois se punham em debandada,
tropeando em tmulos, pisando em sepulturas, aos atropelos, fugindo todos em
direo ao porto do cemitrio, como se mil almas penadas os perseguissem:
          -  ele!
          -  o marido da Peidolina!
          - Ele vai se vingar!
          J distantes, se reagrupavam, apavorados, entreolhando-se em grande
confuso. Alguns afirmavam ter visto o prprio demnio, com os braos para cima.
          Viramundo os havia seguido, sem saber por que fugiam, e ningum tinha
dado por ele, ningum o tinha visto. Alguns homens pararam no botequim e, entre
um gole e outro de cachaa, contavam para os que l estavam, em largos gestos,
com os olhos esbugalhados, o que havia se passado no cemitrio. Em seguida
saam, e a multido na rua ia se engrossando.
          - Que  que vocs vo fazer? Para onde vocs vo?
          - Para a casa da viva.
          As mulheres deixavam as suas portas e, munidas de panelas, achas de
lenha e porretes, se juntavam a eles. Os moleques, antevendo o divertimento,


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recolhiam pedras pelo caminho e gritavam, se empurrando, para fazer movimento.
Os homens marchavam, decididos, secundados pelas mulheres:
        - Aquela ordinria h de ver.
        - Sem-vergonha!  preciso que o marido se levante no tmulo para pedir
paz, e nem assim ela toma jeito.
        - Fora com ela!
        - O coitado h de ser vingado.
        Alguns iam contando de passagem o que tinham visto no cemitrio e os que
no tinham visto tambm contavam, em palavras disparatadas, aumentando a
confuso. Viramundo seguia entre eles, ressentido, sem entender direito o que se
passava. Algum surgiu correndo a sobraar uns foguetes, que vinham sendo
guardados para algum futuro comcio poltico:
        -  hoje, pessoal!  hoje!
        Uns estavam contentes como em dia de festa, entusiasmados e felizes por
ver quebrada a pasmaceira em que vivia a cidade. Outros caminhavam
enraivecidos, dispostos a tudo. Os que seguiam na frente iam anunciando de
passagem, num rumor que descia pela rua como uma enchente:
        - Vo acabar com a viva. Vo acabar com a viva.
        O Prefeito, que jogava bisca na sala de visitas de sua casa, ao ver o povo
passar em frente  sua janela, saiu para a rua, seguido dos parceiros, ainda com as
cartas na mo:
        - Que aconteceu? Vocs esto loucos?
        Um cidado chamado Serafim, que tinha velha diferena com a prefeitura
por causa de uma questo de demarcao de terras, aproveitou-se da confuso
para dar um empurro no Prefeito:
        - Fora do caminho, gostoso.
        Os que vinham atrs secundaram, mais respeitosos.
        - Fora, seu doutor; isso no  servio pro senhor no.
        O Prefeito saiu a correr,  procura do delegado.


        EM FRENTE  casa da viva a multido se aglomerava, irrompendo em
vaias e gritaria. Foguetes espocavam, pedras cruzavam o ar, indo bater nas
vidraas, que se partiam com estardalhao, retinindo:
        - Fora com a Peidolina!
        - Fora com ela!
        Ao fim de algum tempo uma das janelas se abriu, e, para surpresa geral,
quem apareceu foi o prprio delegado, braos estendidos pedindo calma:
        - Mas que desordem  essa? Que significa isso? Ento nesta cidade no
existe mais respeito nem decncia? Com que direito tratam assim a uma pobre
senhora que no fez mal nenhum? Se algum tem de decidir aqui quem  culpado
ou no, este algum sou eu e mais ningum. Eu represento a lei, e a lei tem de ser
respeitada!
        Aos poucos a multido se calara, esperando que o delegado estivesse
partindo para um discurso. Mas as palavras lhe faltavam e ele parecia em grande
confuso. Algum se aproveitou para gritar, valendo-se do anonimato:
        - E o senhor? Que  que o senhor estava fazendo a dentro com ela?
        As gargalhadas estouraram, enquanto o delegado estendia de novo os
braos, pedindo calma. Mas algum abriu caminho entre a multido, a gritar:
        -  isso mesmo! Que  que voc est fazendo a com aquela sem-
vergonha? Assim que voc foi jogar na casa do Prefeito, seu safado?
        Era a mulher do delegado.  vista dela, o homem houve por bem sumir
incontinenti da janela. Alguns instantes mais tarde ganhava a outra rua pela porta
dos fundos, e ningum ficou sabendo como foi que ele chegou em casa naquela
noite, se  que ousou chegar.
        Por um momento a janela permaneceu vazia, e a gritaria recomeou,
ensurdecedora. Os foguetes tornaram a estourar. De um segundo para outro,
contudo, se fez um silncio completo: A viva acabava de surgir  janela e os
contemplava, sem uma palavra.
        Sua apario foi to surpreendente que de repente ningum sabia o que
falar. Mas um dos homens, chamado seu Gensio, dos Correios e Telgrafos, e que
parecia ser quem comandava a turba, gritou para ela:
        - Se voc quer dormir com seu marido, ele est l no cemitrio esperando!
        Tanto bastou para recomear a assuada. Mais a viva ergueu o brao,
expondo-se ainda mais na janela e arriscando-se a levar uma pedrada de uma hora
para outra. Todos agora pediam silncio para ouvir o que ela tinha a dizer.
        - Quero sim, Gensio - Falou ela, com voz pausada. - Prefiro dormir com um
defunto a dormir de novo com voc.
        A mulher de seu Gensio, que era uma das mais exaltadas, e que ao lado
dele ameaava a viva com os punhos serrados, voltou-se para o marido aos
pescoes, para tirar aquilo a limpo imediatamente.
        - Essa mulher est louca! - Defendia-se ele, tentando proteger-se com os
braos, em meio s gargalhadas dos demais.
        - Vinha fazer planto na minha casa! - Gritou a viva, agora dirigindo-se
diretamente a mulher dele. - E os correios que se danem!
        - Juro que isso  invencionice dela! Essa vaca h de me pagar! Posso
explicar tudo!
        Mas a mulher no queria saber de explicaes e o empurrava, aos berros:
        - Eu bem que desconfiava disso! Eu bem que desconfiava!
        A confuso chegava ao mximo e agora eram as mulheres que gritavam:
        - Fora com ela! Fora a Peidolina! Fora! Fora!
        - E voc tambm, Serafim! Continuava a viva l da janela, como se nada
daquilo fosse com ela. - Quem  que falava que eu tinha um peitinho atrevido,
quem? Fale agora, se voc  homem! E o senhor tambm, seu Campelo! No
precisa fazer essa cara feia no, que eu sei bem o que o senhor quer! Se sua
mulher no deixa, eu  que vou deixar? e voc a, Non, que tem uma coisinha de
nada, uma coisinha desse tamanho! E voc, Petronilho? E o Dr. Carlinhos?
(Carlinhos era, na intimidade, o prprio prefeito). E voc, Simo? Seu Jorge?
Marcelino? Vidigal?
        A viva Correa Lopes havia dormido com a cidade inteira.
        O Padre Tibrio tentou abrir caminho para intervir, mas foi engolido pela
multido. A exaltao de nimos era completa e ningum se entendia mais.
Enfurecidos, alguns tentavam agarrar a viva, estendendo freneticamente os braos,
agrupados sob a janela baixa. Pedras voltaram a surgir de todos os lados e s por
um milagre nenhuma alcanara ainda a mulher. Algum atirou uma panela de ferro
que arrebentou violentamente a outra janela, com caixilhos e tudo. Cacos de vidro
feriram vrios na multido e a panela foi atingir a cabea do Non, o que tinha uma
coisinha de nada.
        Depois de fazer publicamente a confisso de seus pecados, a viva se
entregara a uma desesperada crise de choro, debruada na janela, contorcendo
como num ataque histrico. Um dos homens conseguiu, num salto, pux-la pelos
cabelos, e por pouco ela no vem a baixo, arrancada para fora da janela de cabea.
Conto tudo isso com pormenores, porque aquele a quem interessa o nosso relato,
Geraldo Viramundo, estava, como j disse, em meio ao povo, a tudo assistindo sem
que dessem por ele. Naquele justo momento, isto , quando o homem comeou a
puxar os cabelos da viva, ele conseguiu intervir diretamente, o que no fizera antes
por impossibilidade de abrir caminho e chegar ao p da janela. Estando finalmente
ali, deu um violento coice na canela do homem, obrigando-o a largar os cabelos da
viva com um grito de dor. A multido se movimentava, fremente como uma onda
humana. Aqui e ali se generalizavam as primeiras brigas, originadas pelas mulheres,
que haviam resolvido esclarecer imediatamente com os respectivos maridos as
comprometedoras revelaes da viva. Gritos de mata! mata! saltavam j de todos
os lados, e se havia um momento propcio para matar algum, esse momento tinha
chegado.
         Sem perda de tempo, Viramundo galgou agilmente a janela, antes que o
homem a quem havia chutado pudesse revidar, e postou-se ao lado da viva. A
pobre mulher, cada de bruos sobre o parapeito, tinha o rosto escondido nas mos
e parecia desmaiada. Viramundo ergueu os dois braos e comeou a gritar, pedindo
silncio. Ao v-lo, a multido acabou reconhecendo-o e ganhou flego novo:
         -  ele! Pega! Pega! E o seminarista!
         Viramundo ficou de p no parapeito da janela para que no o alcanassem,
e mal se equilibrando, desandou a berrar, furibundo, ainda que no o escutassem:
         - Matem, matem logo! Mas me matem a mim primeiro! Ningum encosta a
mo num fio de cabelo dessa mulher sem passar por cima do meu cadver! Jesus
disse para os fariseus: "Aquele que dentre vs est sem pecado, seja o primeiro que
lhe atire uma pedra." So Joo, captulo oito, versculo sete. Pois atirem a primeira
pedra!
         Aquele a quem ele havia chutado na perna minutos antes, que tocara no
s num fio de cabelo da mulher mas em todos eles, tomou distncia em meio aos
outros, gritando:
         - Pois l vai ela!
         E atirou uma certeira pedrada, que foi atingir em cheio a testa de Geraldo
Viramundo. perdendo o equilbrio, ele tombou ao cho, na rua, sem sentidos. Ainda
assim o moeram de pancadas e pisadelas. E teriam literalmente passado por cima
do seu cadver, se naquele momento o destacamento policial que o delegado
acabara providenciando no tivesse chegado, botando a multido em debandada a
golpes de sabre. Depois os soldados da polcia deram com Viramundo ainda no
cho, todo machucado e acabando de voltar a si. Reconheceram-no como o
responsvel pelos acontecimentos que abalaram a vida daquela at ento pacata
cidade, e resolveram por conta prpria jog-lo fora dela.
        Assim, carregaram-no at a entrada da cidade e o atiraram na poeira,
dizendo, enquanto esfregavam as mos:
        - V baixar noutra freguesia!
        Geraldo Viramundo ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa e gritou de longe
para os soldados:
        - Deus vos livre da iniqidade, prebostes!
        Voltou-lhes as costas, comeando a palmilhar a longa estrada noite adentro,
sob a claridade da lua e das estrelas. E foi assim que, aos dezoito anos, Geraldo se
tornou Viramundo.


        CAPTULO III


        Da controvrsia existente em torno do nome de Geraldo Viramundo, e de
sua longa viagem de Mariana a Ouro Preto, onde conheceu aquela que viria a ser a
sua amada a vida inteira.


        NESTE ponto, terei de interromper por instantes o fio da narrativa, para
reportar-me  afirmao no fim do captulo anterior, ou seja, a de que Geraldo se
tornou Viramundo ao iniciar a sua primeira caminhada pelas estradas da provncia
de Minas Gerais.
        A basear-se no sentido etimolgico deste epteto, a afirmao  correta,
desde que ele deriva da aglutinao de um verbo, virar, e um substantivo, mundo.
Ora, como esta aglutinao veio designar o pesado grilho que se prendia  perna
dos escravos  que no cabe a mim explicar e sim aos gramticos e outros
viramundos da linguagem. Cabe-me, sim, interpretar o significado que a acepo
sugere, e, pelo menos no meu fraco entender, virar o mundo s pode querer dizer
largar-se por suas estradas, entregar-se ao destino errante de percorr-lo, e nesse
sentido, Geraldo se tornou mesmo Viramundo no momento em que saiu de Mariana,
ainda que o mundo que ele percorreu tenha sido apenas o de Minas Gerais. Todos
ns somos um pouco viramundos, ou pelo menos trazemos no ntimo uma
irrealizada vocao de peregrinos, mas o que nos faz largar um pouso  a procura
de outro pouso. Disfaramos com pretextos soezes a nossa viramunda destinao
de nmades a perambular por este mundo de Deus, e nos tornamos viajantes,
bandeirantes, itinerantes, emigrantes, visitantes, passantes, infantes, militantes ou
tratantes. Grandes viramundos so os ciganos, os marinheiros mercantes e os
cachorros, tambm chamados vira-latas.
        Para corroborar a minha assertiva, e justificando agora o fato de usar
semelhante palavra, a est o fato de no existir nenhuma evidncia de que Geraldo
j fosse Viramundo antes de deixar Mariana, embora por uma questo de mera
convenincia literria (aquilo que os latinos denominavam adequatio locutione), eu o
venho tratando desde a sua infncia como tal. No entanto, como a dita afirmao,
lanada ao fim do captulo anterior, pode vir a suscitar velha celeuma havida em
minha terra com respeito s origens desse nome, sobre as quais surgiram
explicaes as mais estapafrdias, calo-me quanto a estas explicaes, para no
comprometer seus autores, e me limito a transcrever abaixo alguns dos nomes pelos
quais Viramundo foi designado durante a sua vida, cada um deles tido como
autntico em algumas cidades:
        Geraldo Viramundo
        Geraldo Giramundo
        Geraldo Rolamundo
        Geraldo Vira-Lata
        Geraldo Acaba-Mundo
        Geraldo Furibundo
        Geraldo Virabosta
        Geraldo Virabola
        Geraldo Sacristia
        Geraldo Epstola
        Geraldo Sitibundo
        Geraldo Vila Rica
        Geraldo Facada
        Geraldo Pancada
        Geraldo Boi
        Geraldo Carneiro
         Geraldo Capelinha
Geraldo Uai
Geraldo Pitimba
Geraldo, o Cagado de Arara
Geraldo Passa-Quatro
Geraldo Nerval
Geraldo Pecaldo
Geraldo Ziraldo
Geraldo Sacrilgio
Geraldo Responsus (Pobre Alphonsus)
Geraldo Ingrizia
Geraldo J Comea
Geraldo Merdakovski, General Blgaro
Geraldo Molambo
Geraldo Melda
Geraldo Ladainha
Geraldo Captulo
Geraldo Trindade
Geraldo Sepultura
Geraldo Eucaristia
Joo Geraldo, o Peregrino
Geraldo Cordeiro de Deus
Geraldo J. Nunes
Geraldo Labirinto
Geraldo Caramujo
Geraldo P na Cova
Geraldo Cuba
Geraldo Jacuba
Geraldo Caraminhola
Geraldo Ceca
Geraldo Meca
Geraldo Ceca em Meca
Geraldo Eira
Geraldo Beira
Geraldo sem Eira nem Beira
        Geraldo Tremebundo
        e Jos Geraldo Peres da Nbrega e Silva.
        Alm desses, centenas de outros apelidos, eptetos, alcunhas, cognomes,
podos e aliases acompanharam Viramundo nas suas andanas, variando de poca
para poca e de lugar para lugar. Tanto assim que em cada cidade de Minas ele 
conhecido sob denominao distinta - o que dificultou enormemente as minhas
pesquisas, no af de descobrir em cada localidade traos da passagem do grande
mentecapto, ao longo de sua atribulada existncia. Como se pode depreender da
pequena lista acima apresentada, o nico ponto sobre o qual todos esto acordes 
que o seu primeiro nome jamais deixou de ser Geraldo. Algumas dessas alcunhas
se referem obviamente  sua formao religiosa, que lhe marcou para sempre o
juzo, ou acabou de tir-lo de todo. Outras so absolutamente arbitrrias, como
Geraldo J. Nunes. Outras tm uma especfica razo de ser, como Merdakovski,
General Blgaro, ou Jos Geraldo Peres da Nbrega e Silva - conforme mais tarde,
no decorrer de nossa narrativa, se poder verificar.
        Resolvida que seja, pois, para simplificao de nosso trabalho, a
heteronmia acima referida na denominao genrica de Viramundo, j que no
pretendo mais voltar a to tedioso assunto, deixo bem claro que me eximo de
qualquer responsabilidade em relao aos equvocos que a divergncia em questo
possa ainda suscitar. E voltemos ao nosso relato.


        SABIDO  que a primeira notcia existente sobre Geraldo Viramundo se tem
da sua estada na cidade de Ouro Preto .j com 28 anos, isto , dez anos depois de
ter deixado Mariana. Ora, por mais longa que seja a estrada que liga as duas
cidades, no h possibilidade de algum levar dez anos para percorr-la, a menos
que adote o sistema que se tornou efetivo na administrao pblica de minha terra
por tantos anos: um passo para a frente e dois para trs. H quem diga que
Viramundo passou esses anos s margens e ao longo da prpria estrada, sempre
desejoso de partir, nunca desejoso de chegar, vivendo como um anacoreta, de
razes, frutos silvestres, eventualmente de esmolas, vestindo peles de animais e
afastado do convvio dos homens. Mas  uma hiptese meramente romntica,
aventada pelos que tentam fazer de Viramundo apenas um mstico, um vagabundo,
ou ambas as coisas. It is ludicrous- Para usar a lngua de Shakespeare, to cara aos
nossos filomenos montanheses. Na realidade, quem fosse viver na minha terra de
furtos silvestres e vestir-se de pele de animal, andaria nu e morreria de fome.
Quanto s alternativas das esmolas, esta se destri ante a rigorosa tradio mineira
de no propici-las se no na forma de promissrias devidamente avalizadas. E
havia ainda a reconhecida relutncia de Viramundo em angari-las.
        Resta-nos apenas o testemunho de um eminente historiador da poca,
conhecido pelo nome de Afonso, o Sobrinho, que a distingue no s do tio mas de
quantos Afonsos perlustraram as letras mineiras, pois de Afonsos e Alphonsus, pais,
filhos, tios, sobrinhos, netos e bisnetos, a minha terra est cheia. O livro de sua
autoria, "Roteiro Lrico de Ouro Preto", obra de grande saber e erudio, nos d
notcia de algum que andou pela antiga Vila Rica com o autor, na mesma poca em
que Viramundo deveria ter baixado naquela freguesia, conforme recomendao
expressa dos soldados de Mariana. Embora no lhe diga o nome, conservando-o no
anonimato, que  a virtude de que Minas mais se orgulha, a descrio do tipo
corresponde  de nosso personagem. Deixo, todavia, de abeberar-me nesta fonte,
devido ao fato de o consagrado historiador referir-se a ele como o poeta, o que
gerou no esprito dos estudiosos a mais lamentvel das confuses: passaram
erroneamente a considerar o dito poeta como sendo Emlio Moura, bardo de lrica
inspirao, talvez irmo espiritual de Viramundo, mas que na poca no foi para
Ouro Preto, e sim para Dores do Indai. H quem sustente, com mais fundamento,
que o poeta em questo no seria outro seno o grande memorialista Pedro Nava,
com quem Viramundo sem dvida tinha mais de um ponto em comum.
        Que fiquem para trs todos esses pontos controversos, pois devero estar
esgotando j a pacincia do leitor, como alis esgotaram a minha prpria. E no
fao qualquer referncia aos anos de interregno na vida de Viramundo entre Mariana
e Ouro Preto, para reencontr-lo j nesta ltima cidade.
        Reencontro-o em pssimas condies. Palet esmolambado, calas de brim
ordinrio pescando siri, perambulava pelas ruas, alimentando-se s Deus sabe
como e dormindo s Deus sabe onde. Foi ento que lhe sucedeu encontrar aquela
que viria a ser a sua amada a vida inteira.
        Antes, porm, terei de falar no seu convvio com os estudantes.


        TUDO comeou no dia em que Viramundo passava pela rua Direita e, ao
dar uma cuspidela, acertou no sapato de Dionsio, um estudante de engenharia que
estava sentado na cadeira do engraxate Vidal. Vidal, ao ver o cuspe esparramar-se
no couro que estava engraxando, no justo momento em que se preparava para fazer
cantar o pano em alegres esfregadelas, no teve dvidas: levantou-se do
banquinho, correu atrs de Viramundo e sentou-lhe o p na bunda com tal violncia
que deu com o coitado no cho, depois de faz-lo sair catando cavaco nas histricas
pedras da rua. Calmamente voltou o negro Vidal para o seu mister, fechando a cara
para o estudante que, embora dono do sapato cuspido, ria-se a mais no poder do
incidente.
         O que valeu a Vidal a prodigiosa descoberta. To logo esfregou a ponta do
sapato, o engraxate verificou que este brilhava muito mais que o outro p, que j
levara graxa. Disfaradamente experimentou ento uma cuspidinha no outro e
passou o pano para ver se dava brilho. No obteve nenhum resultado.
         - O do Viramundo  que  dos bons! - exclamou, maravilhado, j pensando
em comercializar o cuspe do mentecapto.
         E voltando-se para ele que, mal refeito do chute e da queda, recuperava-se
sentado no meio-fio, pediu-lhe que se aproximasse:
         - D uma cuspida aqui no outro p.
         Viramundo veio se chegando, desconfiado:
         - Para voc me acertar no outro gomo?
         -  s para ver uma coisa - insistiu o engraxate. - Voc cuspiu, eu lustrei, e
o sapato ficou que  uma beleza.
         - Beleuza no: beleza - corrigiu Viramundo.
         - Quem  que falou beleuza? No precisa consertar que eu falei direito.
         - Dereito no: direito - corrigiu Viramundo.
         - Quem  que falou dereito? - enfureceu-se o engraxate. - Eu falei dereito?
Voc  que falou dereito, sua besta.
         - E voc falou errado, sua vaca.
         - Ah, seu fedaputa, vem bancar o engraado...
         - Engraxado no: engraado - corrigiu Viramundo pela ltima vez, j pronto
para fugir.
         - ...que eu te ensino a ir corrigir sua me!
         E j se dispunha a ensin-lo a corrigir a pobre da dona Nina, que naquele
momento, alheia a tudo l em Rio Acima, nunca mais tivera notcia do filho desde
que ele deixara o seminrio de Mariana. O estudante Dionsio, que achava graa na
histria, interveio:
        - Deixa ele cuspir no outro sapato para a gente ver.
        O engraxate se conteve e ordenou:
        - Vamos, cospe logo.
        Viramundo, estimulado, pigarreou, limpou a garganta, encheu a boca e
cuspiu com vontade em direo  ponta do sapato indicado. Mas, estando meio de
lado, calculou mal a distncia e, errando a pontaria, acertou em cheio na cara do
preto. Este, perdendo a cabea, derrubou-o com um pescoo, cobriu-o de pontaps
e, no satisfeito, atirou-se sobre ele, ps-se a escovar-lhe violentamente o rosto com
a escova que brandia numa das mos:
        - Aprende, seu cachorro, pra tomar brilho nessa cara de merda.
        E lustrava o rosto j vermelho do outro para l e para c. Em vo Viramundo
estrebuchava e espadanava as pernas no ar. Vendo que no conseguia escapulir,
ps a boca no mundo:
        - Socorro! Acudam! Aqui del rei!
        - No grita no que eu te entupo - ameaou o engraxate.
        - Aqui del rei! Aqui del rei! - berrava Viramundo.
        O engraxate apanhou na sarjeta uma laranja chupada e suja, cheia de
formigas, e aproveitando o grito, enfiou-a pela boca de Viramundo adentro,
comprimindo-a com a palma da mo. E o pobre acabaria entupido mesmo, se o
estudante no viesse em seu socorro, a custo arrancando de cima dele o engraxate
Vidal. Viramundo ps-se de p, retirou a laranja da boca, e cuspindo terra e
formigas, o rosto em brasa das lustradas que recebera, vociferou:
        - No me intimidas, pardavasco! Ouviste o que foi dito aos antigos: olho por
olho, dente por dente! Pois eu te digo que se algum te ferir na tua face direita,
apresenta-lhe tambm a outra. So Mateus, captulo quinto, Versculo 39. Aqui est
a outra, sandeu!
        E oferecia ostensivamente a face ao engraxate. Este no se fez de rogado e
mandou-lhe tremendo bofeto, que o fez rolar novamente por terra.
        - No faa isso! - Interveio o estudante Dionsio, contendo o engraxate. -
Olha como ele j est machucado.
        Em verdade o sangue escorria de um corte na cabea de Viramundo.
Dionsio levou-o a uma farmcia, onde lhe fizeram um curativo de emergncia.
        - Onde  que voc mora? - perguntou.
        - Ainda no fixei residncia.
        - Pois ento venha comigo. Moro numa repblica.
        - Muito obrigado. Sou monarquista, mas respeito os regimes legalmente
constitudos.
        - Voc tem algum dinheiro? - Insistiu o estudante.
        - No momento estou desprevenido. Lamento no poder atend-lo.
        E acrescentou, metendo a mo no bolso:
        - Ou por outra: se no me falha a memria, disponho desta moeda, que
achei ali na rua. Cuja, alis, vou d-la de esmola. A Csar o que  de Csar, a Deus
o que  de Deus.
        E viramundo deixou cair a moeda que retirara do bolso na mo esqulida de
uma velha mendiga que naquele exato momento passava por eles, subindo a
ladeira. Depois ps a remexer nos bolsos e foi retirando dele um rolo de barbante,
uma escova de dentes, um tero arrebentado, um toco de lpis, um pedao de po
seco, vrios recortes de jornais meio esfrangalhados, um leno vermelho e uma
caderneta de notas velhas e ensebadas.
        -  tudo que voc tem? - Perguntou o estudante.
        -  o meu cabedal.
        - Como assim?
        - Escovo os dentes nesta escova, asso o nariz neste leno, rezo neste
tero, como deste po, leio estes recortes e tomo notas nesta caderneta.
        Um dos recortes era um poema com o ttulo "As noivas de Jayme Ovalle";
outro era o tpico sobre as atividades do arcebispo de Mariana; outro eram
comentrios feitos  margem da obra potica de Toms Gonzaga.
        - E a caderneta: Posso v-la?
        - Lamento muito, mas so assuntos particulares.
        - E o barbante, para que serve?
        Viramundo olhou-o, admirado:
        - Ento voc no sabe para que serve um barbante?
        O estudante tomou-o pelo brao:
        - Vamos at l em casa - Insistiu. - Tenho alguma roupa que j est
apertada para mim, pode ser que sirva para voc.
        - Muito agradecido, mas no compro roupa usada.
        - No  para comprar,  de presente! - Retrucou Dionsio, surpreendido.
        - Prefiro ficar com a minha mesmo.
        - A sua no est mais do que usada?
        - Mas por mim mesmo.
        O estudante coava a cabea, desconcertado:
        - Pois ento vamos at l para voc comer alguma coisa.
        - Obrigado, estou sem apetite. Anteontem jantei muito bem, num
restaurante, alis, as expensas de um cavalheiro que se achava l.
        E despedindo-se, Viramundo seguiu impvido pela rua, a cabea enrolada
em ataduras.


        DESSE encontro nasceu o convvio do grande mentecapto com os
estudantes. Uma noite Dionsio logrou arrast-lo at a repblica, sob o pretexto de
abrig-lo, pois chovia e ele no tinha onde dormir. Na verdade, pensava era em
divertir com ele os colegas na manh seguinte. Ajeitou-o num sof de palhinha
furada a um canto da sala, mas, alta noite, Viramundo foi acord-lo para se
despedir:
        - Vou-me embora. Lamento muito, mas o canap no me comporta.
        Quando via, porm, uma roda de estudantes num bar ou restaurante,
entrava, fazia uma ligeira refeio e em seguida dirigia-se polidamente a eles:
        - Chamo a ateno de vocs para uma pequena consumao que acabo de
fazer ali naquela mesa. Solicito-vos o obsquio de pag-la, pois vocs dispem de
numerrio para tal, o que no acontece comigo.
        E com uma reverncia, afastava-se. Em geral a consumao era realmente
pequena, no passava de uma mdia com po. De bom grado os estudantes o
atendiam, quase sempre depois de algum remoque pitoresco ou um incidente de
menor monta que, outrossim, no merece narrado.
        Assim, tornou-se Viramundo figura popular entre os estudantes de Ouro
Preto e qui entre os demais habitantes do lugar. Mas tal popularidade foi um dia
posta  prova numa srie de acontecimentos cuja importncia obriga-me a que a ela
me reporte de maneira mais minudente.
        Por esta poca Sua Excelncia, o Governador Geral Clarimundo Ladisbo,
senhor absoluto da Provncia e que corria seus domnios seguido de grande
comitiva, veio dar a Ouro Preto, o que foi ensejo de grandes festejos pblicos, com
graves prejuzos para os cofres municipais. Vrias obras que se arrastavam pelos
anos afora foram rapidamente ultimadas para que o senhor Governador as
inaugurasse; apressou-se a formatura dos estudantes para que o senhor
Governador a paraninfasse e o Prefeito chegou mesmo a sugerir que se realizassem
logo as clebres festividades da Semana Santa para que o senhor Governador delas
participasse - o que infelizmente no foi possvel, dada a peremptria recusa da
Cria local.
        Ora, acompanhava o Governador Ladisbo sua filha Marlia, gentil senhorita
de ricas prendas e bela de porte, esbelta de maneiras, moa de fino trato e
esmerada educao. E Viramundo, ao v-la pela primeira vez, devido a um
lamentvel equvoco, viu nela o ente escolhido de seu corao.
        Foi o caso que Viramundo ia seguindo por um princpio de estrada certa
tarde, a caminho do barraco do velho Elias, um cego com quem travara amizade no
adro de uma igreja e a quem regularmente visitava, quando surgiu atrs dele um
grande cortejo de carros: era o Prefeito que levava o Governador Ladisbo a
inaugurar a ponte Governador Ladisbo, construda no distrito Governador Ladisbo.
Distrado, Viramundo no ouviu a insistente buzina do automvel a poucos metros
pedindo passagem. No fora o chofer, enraivecido, ter botado a cabea para fora e
gritado "saia da frente, imbecil!", eu estaria fadado a colocar neste instante o ponto
final no relato de suas aventuras, desventuras e peregrinaes. Assustado com o
grito, Viramundo deu um salto para o lado, no sem que o pra-lama dianteiro do
automvel o atingisse, atirando-o  distncia: o grande mentecapto deu duas voltas
no ar e focinhou de cheio na poeira. O carro deteve-se pouco adiante e foi ento que
ele, ainda aturdido com o choque, ouviu a bela Marlia exclamar para o chofer:
        - Voc quase matou o vagabundo!
        Antes nunca o tivera ouvido: ouviu mal, pois entendeu que ela dissera "Voc
quase matou o Viramundo". E seu corao se encheu de gratido, ao sentir que pela
primeira vez algum reconhecia que ele, embora sendo o Viramundo, no era
qualquer pessoa que se atropela e mata pelas estradas apenas porque o senhor
Governador est com pressa. Levantou-se como pde, cambaleante, sacudiu a
poeira da roupa e por pouco no foi apanhado novamente:
        - Sai do caminho, Virabosta!
        Era o motorista do Prefeito, cujo carro passava atrs do outro e seguido dos
demais, levantando poeira. Sem ver nada, Viramundo dava ao rpido olhar que a
donzela lhe havia dirigido a expresso mais pura de um sentimento que mortal
algum jamais lhe dedicara. Mera compaixo - era o que tal sentimento, se acaso
existiu no olhar fugaz e distrado, parecia querer significar. Viramundo entendeu que
no; e no serei eu quem haver de explicar, no meu fraco entender, o
entendimento mais fraco ainda deste grande mentecapto. Limito-me a narrar-lhe os
feitos e desfeitos, co de fila que lhe segue fielmente os passos, ainda que estes me
conduzam ao abismo de minha runa literria.
        Tais passos desta vez no o levaram longe: Viramundo j se via diante
daquela que seria a sua amada a vida inteira. E j se sentia correspondido,
entregando-se ali mesmo a uma paixo mais cega do que o velho Elias, a quem
imediatamente desistiu de visitar. S de pensar na distncia que o separava de sua
amada (o carro j ia longe), seus olhos se enchiam de lgrimas:
        - Para to longo amor, to curta a vida! - suspirou ele.
        Ps-se a perambular pelos campos, colhendo flores silvestres. Desceu
vales, galgou montanhas, at que, morto de cansao, deixou-se cair no capim e
adormeceu sob a luz das primeiras estrelas, com um sorriso nos lbios. Era um
sentimento novo, o que lhe enchia o corao.
        E que lhe acabava de esvaziar por completo a cabea. Voc quase matou o
Viramundo - repetia para si mesmo, dez, vinte, cem vezes, e variando o tom,
experimentava captar novamente o timbre adorvel daquela voz. "Agradeo a Vossa
Alteza", via-se respondendo, "mas no o admoestes: perdoa-o. Eles no sabem o
que fazem. A culpa foi toda minha: foi o teu olhar que me fez sucumbir". O que,
evidentemente era um contra-senso, pois o olhar viera depois que o automvel o
havia atingido. Mas quem, a esta altura, ter a veleidade de encontrar algum senso
no que Viramundo fez ou deixou de fazer? Naquele momento, por exemplo, em
sonhos, ele j fazia grandes mesuras  sua amada, qual um mosqueteiro a brandir o
seu chapu de plumas: "Alis, no me chamo Viramundo, este  apenas o meu
nome de guerra. Devo dizer a Vossa Alteza que me chamo Jos Geraldo Peres da
Nbrega e Silva."


        NA MANH seguinte Viramundo foi procurar o velho Elias. Queria um
confidente para o amor que o devorava.
        - Elias - foi dizendo, ainda de longe: - Estou amando. Sou o homem mais
feliz do mundo.
        - No vejo por qu - respondeu o outro.
        - Voc no v porque  cego.
         - O amor tambm  cego.
         - O pior cego  aquele que no quer ver.
         -  moa donzela? - perguntou o cego.
         - Donzela de truz.
         - Bota no rabo - sugeriu o velho Elias.
         Viramundo se ofendeu:
         - No ando atrs de fornicncia, cego pachola. Velho safado! Quem a
velhice desmerece, pela lngua apodrece.
         O cego Elias ergueu-se furioso do banquinho e, bengala em riste, ps-se a
bradar pelo filho:
         - Matias! Me bota na direo desse filho de uma gua que eu vou ensinar a
ele quem  que apodrece. Ah, se eu te pego, Viramundo!
         - Viramundo, no: Jos Geraldo Peres da Nbrega e Silva - retrucou o
grande mentecapto, muito digno. E, desgostoso com seu amigo, foi-se embora em
direo  cidade,  procura de melhor confidente.
         Encontrou o estudante Dionsio  porta do cinema que, transformado em
teatro, seria o local da solene representao dramtica a realizar-se ainda naquela
noite. O Governador Ladisbo iria comparecer com o seu numeroso squito, e os
estudantes estavam s voltas com o ensaio final da tragdia "Inconfidncia Mineira",
escrita por um deles, que seria levada  cena. Muito nervosos se achavam, devido a
inmeras dificuldades at aquele momento ainda no superadas: as barbas de
Tiradentes no paravam no lugar, a forca no parava de p, os papis de cada um
no paravam na cabea. Viramundo aproximou-se de Dionsio, que ajudava a
colocar os cartazes  entrada do teatro, tomou-o pelo brao:
         - Quero um minuto de sua preciosa ateno. Preciso fazer-lhe uma
confidncia.
         Dionsio se esquivou:
         - Desculpe, mas agora estou muito ocupado. - E para um dos colegas, que,
grimpado numa escada, acertava os letreiros: - Conserta o FI de Inconfidncia, que
est torto.
         Viramundo se encheu de brios:
          - Minha confidncia nada tem a ver com a sua Inconfidncia. Cada um sabe
o que sabe, com a fidncia que lhe cabe. 7
          Deu-lhe as costas e ia-se afastando, quando uma idia nova fez com que o
estudante o chamasse:
          - Espera! Que  que voc quer de mim?
          Viramundo reaproximou-se:
          - Vim confiar-lhe que estou amando.
          - No me diga! Mas que excelente notcia! E posso saber quem  o feliz
objeto de seu amor?
          -  Sua Alteza, a filha do Governador Geral da Provncia.
          O estudante fez por conter o riso, e cumprimentou o mentecapto:
          - Meus parabns! Voc no podia fazer melhor escolha.
          E acrescentou, passando-lhe o brao sobre o ombro:
          - Pois tenho para voc uma grata notcia: ela hoje  noite vir assistir ao
nosso espetculo, e gostaramos que voc tambm representasse.
          - No tenho experincia de ribalta - escusou-se Viramundo.
          - No importa. Confiamos em sua vocao dramtica.
          Era o caso que no terceiro ato um maltrapilho deveria cruzar a cena,
perseguido pelos guardas, a gritar: "Infmia! Traio!", brandindo o seu cajado, e
desaparecer do outro lado do palco. Nenhum dos estudantes queria interpretar
semelhante papel, temerosos do ridculo a que ele os expunha. E Dionsio acabava
de descobrir em Geraldo Viramundo o intrprete providencial. Este, por seu turno, j
se via interpretando um dos principais papis, para sua doce Marlia na platia:
          - Joaquim Silvrio no farei jamais. Prefiro Gonzaga.
          - Melhor do que isso.
          - Tiradentes? - e Viramundo passou a mo no rosto, onde raros fios
esparsos mal repontavam. - Infelizmente no tenho barbas para tanto.
          - Dizem que ele tambm no tinha... Mas no seja por isso. Vem comigo.
          Deram-lhe o papel com as duas palavras para decorar. Convenceram-no de
que elas eram a sntese de todo o drama e que representavam no seu protesto o
martrio dos inconfidentes. O resto era a expresso silenciosa com que ele saberia
7
  Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a
oportunidade de conhecerem novas obras.
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receb-lo em nosso grupo.
enriquecer o simples ato de cruzar a cena, como s sabiam fazer os grandes atores,
e diante do que todas as palavras eram inteis.
        - As grandes dores so mudas - sentenciou Viramundo, a concordar
plenamente, esfuziante de alegria.
        E passou o resto da tarde estudando a sua parte, enquanto os ensaios
gerais prosseguiam. Cederam-lhe um canto do palco, onde ele podia ficar andando
para l e para c horas seguidas, a repetir "Infmia! Traio!", at no poder mais de
cansao.
        Como o cego Elias enviasse o filho Matias  sua procura, pedindo
desculpas pelo desentendimento daquela manh, mandou o menino de volta com a
incumbncia de convidar o pai para que viesse v-lo representar.


        O ESPETCULO estava marcado para as oito da noite, mas o Governador
Ladisbo com a sua comitiva s chegou s nove. Tudo ia correndo bem: os
conjurados tramavam no primeiro ato, Joaquim Silvrio atraioava no segundo,
preparava-se a forca para Tiradentes no terceiro. Viramundo aguardava a deixa,
impaciente, mal podendo esperar a hora de entrar em cena. Houve um interldio
lrico no qual Gonzaga, bigodes pintados, tangia uma lira de arame e cantava a sua
Marlia, que era um estudante de longas tranas de barbante, debruado numa
varanda de papelo. Eis que Viramundo, no podendo mais suportar tanta espera,
irrompe em cena gritando "Infmia! Traio!" e atravessa o palco em correria
desenfreada. A platia irrompeu em gargalhadas, enquanto os estudantes recolhiam
o mentecapto atrs dos cenrios, aos safanes:
        - Voc errou a hora, seu cretino!
        O espetculo prosseguia debaixo de vaia. Somente quando Tiradentes foi
trazido  boca de cena, j algemado, a caminho do calabouo, a platia silenciou,
comovida. Entusiasmado, Viramundo ia rompendo palco adentro novamente, para
desempenhar seu papel, mas desta vez o prprio Tiradentes, com um gesto
decidido, o fez arrepiar carreira. Os demais conjurados desfilavam, agrilhoados,
desaparecendo pela sada dos fundos. Por instantes o palco ficou vazio, e
Viramundo mal se continha.
        -  agora - advertiram os guardas, atrs dele.
        E o empurraram para a cena, pondo-se logo ao seu encalo. Viramundo
correu at o centro do palco.
            Silncio de expectativa na platia.
            - Infmia! Traio! - bradou ele, a plenos pulmes.
            O cego Elias, l na torrinha, reconhecendo a voz do amigo, ps-se a
aplaudir freneticamente, em regozijo:
            - Muito bem, Viramundo! Muito bem! Ensina essa cambada!
            O grande mentecapto impou de orgulho cvico, e em vez de fugir pelo outro
lado quando os guardas avanaram para ele, conforme ordenava o seu papel to
bem ensaiado, preferiu enfrent-los, cajado em riste:
            - Infmia! Traio! Para trs, mseros beleguins! Enquanto eu for vivo, tal
vilania no se consumar! Fariseus hipcritas! Condutores cegos, que filtrais um
mosquito e engolis um camelo! Trazei-me Tiradentes.
            E como os chamados beleguins, desorientados, se recusassem a obedecer,
Viramundo correu ao proscnio e de uma cajadada certeira ps abaixo a forca de
papelo, que tanto trabalho custara aos estudantes fazer ficar de p.
            - Pronto, ningum mais ser enforcado! Restaure-se a verdade histrica!
Glria aos inconfidentes!
            E Viramundo, empolgado, o peito arfante, descansou o cajado e correu os
olhos pela platia que o ovacionava, s gargalhadas. Deste momento se
aproveitaram os estudantes para cair sobre ele s bofetadas, enquanto outros l nos
bastidores faziam s pressas cair o pano sobre cena to grotesca.
            A surra que levou esta noite talvez tenha sido das maiores de quantas
colheu o grande mentecapto ao longo de sua castigada existncia. Saiu do teatro
diretamente para o hospital.


            PENALIZADO com o msero estado em que seus colegas haviam deixado o
mentecapto, Dionsio entendeu que somente a si cabia a culpa do fracasso, desde
que sua havia sido a idia de faz-lo participar do espetculo. Para atenuar o
remorso que o acabrunhava, ao fim de alguns dias foi visitar o pobre-diabo no
hospital.
            Mais penalizado ficou, porm, ao verificar que toda a desgraa de
Viramundo residia no fato de ter apanhado ainda em cena e portanto  vista de
quem era sua amada para todo o sempre. quela altura, Marlia Ladisbo j havia
partido com seu pai para outras paragens.
        - Sei que ela agora me vota o maior desprezo. No a censuro - lastimava-se
ele, e punha-se a tecer as mais comoventes insanidades a respeito de sua paixo.
        Dionsio consolou-o como pde, e foi-se embora, acreditando que aquele
amor insensato, em to m hora eclodido, acabaria de vez com a razo de
Viramundo - como se razo houvesse ainda que o inspirasse. Teve ento a infeliz
idia, que lhe pareceu brilhante, de proporcionar-lhe algum lenitivo, redigindo e
enviando-lhe a seguinte carta:
        "Mui nobre senhor Geraldo Viramundo: Tenho para mim que uma das
maiores emoes de minha vida foi v-lo representar no drama `Inconfidncia
Mineira'. Que carter! Que mpeto! Que capacidade histrinica! Que poder de
improvisao! No podia deixar de escrever-lhe estas linhas, transmitindo-lhe a
minha magnfica impresso, com os meus mais efusivos cumprimentos. Muito grata
pelos grandiosos momentos de arte dramtica que me soube proporcionar. Daquela
que muito o estima e admira,
                                                                 Marlia Ladisbo."
        Ao receber a carta, Viramundo se preparava para deixar o hospital. Ainda
fraco e combalido, correu a mostr-la ao estudante.
        - Dionsio, nem tudo est perdido!
        Dionsio se fez de admirado ao ler a carta e cumprimentou alegremente o
mentecapto, sentindo-se deveras alegre por lhe ter proporcionado alegria. Este,
porm, pediu-lhe de emprstimo uma folha de papel e um envelope, para redigir a
resposta.
        Levou uma semana a faz-lo, e no gastou apenas uma folha de papel,
seno duzentas e sessenta e seis. Dionsio, cansado de fornec-las uma a uma,
comprou afinal e lhe deu de presente uma resma de papel e dois pacotes de
envelopes. De posse de tanto material, Viramundo ia sentar-se nas lajes do ptio da
Cadeia e punha-se a escrever ferozmente a tarde inteira com o toco de lpis de que
dispunha. Que escrevia ele? Agradecia em estilo nobre as palavras de entusiasmo
que merecera. Declarava em termos vibrantes e comovidos o grande amor que lhe
ia n'alma. Desdobrava-se em destrambelhados, ainda que respeitosos, elogios 
amada, confessando que ela era a nica: "Nunca gostei de ningum mais, seno de
vs: sois bela, sois formosa, cheirosa criatura! No sois mulher que se disputa." E
depois de citar dezoito vezes o Novo Testamento e sete vezes o Antigo, j se
sentindo correspondido, tecia consideraes sobre a natureza do amor que a ambos
avassalava, para terminar nos seguintes termos: "Meu mundo  o da renncia, das
lgrimas e das dores: sou um pobreto. Nada vos poderei dar: romance, msica,
perfumes, jias e berloques. Entremos para um convento: eu para um, vs para
outro. Fujamos da tentao que nesta terra abunda."
        Ao fim de to afanosa lucubrao, chegou afinal  forma definitiva de sua
carta e correu a mostr-la ao estudante seu amigo:
        - No sei como fazer chegar esta epstola s mos de Sua Alteza.
        - Deixe por minha conta.
        - Temo que esteja um pouco extensa.
        - Absolutamente - respondeu o estudante, verificando que a carta tinha 67
pginas.
        To compadecido ficou ao v-la, j toda amassada e cheia de manchas,
que a mostrou mais tarde aos colegas, com palavras de comiserao para com a
sandice de seu remetente. Um deles, de nome Leandro, leu-a para os demais em
meio s gargalhadas:
        - "No sois mulher que se diz puta!"
        "...que nesta terra h bunda!"
        Ao fim de tantas troas e zombarias, decidiram de comum acordo e por
mero chiste responder  carta. Eis que se inicia ento uma das fases mais intensas
na vida de Geraldo Viramundo: sua troca de correspondncia com os estudantes,
julgando estar a se corresponder com sua amada. E eis que passo pela rama nesta
fase de meu relato, j que me  impossvel dar a exata medida do grau de
maluquice que inspiraram tais cartas: infelizmente se perderam e de nenhuma
encontrei paradeiro, por maiores tenham sido os meus esforos em rebuscar
colees, arquivos e alfarrbios em minha terra. Sou forado, pois, a limitar-me aos
elementos de que disponho, encerrando em desventura as aventuras de Viramundo
em Ouro Preto, e dando vio novo s suas peregrinaes.
        Antes de v-lo bater o p das sandlias e deixar a cidade para cumprir o
seu destino andejo, devo deter-me no escandaloso episdio a que deu motivo no
baile de gala.


        O GOVERNADOR Ladisbo tornou um dia a Ouro Preto com sua filha, e o
Prefeito resolveu realizar um grande baile em sua homenagem. Viramundo, embora
se correspondendo intensamente com a eleita de seu corao, no tivera antes
ocasio de aproximar-se dela. Quando lhe chegou a notcia do baile, alvoroou-se,
julgando ser aquele o momento oportuno. E enviou-lhe uma ltima e mais do que
todas ardente missiva, expressando o seu desejo, aps o que foi lev-la para que a
remetessem.
            - Quero v-la antes de perd-la. O destino nos separa.
            Os estudantes resolveram levar avante a farsa, no j pelo debique ao
nobre mentecapto, mas pelo despeito que a nobreza de sua amada lhes inspirava:
nenhum deles lhe havia merecido a graa de um olhar e nem ao menos foram
convidados para o baile. Como desforra, contavam com Viramundo para exp-la ao
ridculo.
            Assim, forjaram logo a resposta da carta em termos to amorosos que seu
destinatrio, ao l-la, teve os olhos rasos d'gua. Sofrendo como um co sem dono
a extenso de seu amor, suspirou:
            - Amar assim a vida inteira vai ser uma dolorosa provao. Para ser sincero:
vai ser uma merda.
            Tal expresso, to rara em Viramundo e que aqui reproduzo com a devida
vnia, consubstanciou-se mais cedo do que ele esperava.
            Chegado o dia do baile, Dionsio, que no participava da troa dos colegas,
mas ao contrrio os censurava duramente, tentou dissuadi-lo da idia de
comparecer, revelando-lhe afinal toda a verdade: quem escrevia as cartas no era
ningum seno o prprio estudante Leandro, useiro e vezeiro em brincadeiras que
tais. E urgiu com o mentecapto, que teimava em no acreditar, fazendo ouvidos de
mercador e se julgando, agora sim, vtima de alguma brincadeira:
            - Desista disso, Viramundo. Ela nunca ouviu falar em voc. Voc no
conseguir entrar no baile.
            - Quem tem topete no v tapete - retorquiu Viramundo, com hombridade e
galhardia.
            E pela primeira vez na vida limpo, bem penteado e bem vestido, com roupas
e sapatos que os estudantes lhe emprestaram, o grande mentecapto se viu naquela
mesma noite nos sales do clube local, entre os distintos convidados que
homenageavam o Governador Ladisbo e sua comitiva. Como logrou entrar,
desmentindo o estudante Dionisio,  coisa de somenos que no me cabe investigar.
Talvez os prprios estudantes o houvessem ajudado, usando para isto uma de suas
artimanhas de penetras, no que so exmios (neste sentido, alvitrarei mesmo uma
hiptese mais adiante). Ou talvez Viramundo, que sobejas vezes provou ter topete,
no visse mesmo tapete e fosse entrando. O certo  que, por sua obra e graa, mais
obra do que graa, diga-se de passagem, o baile daquela noite marcou um dos
acontecimentos mais espantosos que jamais havia registrado a histria da cidade.
        Quando ele chegou, os convivas, depois de se terem banqueteado  farta
no buffet onde eram servidas as mais finas iguarias e os mais requintados manjares,
davam incio s danas. Viam-se pessoas gradas do lugar e d'alhures: altos figures
da poltica, das artes, das armas, dos ofcios e das letras haviam acorrido dos quatro
cantos da Provncia para homenagear naquele gape danante o Governador
Ladisbo. Pela manh chegara da capital um trem especial trazendo importantes
convivas. Senhores de casaca ou de farda de gala se misturavam a senhoras
ricamente ajaezadas, palrando alegremente, enquanto a orquestra, tambm
chegada especialmente da capital, atacava a primeira valsa.
        Viramundo cruzou o salo sem ser pressentido por ningum,  procura
daquela cujo amor ali o trouxera. Teve de abrir caminho entre os inmeros
admiradores que a cercavam a um canto.
        - Vossa Alteza me permite...
        - Traga-me um ponche - ordenou ela, sem olh-lo, tomando-o por um
garom, e aqui a hiptese: provavelmente os estudantes o tivessem mesmo
disfarado como tal, para introduzi-lo no clube.
        Viramundo obedeceu sem titubear: atravessou de novo o salo, desceu as
escadas e dirigiu-se  chapeleira junto  entrada:
        - O poncho de Sua Alteza.
        No s no conseguiu se fazer entender, como, de volta  sua amada para
dar-lhe conhecimento do fracasso da misso, no conseguiu mais localiz-la.
        - Talvez ela tenha ido buscar o poncho pessoalmente - pensou ele,
esgueirando-se pelos cantos, intimidado pela beleza das mulheres e a importncia
dos cavalheiros que o cercavam. Sua presena j comeava a causar espcie e
despertar estranheza. Ento Viramundo se refugiou no buffet, quela hora deserto.
        Antes nunca o houvera feito. Ps-se a comer distraidamente o que
encontrava e, esquecido de tudo mais, ao fim de meia hora deixava a mesa vazia.
Depois de se regalar com algumas dzias de empadas, pastis, croquetes, mes-
bentas, brevidades, pes de queijo, brioches, sonhos, rosquinhas, quebra-quebras,
engorda-padres, quero-mais, suspiros, broinhas de fub e outras quitandas de igual
qualidade, sentiu estimulado o seu apetite a ponto de destrinchar um peru recheado
com farofa do qual deixou apenas os ossos e ingerir uma boa posta de lombo de
porco, com tutu de feijo, ora-pro-nobis e torresmos. Depois passou  mesa de
doces: doce de coco, doce de leite, papo-de-anjo, baba-de-moa, ambrosia, doce de
abbora, doce de batata-doce. Experimentou uma generosa poro de cada
espcie.
           Ao fim, viu-se s voltas com inadivel necessidade de aliviar-se de tanta
comilana, agrilhoado por uma ingente, urgente e pungente dor de barriga.
           Correu ao toalete, encontrou-o ocupado. Aguardou alguns minutos
preciosos, mas como no pudesse mais se conter e temendo o desastre,
embarafustou-se pelos corredores do clube, subiu correndo uma escadinha de ferro
em espiral. Suspirou, aliviado, vendo-se sozinho no sto escuro e abandonado.
Premido pela urgncia, mal pde dirigir-se  boca de um cano aberto a um canto, e
j baixava as calas. Era provavelmente um cano de esgoto, portanto mais do que
propcio, e...
           Jamais poderia eu descrever o que se passou ento. Faltam-me engenho e
arte para dar idia da cena dantesca que se seguiu. Direi apenas que o referido
cano no era de esgoto, mas mera entrada de ar para um ventilador que girava
diretamente sobre o salo de baile.
           Quando Viramundo regressou ao salo, o baile, como por encanto, havia
terminado, pois o Governador Ladisbo fora o primeiro a retirar-se, comandando:
           - Vamos embora, pessoal, que j est chovendo bosta.
           No dia seguinte a notcia do catastrfico acontecimento que pusera fim ao
grande baile de gala tomou conta da cidade, como uma onda de mau cheiro, que em
pouco se espalhava pela Provncia inteira. Ningum sabia apontar as suas causas,
mas todos o comentavam a seu modo; uns, mais objetivos, falando em possveis
canos de esgoto arrebentados; outros, mais sugestionveis, dizendo tratar-se de
estranho fenmeno teratolgico. A tamanha confuso de idias e opinies deveu
Viramundo a sorte de no ser descoberto e em conseqncia no receber o castigo
de que sua tremebunda responsabilidade no fenmeno o fazia merecedor. O
Governador Ladisbo, supersticioso, falou em artes do demnio e foi-se naquela
mesma madrugada para Barbacena, dispensando o festivo bota-fora que o Prefeito
lhe havia preparado.
        Apanhado de surpresa pela repentina partida da comitiva governamental,
Viramundo, desgostoso, resolveu tambm abandonar Ouro Preto. O que j no era
sem tempo, pois, como ele prprio costumava dizer, quem embica em cidadela,
suas barbas arrepela. O amor agora lhe inspirava novas andanas e Viramundo, fiel
ao seu destino de virar o mundo, largou-se de Ouro Preto certa manh, depois de se
despedir do cego Elias, e meteu o p na estrada, emps de sua amada.


        CAPTULO IV


        De como Viramundo colheu rosas e espinhos em Barbacena indo parar
num hospcio de onde logrou fugir, graas a uma treta bem-sucedida, e acabou
candidato a prefeito da cidade.


        ANDANDO por paus e por pedras, fazendo das tripas corao, metendo-se
em camisa onze varas, comendo o po que o diabo amassou com o rabo, e
encravilhando-se em fofas, Geraldo Viramundo chegou a Barbacena.
        Tantas e tais coisas lhe aconteceram pelo caminho, que s elas,
devidamente narradas, dariam outro livro relato de sua vida, to extenso como este
em que me empenho. Deixo a bigrafos mais bem-dotados a oportunidade de
completar o meu trabalho, metendo a nos meandros que de passagem vo ficando
inexplorados como os que aqui se referem aos caminhos e descaminhos de
Viramundo de Ouro Preto a Barbacena e tudo que de estranho lhe aconteceu. Fao
mais: forneo dados para pesquisas, referindo-me a certos episdios desse tempo,
como o da cabra que Viramundo encontrou numa grota onde veio a se abrigar; o
caminho enguiado que Viramundo fez funcionar, o do lenhador que chorava por
ter perdido a sua filhinha e que Viramundo consolou; o da mulher prenha de doze
meses cujo filho, Viramundo, por um expediente bem-sucedido, logrou que
nascesse. E outros, outros mais. Deixo-os para trs e sigo pressuroso na minha
vereda, segundo o simples esquema a que me atenho, segredo do sucesso de Joo
Guimares Rosa, mal comparando: no perder nunca o fio da meada, nem que esta
me leve a afundar-me no que seria dela um mero erro tipogrfco.
        No caso o fio  ainda Marlia Ladisbo, emps de quem Viramundo andava,
e que partira de Ouro Preto para Barbacena, onde deveria estar.
         No estava. O tempo havia passado e o Governador Ladisbo, de quem por
ora no se ouvir falar, j seguia com sua comitiva por outras andanas. Sem saber
de nada, o grande mentecapto, fiel ao propsito de rever a donzela de seus sonhos,
resolveu que deveria munir-se de algumas rosas para lhe ofertar, de que Barbacena
era, diziam, to prdiga, nas mais variadas espcies e matizes.
         Para isso, dirigiu-se  granja de um alemo que mercadejava com rosas,
logo  entrada da cidade, e recomendada como a que melhor se oferecia entre
todas.
         Chamava-se o dito alemo Herr Bosmann, e era um homem rdego,
teimoso e grosseiro. Um dia, ainda moo, mandara um preto plantar um pinheiro,
pensando na colheita.
         - Ningum colhe pinha do pinheiro que plantou - sentenciou o negro.
         - Pinheiro meu, quem colhe sou eu - retrucou o alemo, enraivecido.
         Trinta anos depois mandou chamar o negro, j velho e alquebrado:
         - Agora voc vai subir no pinheiro e colher pinha para aprender a acreditar
em mim.
         E obrigou o pobre homem a subir penosamente na rvore, cutucando-o por
baixo com uma vara. To estafante foi o esforo que o ancio, antes de chegar aos
primeiros galhos, j botava os bofes para fora, e desgarrou-se do tronco,
esborrachou-se no cho. Assim rezava a crnica de Barbacena.
         Geraldo Viramundo encontrou o velho Herr Bosmann apoiado em seu
bordo, comandando um exrcito de negrinhos, netos do preto velho de que cuidou
o nosso caso, entre as filas de roseiras floridas.
         - Vim comprar rosas - foi dizendo Viramundo, ao v-lo.
         O velho examinou com desprezo o nosso heri.
         - Quantas quer? - perguntou, sem saber como as poderia pagar o
comprador, e este sabia menos.
         - Todas - foi a resposta decidida. - So para Sua Alteza, a filha do
Governador Geral da Provncia.
         Imediatamente Herr Bosmann julgou estar diante de um extraviado inquilino
dos numerosos manicmios de que Barbacena ento j era centro, e contavam-se
na casa dos trezentos.
          - No me importa quem as recebe e sim quem as paga - respondeu,
truculento. - E o senhor no me parece homem de pagar por noventa e trs mil,
oitocentas e sessenta e quatro rosas, que  a safra deste ano.
          Viramundo no se intimidou:
          - Por que no? Trocaria todo o dinheiro que tivesse, se o tivesse, pelas
rosas que o senhor tem. E o dinheiro que tem lhe baste, que rosa cada no volta 
haste.
          - Se no tem dinheiro, ponha-se para fora daqui - ordenou o alemo,
crescendo para ele.
          - No me toque: no me bata nem com uma flor - advertiu Viramundo,
recuando um passo e pisando inadvertidamente numa roseira em boto. Antes que
ele desse tento no que sucedia, Herr Bosmann descarregava-lhe violentas
bordoadas no lombo, para o espanto e a risada dos negrinhos. Quis reagir, mas, aos
gritos do alemo, dois empregados vieram acudi-lo e em poucos segundos deram
com Viramundo na rua, depois de mais algumas bordoadas.
          - Vai comprar rosas na casa de Sua Alteza, a puta que o pariu! - gritava-lhe
de longe o alemo, brandindo o bordo.
          Viramundo no se deixou intimidar:
          - Hs de me pagar, prussiano! Por estas e outras  que a Alemanha se


defoisterou!8 Alemo cascudo!
          Ao que a molecada, abandonando o servio e em debandada por entre as
roseiras, no titubeava em fazer coro:
          - Carrapato barrigudo!
          - Come banana com casca e tudo!
          Herr Bosmann no podia de raiva, porque os moleques desfolhavam suas
rosas. Um pingo d'gua, isto , Viramundo, fizera entornar o caldo e os negrinhos
sem saber cumpriam o seu destino, vingando a morte do av nas ptalas de rosa.
          Viramundo gritou ainda l da rua:
          - No ficar ptala sobre ptala!

8
  Por mais que pesquisasse, no encontrei a origem ou sequer a verdadeira acepo deste vocbulo. H quem
acredite que se trate de um anglicismo, de radical "foirst", isto , "first" em pronncia irlandesa, donde
defoisterar seria "deixar de ser o primeiro". Mas  sabido que Viramundo nunca esteve na Irlanda ou em
nenhuma parte da Gr-Bretanha e nem ao menos sabia ingls. (N. do A.)
        E foi-se embora, furioso da vida.


        NA PRIMEIRA venda que se lhe deparou, Viramundo ia entrando para pedir
um copo d'gua, quando deu com um vendedor de esterco conhecido na cidade pela
alcunha de Barbeca, por ser barbado e careca.
        - Barba cerrada e careca rapada: urubu camarada - pensou.
        E contou-lhe sua desventura com Herr Bosmann e as rosas desfolhadas.
        - Eram para Sua Alteza, a filha do Governador Geral da Provncia -
lamuriou-se.
        Ficaram por ali de conversa e Barbeca acabou propondo ao grande
mentecapto que se vingassem da insolncia do alemo. Tambm contra ele,
Barbeca, o velho Bosmann certa feita praticara uma das suas, arrepanhando-lhe as
barbas num repelo por causa de um pouco de esterco.
        - At as rosas tm nojo dele. J lhe contaram o caso do preto velho?
        Concertaram um plano a ser executado naquela mesma noite. Consistia em
furtar a Herr Bosmann todas as rosas que pudessem. Viramundo, seja dito a bem da
verdade, no tinha inteno de furtar, pois no era do seu feitio semelhante
proceder; pretendera comprar s rosas, e como o alemo se recusara a vend-las,
considerava-se justificado em delas se apropriar, pois destinavam-se a nobre fim,
qual fosse o de ofert-las  sua amada.
        Muniram-se de dois grandes sacos e, quando todos dormiam, pularam o
muro da granja do alemo.
        - Tem cachorro? - perguntou Viramundo, apreensivo com o silncio da noite.
- Co que no ladra, morde.
        - No tem perigo - tranqilizou-o seu novo companheiro.
        - No tem perigo de ter cachorro? - insistiu o mentecapto.
        - Cachorro tem, mas so meus amigos.
        Em verdade assim era: dois mastins que de sbito saltaram da escurido
sobre os intrusos, fazendo Viramundo arrepiar carreira apavorado, mudaram de
atitude ao sentirem o cheiro bastante pronunciado do vendedor de esterco.
Lamberam-lhe a mo, olharam desconfiados para Viramundo e se foram, deixando
em paz os dois improvisados ladres de rosas.
        Em pouco, invadido o roseiral, colheram todas as rosas ao alcance de suas
mos, com uma tesoura que haviam trazido para tal fim. Sendo muito numerosas, e
pequenos para cont-las os dois grandes sacos, em breve formavam uma massa de
ptalas desfolhadas e comprimidas que no se podia propiciar a quem quer que
fosse, quanto mais  Sua Alteza, a filha do Governador Geral da Provncia. Por isso
os dois amigos, do lado de fora da granja, limitaram-se a celebrar o bom sucesso da
empreitada e saram a passear noite adentro, saco s costas, espargindo ptalas
pelas ruas da cidade, no que foram vistos por mais de um notmbulo, e Barbacena
deles tambm era prdiga.
        No dia seguinte Herr Bosmann, verificando o estrago no seu roseiral, deu
queixa  polcia, e esta no teve dificuldade em descobrir os responsveis. Foram
imediatamente detidos; o vendedor de esterco Barbeca foi trancafiado no xadrez, se
no por esta, por outras queixas mais antigas que contra ele se registravam;
Viramundo, deixando transparecer logo  primeira vista as precrias condies de
seu estado mental, foi recolhido a um manicmio.


        AO DAR entrada em sua nova residncia, Geraldo Viramundo foi levado
diretamente ao gabinete do diretor, um velhinho de cabea branca e olhos azuis que
atendia pelo nome de Dr. Pantaleo.
        - Voc o que , meu filho? - perguntou o Dr. Pantaleo.
        - Sou cristo pela graa de Deus - respondeu Viramundo.
        - Isso! Assim  que serve. Esse pelo menos fala. Cada doido com sua
mania. De mdico e louco todos temos um pouco. Eu estou perguntando qual  a
sua encarnao.
        Antes que Viramundo pensasse em responder, Dr. Pantaleo disparava a
falar, muito depressinha:
        - Napoleo ainda temos uns trs ou quatro. J tivemos uma poro. Nunca
tivemos  um papa, mas santos temos vrios. Temos tambm um que  gro de
milho, no pode ver uma galinha, foge correndo. E tem outro que  justamente
galinha, vive a perseguir o pobre do gro de milho, cacarejando. Tem um que 
cafeteira: passa o dia inteiro com um brao na cintura e outro para cima, mas no
serve caf a ningum, acho que est vazia. Tem de tudo. Dom Pedro temos dois.
Pedro Segundo, digo. No sei por que, mas Pedro Primeiro nunca mais apareceu. O
ltimo que tivemos, j faz tempo, morreu de tanto grito do Ipiranga que ele dava,
                                                                                                       9
proclamando a independncia. Independncia ou morte! Independncia ou morte!
Independncia ou morte! Ficava assim o tempo todo, montado numa vassoura. Voc
o que ?
           - Eu sou mais eu - respondeu Viramundo prontamente.
           - No pode. Se voc fosse mais voc, no estaria aqui. Voc  menos voc,
isso sim. E noves fora, zero. Se eu fosse voc, seria algum mais, no seria eu.
Portanto, voc tem de ser algum. Basta escolher. S no escolha Tiradentes, que
voc pode se dar mal. J tivemos um, e acabaram enforcando o coitado. Foi preciso
que Caxias, o pacificador, viesse botar ordem nesta joa, que isto aqui estava uma
verdadeira loucura. Se  que voc me permite esta redundncia, hi! hi! hi! Todo
mundo aqui dentro tem de ser algum ou alguma coisa. Voc o que ?
           Sem esperar resposta, o Dr. Pantaleo se aproximou dele e continuou a
falar, baixando a voz e com um brilho de esperteza nos olhinhos:
           - Vou lhe dar um conselho: seja coisa, no seja gente. Coisa  muito
melhor. Uma coisa bem macia, bem leve, bem fofa... Uma nuvem, por exemplo. Eu
vou lhe contar um segredo, peo que no conte para ningum. Quando vim para c,
minha inteno era ser uma nuvem, mas no pude, porque tinha que andar pelado,
o que era incompatvel com a minha condio de diretor. E voc j imaginou uma
nuvem de calas? He! he! he!
           - Vladimir Maiakovski! - exclamou Viramundo solenemente.
           Dr. Pantaleo levou um susto, deu um pulo para trs e passou a olh-lo
com mais respeito:
           - Que  isso, meu filho?
           - Poeta russo. Autor desse poema que o senhor mencionou, "Nuvem de
Calas".
           Como j disse, e se no disse, digo agora, Geraldo Viramundo era chegado
 poesia, e tinha lido o mencionado poema em traduo da autoria de outro poeta,
sul-americano este, de nome Pablo Menendez de los Campos, publicada numa
revista que por acaso lhe cara nas mos. Tudo isso Viramundo logrou dizer s
pressas, aproveitando-se do espanto do Dr. Pantaleo, que estava deveras
impressionado com tamanha erudio:
9
  Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a
oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros ttulos procure por http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros. Ser um prazer
receb-lo em nosso grupo.
           - Bem, poeta russo pode ser. Mas que idia, hi! hi! hi! No me leve a mal se
acho engraado. Como  mesmo o nome? Merdakovski?
           Da a origem do epteto Merdakovski, General Blgaro, constante da lista de
apelidos por mim coligida e j apresentada neste trabalho. S que Maiakovski no
era blgaro e, ao que me conste, nunca foi general.
           Mas querer quem h-de encontrar alguma razo em alcunha originada num
hospcio? Porque, a partir daquele momento, Merdakovski ele ficou sendo, para o
Dr. Pantaleo e seus inquilinos, durante a temporada que passou naquela
instituio.
           Temporada mais curta que seria de se imaginar, e encerrada merc de
engenhosa artimanha do grande mentecapto, como teremos ocasio de ver mais
adiante, no prosseguimento do nosso relato.
           Encaminhado pelo diretor ao ptio onde se encontravam os demais
internos, logo Viramundo teve a surpresa de verificar que praticamente tudo que o
Dr. Pantaleo lhe dissera, ali se confirmava. Ao entrar, passou por ele, correndo
apavorado, o tal que era milho, perseguido por outro que, aos cocorics, batia os
braos  guisa de asas. Mais adiante cruzou com um barbudo a quem os demais
tratavam respeitosamente de Sua Majestade, o Imperador. Havia realmente mais de
um com semelhante ttulo e, agastados um com o outro, os dois imperadores no se
falavam, cada um cercado de seus cortesos. No centro do ptio deu com um
gigante de mais de dois metros de altura, com os braos erguidos, imvel como se
fosse uma rvore. No seu perturbado entender, era mesmo uma rvore, ou, mais
precisamente, um carvalho, em decorrncia de seu nome, pois se chamava Salustiel
Carvalho, conforme os outros internos logo informaram ao recm-chegado,
convidando-o para sentar-se  sombra de seus galhos. Viramundo se sentia 
vontade no meio deles, conversava com um e outro, ria e brincava, como se
finalmente estivesse entre seus pares, criaturas de sua mesma refinada estirpe.
           A um canto, viu um sujeito que tinha o ouvido colado  parede. Aproximou-
se dele.
           - Psiu - fez o outro, pedindo silncio com o dedo sobre os lbios. Depois
convocou seu novo colega com um gesto de mo: - Quer ouvir tambm?
           Viramundo encostou o ouvido na parede e ficou  escuta. Nada, silncio
total.
           - No estou ouvindo nada - confessou, afinal.
         O outro confirmou, com olhar matreiro, sem descolar a orelha da parede:
         - Eu tambm no. E est assim h mais de doze horas!
         Eu encheria pginas e pginas, se fosse descrever em mincias que tais
cada momento vvido pelo grande mentecapto no hospcio. Repetirei apenas que ele
se sentia bem ali, como se estivesse na sua prpria casa, em Rio Acima, rodeado de
seus irmos. E no teria lanado mo de nenhum estratagema para escapar, como
o fez, no fora haver descoberto que se achava em tal lugar no propriamente por
sua livre e espontnea vontade, mas como um condenado recolhido  priso, qual o
seu amigo Barbeca, a quem um dia decidiu visitar. Tendo ido  presena do diretor
para deste saber quando seria possvel faz-lo, o Dr. Pantaleo lhe respondeu com
um risinho velhaco:
         - No dia de So Nunca, Merdakovski.
         - Merdakovski no senhor: Jos Geraldo Peres da Nbrega e Silva -
protestou Viramundo, ferido nos seus brios, pois sabia perfeitamente que jamais
existiu santo algum com semelhante nome, sendo, pois, improvvel que houvesse
no calendrio dia a ele votado. Sentia-se tolhido na sua liberdade de ir e vir, que era
um dos postulados mais caros s suas convices, libertas quae sera tamen! Ainda
que tardia, saberia conquist-la.
         No tardou tanto. Ao sair do gabinete do diretor, teve a surpresa de dar na
sala de espera com algum que o fez recuar para no ser visto, e escafeder-se em
seguida por um corredor. Era ningum mais e ningum menos que o prprio Herr
Bosmann, o alemo das rosas desfolhadas, que, carrancudo, esperava a vez de ser
atendido. Com efeito, Herr Bosmann, depois de passar pela cadeia local para
verificar se um dos vndalos que dizimaram seu roseiral estava purgando
devidamente o malfeito, fora ao hospcio para certificar-se tambm em relao ao
outro.
         Viramundo deu consigo numa enfermaria quela hora deserta. Ao ver num
cabide um jaleco de mdico, no pensou duas vezes antes de vesti-lo e passar a
uma saleta contgua, onde dois enfermeiros espadados tomavam caf com
requeijo e discreteavam, folgazes, enquanto os pacientes nas galerias e no ptio
lhes davam alguma trgua. Ao ver aquele mdico, egresso do gabinete do diretor,
dirigir-se a eles, compenetraram-se, respeitosos:
         - s suas ordens, doutor.
          O grande mentecapto no perdeu tempo em faz-los instrumentos da
trapaa que lhe ocorrera pr em prtica. Falou-lhes que ali na sala de espera estava
um perigoso paciente que ele viera trazer, sujeito a crises de clera nas suas
alucinaes, dizendo-se estrangeiro e dono de extensos roseirais na cidade; urgia
fosse imediatamente internado, tanto mais que, na sua sandice, dizia-se vtima dele
prprio, Dr. Jos Geraldo Peres da Nbrega e Silva, renomado alienista, com longa
prtica nos hospitais de Berlim e Viena e que, transvertido num vagabundo qualquer,
teria destrudo suas roseiras.
          Os dois guardies no vacilaram em dar cumprimento s ordens do Dr.
Peres da Nbrega e Silva. Dirigiram-se decididos  sala de espera, empolgaram
sem perda de tempo o alemo pelos braos e pelas pernas e recolheram-no ao
hospcio, por mais que ele esperneasse, tomado de fria ao ver Viramundo todo
catita no seu jaleco de mdico:
          -  ele!  o vagabundo que destruiu minhas roseiras! Ele  que  o doido e
no eu!
          Reza a crnica da cidade que Herr Bosmann teria ficado no hospcio o resto
de sua vida, j investido na personalidade do Kaiser Guilherme II, Rei da Prssia e
Imperador da Germnia, assegurando a todos que a Alemanha sairia vitoriosa na
guerra de 1914. Quanto a isso, eu no saberia dizer. Sei apenas que seus gritos de
protesto ainda ecoavam pelos corredores do manicmio e o Dr. Jos Geraldo Peres
da Nbrega e Silva j ganhava calmamente a rua, lastimando apenas no ter-se
despedido do Dr. Pantaleo que, colega para colega, no era m pessoa, apenas
um pouco alcanado pela idade no seu descortino mental.




          NUMA tarde de outono em que as rosas fenecem e os frutos amadurecem,
Geraldo Viramundo conversava despreocupadamente com seu amigo Barbeca, na
esquina da rua Bias Fortes com a rua Jos Bonifcio, quando o vendedor de esterco
lhe perguntou:
          - Voc  bista ou bonifacista?
          Como se v, Barbeca j fora solto e o caso das rosas completamente
esquecido, desde o misterioso desaparecimento de Herr Bosmann. Viramundo era
conhecido na cidade, depois que se espalhara a notcia do acontecimento de que
fora causa10 durante o baile de gala em Ouro Preto:
           - Aquele  o homem que cagou na cabea do Governador Ladisbo -
apontavam, ao v-lo passar.
           Dou vaza aqui a semelhante expresso, no s por fidelidade ao
compromisso de me ater  veracidade dos fatos, como por ser de ldima acepo
em nosso vernculo, desde Gil Vicente, que j dela fazia uso com raro sucesso. E
ela  to mais importante quanto exprime  perfeio a conotao poltica de
contestao ao regime vigente, atribuda s desastrosas conseqncias da
revoluo intestina de que Viramundo se viu atacado naquela noite fatdica. Ambas
as faces polticas locais se diziam avessas ao Governador Ladisbo, e era a elas
que se referia naquela tarde o vendedor de esterco, ao perguntar a seu amigo:
           - Voc  bista ou bonifacista?
           - Fascista nunca fui, no sou e jamais serei - respondeu Viramundo,
melindrado. - Sou liberal-democrata, monarquista e parlamentarista.
           - Voc no me entendeu - tornou o outro, impaciente. - Quem  que falou
em fascista? Eu falei em bonifacista.
           - Que vem a ser isso?
           - E quem apia os bonifcios.
           - Sei l quem so os bonifcios! - respondeu o mentecapto, j por conta do
Bonifcio.
           - So os inimigos dos bias - informou Barbeca.
           - Quem so os bias?
           - So os inimigos dos bonifcios.
           E ficariam nisso, se Barbeca no insistisse:
           - Aqui em Barbacena a gente tem de ser bista ou bonifacista. Voc o que
?
           Viramundo, aborrecido, lembrou-se do Dr. Pantaleo: todo mundo naquela
cidade tinha era mania de perguntar o que os outros eram.
           - No sei - respondeu, evasivo. - Ainda no li as plataformas. Voc o que ?
10
   Se ningum chegou a saber quem fora o responsvel, como tal responsabilidade veio a tomar-se pblica?
Trata-se de um desses pormenores em que costumam tropear os escritores pouco ciosos da verossimilhana no
registro dos fatos, o que no  o nosso caso. Apresso-me a esclarecer ao leitor ter sido o prprio Viramundo a
contar o acontecido ao seu amigo Barbeca, que se encarregou de divulg-lo pelos quatro cantos da cidade. (N. do
A.)
        - Eu nasci bista, porque meu nascimento foi na maternidade dos bias. Mas
logo virei bonifacista porque fui batizado na igreja dos bonifcios. E assim foi indo na
minha vida inteira. Na cidade tudo  duplo: armazm, escola; cinema, clube, salo
de barbeiro, at meretrcio, tem de um e tem de outro.
        - E hoje, o que voc ?
        - Bem, hoje de manh eu acordei bonifacista porque a primeira coisa que eu
fiz foi tomar uma cachacinha no botequim dos bonifcios. Depois fui levar uns sacos
de esterco na fazenda dos bias e voltei de l bista. Ainda agorinha ns estvamos
ali na rua Bias Fortes, de modos que eu era bista. Agora estamos indo pela rua
Jos Bonifcio, de modos que eu sou bonifacista.
        De fato, os dois amigos iam seguindo rua afora, distrados com a sua
peripattica conversao, como dois filsofos gregos. Detiveram-se em frente a um
caf, na praa principal da cidade, cujo nome no momento no me ocorre se era
praa Bias Fortes ou praa Jos Bonifcio.
        - Esse caf, por exemplo - perguntou Viramundo: -  bista ou bonifacista?
        - Nem um nem outro - respondeu Barbeca: -  o nico lugar da cidade que
no  de nenhum dos dois, porque ficou sendo o caf do seu Jorge francs.
        - Quem  seu Jorge francs?
        -  um escritor muito importante que veio morar em Barbacena.  o
segundo romancista vivo da Frana.
        - Qual  o primeiro?
        Barbeca passou a mo pela barba:
        - O primeiro eu no sei no.
        E apontou:
        - Olha ele l. Passa o dia inteiro escrevendo os livros dele naquela mesa.
        Interessado, Viramundo olhou para onde apontava o outro. Ao ver aquele
senhor corpulento de bigode grisalho e olhos claros, tendo a seu lado duas bengalas
e debruado numa das mesas do caf a escrever sem parar, o grande mentecapto,
que, conforme eu j disse, era versado em literatura, bateu com a mo na testa:
        -  o Georges Bemanos! J li um livro dele!
        E entrou intrepidamente caf adentro, foi direto ao romancista, fez-lhe uma
grande mesura:
        - Permita-me cumprimentar o consagrado autor do "Dirio de um Proco de
Aldeia" na traduo de Edgar de Godoi da Mata Machado!
          O escritor olhou-o num misto de surpresa e curiosidade:
          - Je ne parle pas le portugais - explicou.
          O grande mentecapto, versado no idioma de Montaigne, respondeu
prontamente:
          - J'ai perdu ma plume dans le jardin de ma tante!
          E prosseguiu, excitadssimo:
          - Aprs moi, le dluge!  quelque chose, malheur est bon!  tout seigneur,
tout honneur! L'tat c'est moi! Le lon est le roi des animaux! Le roi est mort, vive le
roi! Sans peur et sans reproche! Tout le monde et son pre! Et pour cause! Excusez
du peu!
          Com isso se esgotaram os conhecimentos de francs do grande
mentecapto. Cada vez mais entusiasmado com a proximidade de um escritor de
verdade, figura ilustre da literatura francesa e qui universal, arrematou:
          - Permita-me homenage-lo, oferecendo-lhe um modesto regalo.
          Ps-se a retirar dos bolsos seus pertences, os quais j foram enumerados
em parte anterior deste trabalho, e que continuavam os mesmos, a saber: um
pedao de barbante, uma escova de dentes, um tero, um toco de lpis, uma
caderneta, um leno vermelho e alguns recortes de jornais. A eles acrescentavam-
se o mao de cartas de Marlia Ladisbo e um coco-da-serra que havia colhido no
mato ainda aquela manh, o qual pretendia comer como sobremesa ao jantar, se
jantar houvesse. Embora invariavelmente recusasse esmolas, aceitava de bom
grado qualquer ajuda que se substanciasse em alimento.            Estendeu o coco ao
romancista:
          - Peo-lhe que no ponha reparo na humildade desta oferenda.
          O outro examinou o fruto com interesse:
          - Comment s'appele a?
          - Come-se com a mo, mas no se pla: quebra-se - respondeu Viramundo.
          - Comment?
          - Com a mo ou com o que o senhor quiser. Batendo na casca ela quebra.
          - Je ne comprends pas.
          - No  para comprar: eu estou lhe dando de presente.
          - Je ne comprends pas, mon ami.
          - No  para comprar, j falei! Estou lhe oferecendo de graa!
        Desistindo de entender, o romancista francs deu de ombros e voltou a
escrever, passando a ignorar o importuno. Este depositou o coco sobre a mesa, fez
meia-volta e saiu dignamente do caf, indo juntar-se ao amigo que o esperava na
rua:
        - Tout est bien qui finit bien! - sentenciou.


        POR esta poca a cidade inteira se indignava com a situao criada por
Clarimundo Ladisbo, Governador Geral da Provncia, que a ela queria impor como
candidato nico nas eleies municipais um prefeito de sua exclusiva escolha, que
nem ao menos natural do lugar vinha a ser. As duas faces polticas, que de
maneira to radical rivalizavam na disputa do poder, pela primeira vez na histria do
municpio se identificavam no repdio a semelhante imposio.
        Detenho-me nestas tediosas mincias da poltica local para melhor
entendimento dos fatos empolgantes que logo se sucederam, tendo nosso heri
como elemento principal.
        Falei em eleies, mas creio no ter deixado bem claro que a deciso das
urnas no prevalecia, desde que no havia escolha e a votao servia apenas para
ratificar o nome do candidato nico, escolhido pelo governo. Como desagravo, os
dois partidos estavam empenhados em lanar um candidato, ao arrepio da
imposio governamental, que simbolizaria o protesto da cidade contra semelhante
patranha. Nascida como simples chalaa de um pndego qualquer, a idia de erigir
Geraldo Viramundo em candidato da oposio se alastrou pela cidade, entre
risadas, e acabou perfilhada por ambas as correntes polticas, que viam na figura
fsica e mental do mentecapto o modelo ideal para realizar os seus desgnios de
desmoralizar o pleito.
        Uma comisso recrutada entre os freqentadores do bar dos bias foi
jocosamente comunicar ao grande mentecapto o papel histrico que lhe estava
reservado, logo secundada por outra comisso, egressa do bar dos bonifcios.
Viramundo, que tinha como abrigo nas suas noites os desvos das pontes, as
soleiras das portas e as betesgas dos subrbios, erigira em seu escritrio e quartel-
general um banco da praa. Ali o foram encontrar os portadores da honrosa misso
que lhe era outorgada.
        - Se for para o bem de todos e felicidade geral da nao, diga ao povo que
aceito - disse ele, comovido.
        A partir de ento a cidade se alvoroou com a farsa com que pretendiam
afrontar o governo. O candidato se compenetrou de seu papel, e comcios eram
promovidos quase todos os dias, com grande concentrao popular, nos quais ele
pregava o seu programa.
        Comeava por defender a tese de que os grandes males da humanidade
advm do dinheiro: o vil metal era uma instituio abominvel, que deveria ser para
sempre abolida na relao entre os homens. Cada um teria uma cadernetinha, onde
simplesmente anotaria em quanto andava seu dbito em relao s outras pessoas,
dbito que se abateria face ao que estas mesmas pessoas lhe devessem. To
engenhosa teoria econmica era discutida por todos, entre motejos, ensejando
novas hipteses e suposies: como proceder em relao ao fisco? Como se
compensariam as rameiras em relao  sua prestao de servios, que eram de
utilidade pblica, na vigncia de tal sistema creditcio?
        Mas o candidato, empolgado na defesa dos postulados de sua plataforma,
no se detinha em tais mincias e levava avante a campanha, prometendo introduzir
outras inovaes na vida pblica. Acabaria com o papelrio que entulhava mesas e
gavetas das reparties, pois todos os assuntos seriam resolvidos de boca e os
compromissos assumidos no fio de barba. A cada dia surgia ele com uma novidade,
e dizia, entusiasmado, para seu amigo Barbeca:
        - Voc vai ser meu secretrio de agricultura.
        Erigiu como primado de sua poltica econmica o princpio da barganha, ou
seja: no havendo outros recursos para assegurar a receita do municpio (j que
pretendia abolir todos os impostos), mobilizaria uma fonte latente de riqueza atravs
da troca, movimentando aquilo que era dado por abandono, verdadeira fortuna em
potencial. Seu lema para a extraordinria campanha era exclusivamente este:
Trocam-se arreios usados por aves e ovos.
        Deitou falao, buscando provar que arreios velhos e abandonados existiam
 pamparra por toda parte, e cumpria p-los de novo em circulao, ao menos como
artigo de permuta. E tome essa cangalha de burro por duas galinhas, um barbicacho
por meia dzia de ovos, me d esse cabresto que j te trago um garnis. Que fazer
com tanto arreio usado, se no prestava mais? - era o que lhe perguntavam. Ao que
Viramundo respondia:
        - Apenas movimentar. Tomar a trocar por mais aves e ovos.
         O candidato oficial, um velho professor de nome Praxedes Borba Gato,
natural ningum sabia de onde, homem sisudo que arrotava sabenas mas cujo
nome se deslustrava na condio de pau-mandado do Governador Ladisbo,
comeou a ficar apreensivo com aquela situao. No podia deixar de tomar
conhecimento da pndega que empolgava toda a cidade, e, numa de suas
manifestaes pblicas, que em geral eram bem privadas, verberou a atitude das
duas correntes polticas locais: tradicionalmente inimigas, nunca se entenderam em
coisa nenhuma, e agora se coligavam num verdadeiro acinte ao governo, em torno
de um pseudo-candidato, que no passava de um pobre-diabo, ignorante, lambo e
beldroegas.
         Viramundo, que prosseguia inflamado na sua jornada cvica, realizando
alternadamente seus comcios ora para uma, ora para outra das duas foras
antagnicas que o apoiavam, trepou nas tamancas ao saber que o adversrio o
chamara de ignorante. E atravs de alguns elementos vezeiros no leva-e-traz, que
em Minas abundam, atirou-lhe a luva do desafio para um debate em praa pblica,
que se constituiria em verdadeiro duelo de conhecimentos.
         Para surpresa de todos, o professor Praxedes Borba Gato aceitou enfrentar
o grande mentecapto, mas imps suas prprias condies: a lia teria de obedecer a
estrito regulamento por ele prprio elaborado. Na realidade, homem matreiro e
suspicaz como bom poltico mineiro, via no debate excelente ocasio de acabar com
aquela patuscada que os inimigos da ordem e do progresso haviam inventado. Tinha
l as suas letras, e estava certo de se sair to bem quanto Panurge ao derrotar o
clrigo ingls.
         O confronto foi marcado para um domingo no largo da Matriz, depois da
missa das dez, em palanque adrede armado para esse fim. Chegado o grande dia,
desde as primeiras horas da manh enorme multido se comprimia em frente 
plataforma enfeitada de bandeirolas, onde os dois adversrios iriam  porfia no
terreno do conhecimento e do saber. Depois de assistir  Santa Missa,
acompanhado de seu numeroso squito, que a essa altura congregava todos os
mendigos, vagabundos e tipos populares da cidade, Viramundo, o primeiro a chegar,
subiu ao tablado de madeira sob o estrugir de aplausos e o espocar de foguetes. Em
pouco o professor Borba Gato, com seu terno preto, subia penosamente os degraus
de madeira e adentrava o local do embate, seguido de um troo de soldados que
trouxera para sua proteo, comandados por um tenente. Os dois adversrios
cumprimentaram-se com uma cerimoniosa reverncia, e foram cada um para o seu
canto. Jovino, um mulato malemolente que dava a vida por um desajuizado daquele
gnero e que, sendo locutor da rdio local, fora um dos que mais insuflaram o nimo
da populao em favor do movimento viramundista, funcionaria como mestre-de-
cerimnias.
        Comeou ele por pedir silncio e comunicar ao pblico as condies
impostas pelo candidato oficial, aceitas de imediato pelo candidato das oposies
coligadas. Transformado em regulamento que ambos prometiam acatar, resumiam-
se em estabelecer que cada um teria o direito de propor alternadamente cinco
questes ao antagonista, com a prerrogativa de uma contra-argio sobre o
mesmo assunto. A proposio e resoluo de questes mais complexas poderia
fazer-se por escrito, utilizando-se o quadro-negro ali colocado para esse fim,  vista
de todos. O julgamento ficaria por conta do desiderato popular, por aclamao, em
respeito  soberana vontade do povo. Com isso procurava o professor Praxedes
Borba Gato revestir de certo cunho democrtico o futuro sufrgio compulsrio de seu
nome nas urnas. Ficou decidido tambm que cada candidato poderia falar o tempo
que quisesse, mas marcaria ponto em seu favor aquele que desse as respostas
certas em menos palavras.
        Depois de apresentar os disputantes, e tendo o nobre senso de eqidade de
proclamar tambm as qualidades do candidato oficial, atitude que o povo no soube
compreender pois foi recebida com vaias, o mestre-de-cerimnias Jovino deu incio
 contenda. Coube por sorteio (cara ou coroa) ao professor Borba Gato comear.
Antes de formular a primeira questo, este perguntou com ar de displicente
superioridade ao adversrio:
        - Em que lngua quereis que vos fale?
        Viramundo, a quem aborreciam os idiomas estrangeiros, a comear pelo
latim, e que preconizava o advento de uma compreenso entre os homens como a
que houvera antes de Babel, respondeu:
        - Na ltima flor do Lcio inculta e bela.
        Ento o professor, limpando a garganta e alando a voz num tremelique de
belo efeito oratrio, deu incio  contenda:
        - O que  que quanto mais se tira, maior fica?
        - Buraco - respondeu Viramundo prontamente.
        A assistncia aplaudiu, entusiasmada. Ponto para Viramundo. Este
perguntou, por sua vez:
        - O que  que, quanto maior, menos se v?
        - Eu diria que  a ignorncia de certas pessoas... - Praxedes Borba Gato
sorriu, fazendo uma pausa para aumentar a expectativa e desfechou, triunfante: -
Mas digo que  a escurido!
        Ponto para o professor, que voltou  carga:
        - O que  que vai daqui a Belo Horizonte sem sair do lugar?
        - A estrada - respondeu Viramundo, ganhando mais um ponto. E foi logo
perguntando: - Qual o animal que come com o rabo?
        O professor vacilou pela primeira vez, passando a mo no rosto, pensativo:
        - Elefante?
        Seu adversrio contestou:
        - Todos. Nenhum tira o rabo para comer.
        O candidato oficial sentiu que tinha diante de si um adversrio respeitvel.
        - Por que cachorro entra na igreja? - perguntou, alto e bom som.
        - Porque encontra a porta aberta - respondeu Viramundo sem pestanejar. E
contra-atacou: - Por que sai?
        - Porque encontra a porta aberta - tornou o professor, com ar desdenhoso
diante do bvio.
        - No senhor - fulminou Viramundo. - Sai, porque entrou.
        Os aplausos estouraram, dando insofismavelmente a vitria a Viramundo
at ali. O professor no se deixou abalar:
        - Qual  o nome do pai do filho de Zebedeu?
        - Zebedeu - respondeu Viramundo.
        - Zebedeu no tinha filhos - replicou o professor.
        Esta sofismtica contestao, sem nenhum fundamento lgico ou histrico,
foi seguida de uma grande assuada do pblico, o que valia por uma aclamao a
Viramundo. A patulia, sem maior discernimento, queria divertir-se ao mximo com a
contenda e tudo servia como divertimento.
        Cabia a Viramundo interpelar o adversrio. O grande mentecapto foi
desfechando logo:
        - De que cor era o cavalo branco de Napoleo?
        - Branco,  claro - respondeu o professor com um sorriso escarninho.
        Viramundo pagou-lhe na mesma moeda:
        - Napoleo no andava a cavalo. Sofria de hemorridas.
        A esta altura Praxedes Borba Gato via perigar a sua superioridade diante do
contendor. O mequetrefe estava lhe saindo melhor do que a encomenda. No podia
correr o risco de uma derrota naquela aventura em que se tinha metido, confiante
em sua alta prosopopia, sem ao menos o beneplcito do Governador Ladisbo, a
quem se dispensara de consultar, to certo estava da vitria. Enquanto se perdia
nestas cismas, olhando distraidamente o tenente da escolta que o acompanhava,
ocorreu-lhe de sbito uma sada para a alhada em que j se via metido. Chamou
ento o oficial e cochichou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Depois voltou-se para o
adversrio:
        - Duas pessoas se encontraram no escuro e uma disse: Boa noite, meu
filho. Ao que o outro respondeu: Boa noite, meu pai. Tomou o primeiro: Voc  meu
filho, mas eu no sou seu pai. O que era?
        - A me - liquidou Viramundo. - O outro era o filho da me.
        Enquanto o pblico explodia em aplausos, props a sua ltima questo:
        - Nabucodonosor, Rei da Babilnia. Escreve isto com quatro letras.
        O professor meditou um pouco e dirigiu-se ao quadro-negro, ps-se a
escrever vrias letras a esmo. Acabou desistindo:
        -  impossvel.
        Viramundo avanou, tomou do giz e escreveu rapidamente na lousa: I-S-T-
O.
        Foi uma consagrao. O povo aplaudia freneticamente o grande
mentecapto, enquanto o locutor Jovino proclamava a sua vitria. Quando o
comandante da escolta se acercou dele, todos julgaram ser para cumpriment-lo,
numa louvvel atitude que foi saudada com aplausos.
        - Voc j foi conscrito? - perguntou-lhe o militar.
        - No. Fui s batizado e crismado - respondeu o mentecapto.
        - Serviu em corpo de tropa?
        - No. Quando eu era menino queria ser da tropa dos escoteiros, mas meu
pai no deixou.
        - Ento voc  insubmisso. Esteja preso.
         Convocou seus comandados com um gesto e estes cercaram o grande
mentecapto, que assim foi retirado do palanque sob delirantes aplausos da multido,
como se estivesse sendo escoltado em triunfo.
         No mesmo dia, sob guarda de dois praas, foi metido num trem e levado
para Juiz de Fora, sede da regio militar, para integrar o glorioso Exrcito de Caxias
e assim cumprir seu dever para com a ptria.


         CAPTULO V


         Das mirabolantes aventuras de Viramundo no esquadro de Cavalaria em
Juiz de Fora e das suas faanhas durante as manobras militares, que acabaram por
devolv-lo  vida civil.


         O COMANDANTE do 4 Esquadro do 4 Regimento de Cavalaria da 4
Regio Militar, capito Batatinhas, assim carinhosamente chamado pelos soldados
merc de duas pequenas protuberncias na extremidade de seu apndice nasal,
tomou-se de interesse por aquele novo recruta que lhe haviam mandado, o qual
tinha sentado praa por fora de lei. Engajara-o no 4 Peloto, sob o comando do
tenente Fritas, assim conhecido por ser visto sempre junto com o Batatinhas, sendo
Freitas seu verdadeiro nome.
         No foi difcil ao capito perceber logo aos primeiros dias que no se tratava
de um soldado qualquer, mas de um cidado dotado de excepcionais atributos.
Ficou impressionado com seu aspecto fsico (o qual era indescritvel, de modo que
me abstenho de descrev-lo, deixando tal pormenor por conta da imaginao dos
leitores, j que meu trabalho pretende ser uma obra aberta, nos mais modernos
moldes ecolgicos, ou seja, defendidos por Umberto Eco). O comandante achou-o
com mais predisposio para ser cavalgado do que cavalgar, e em vez de mand-lo
com os outros recrutas montar a cavalo no picadeiro, mandou-o que fosse lavar
cavalos no pavilho de baias.
         Em pouco o tenente Fritas se apresentava na sala de comando:
         - Capito, o novo cavalario que o senhor me mandou... Bem, ele tem um
comportamento meio estranho.
         - Estranho como?
         - Em vez de lavar os cavalos, est de conversa com eles.
          - De conversa com eles? - o capito Batatinhas no conseguia entender.
          - Isso mesmo. Pelo menos com um deles. Est l numa conversa animada
com o Bunda Mole.
          - Bunda Mole? Mas que diabo...
          - Aquele cavalo tordilho que o senhor costumava montar. A soldadesca
chama ele de Bunda Mole porque  muito manso. Ele  que estava falando com o
cavalario.
          - Falando com o cavalario? Que bobagem  essa, Fritas? Voc ficou
maluco? - e o capito Batatinhas, precavidamente, mudou de atitude para com seu
subordinado: - Mais respeito comigo, tenente. No estou aqui para brincadeiras.
Onde  que voc j viu cavalo falar?
          - L no pavilho de baias, agorinha mesmo. ltima baia  direita. Se o
senhor vier comigo, vai ver o Bunda Mole de papo com o Viramundo.
          - Bunda Mole... Viramundo... - irritado, o comandante ps-se a andar de um
lado para outro. - Diga ao cavalario que se apresente imediatamente.
          Dentro em pouco o novo soldado punha a cara na porta:
          - O senhor quer falar comigo, doutor?
          - Doutor? - o capito se ergueu, afrontado. -  assim que o senhor trata o
seu comandante? A cavalaria pode ser avacalhada, mas no a esse ponto! Vamos,
enquadre-se! Perfile-se!
          Assustado, o recruta bateu os ps e perfilou-se.
          - Continncia! Fique de continncia!
          O recruta ficou de continncia. O capito, mais calmo, soltou um suspiro.
          - Pronto, agora  vontade. Vamos conversar. O tenente me disse que um
cavalo... Bem, que voc estava de conversa com um cavalo.
          - O senhor desculpe, seu comandante, mas eu no sabia que era proibido
conversar - respondeu o recruta.
          - Conversar pode, mas no com cavalo. Onde j se viu?
          - Eu no estava conversando no senhor. O cavalo  que me falou que
estava com fome e ento eu pedi licena ao tenente para dar a ele um pouco de
alfafa.
          - O cavalo te falou que estava com fome? Voc est querendo me dizer que
esse cavalo fala como gente?
           - Bem, como gente eu no diria. Embora seja muito bem-educado. Fala,
mas como cavalo mesmo.
           O capito ficou a olh-lo, perplexo.
           - Vamos l nas baias - decidiu, num rompante, e saiu, seguido do novo
cavalario.
           No caminho arrebanhou o tenente:
           - Fritas, venha comigo. Se esse soldado est de brincadeira com a gente,
priso nele, visto?
           Foram os trs at o pavilho, ltima baia  direita.
           O soldado se aproximou do tordilho, passou-lhe a mo pelo pescoo. O
cavalo ps-se a relinchar.
           - Ele est falando com o senhor, comandante.
           - Falando comigo? - assustou-se o capito. - Como assim? Falando o qu?
           - Ele est pedindo ao senhor para no deixar que os soldados continuem a
cham-lo de Bunda Mole.
           O capito Batatinhas voltou-se para o tenente Fritas:
           - Tenente, voc ouviu esse cavalo falar alguma coisa?
           O tenente, sem jeito, baixou a cabea:
           - Bem, capito, parece que foi isso mesmo que ele falou.
           O capito, olhos estatelados, fitava ora um, ora outro. Depois olhou
fixamente o cavalo e fez meia-volta, batendo em retirada.
           O incidente ficou nisso. Mas alguns dias depois o capito convocou o
cavalario  sala de comando. Este se apresentou de continncia e tudo, de acordo
com o que tinha aprendido.
           -  vontade. Precisamos conversar.
           E se ps a andar de um lado para outro, nervoso, sem saber como
comear.
           - Bem, Viramundo...  esse o seu nome, no?
           - Eu me chamo Jos Geraldo Peres da Nbrega e Silva, meu comandante!
           - Jos o qu? Muito comprido isso, vai ficar sendo Viramundo mesmo.
Escuta, Viramundo, eu preciso que voc cumpra para mim uma misso especial e
secreta.
           - Pois no, meu comandante.
        - Eu preciso que voc... - o capito procurava como dizer. - Bem, trate de
saber para mim quem  que o tenente Fritas traz para passear com ele a cavalo nas
folgas de domingo.  s isso. E no diga a ningum, visto? A ningum. S a mim.
        Viramundo o olhava sem entender:
        - O comandante que me perdoe, mas como poderei saber...
        - Sabendo - cortou o capito. - Perguntando. S no me pergunte ao Fritas.
E nem a mais ningum. Mesmo porque na folga de domingo no tem ningum que
possa saber.
        - Perguntar a quem, ento? - insistiu Viramundo.
        O capito olhou-o nos olhos em silncio e respirou fundo, tomando coragem
para responder:
        - Pergunte quele cavalo.
        E, encabulado, voltou-lhe as costas, antes de ordenar:
        -  s. Pode retirar-se.
        No domingo, Viramundo, depois do almoo, ou seja, depois de comer num
botequim um metro de lingia frita e tomar uma garrafa de cerveja Weiss, no
tendo o que fazer nem aonde ir, estava zanzando nas proximidades do quartel,
quando viu o tenente Fritas passar a cavalo em companhia de uma jovem graciosa e
lou, montada justamente no tordilho. Na segunda-feira o mentecapto se
apresentava ao comandante, batendo continncia:
        - Pronto, meu comandante. Misso cumprida.
        O comandante ergueu-se interessado:
        - Qual  o nome da pessoa?
        - O nome eu no consegui apurar. Mas  uma donzela morena, de olhos
verdes e de tranas.
        O capito, olhos parados no ar, sacudia a cabea, pensativo: morena, de
olhos verdes e de tranas. Como desconfiava, era justamente aquela por quem
mantinha uma secreta e no correspondida paixo. Viramundo acrescentou:
        - Ela saiu montada no prprio tordilho. E monta bem, com graa e donaire.
        - Com graa e donaire... - o capito continuava pensativo, mas logo caiu em
si: - Bem, Viramundo, pode retirar-se. Quanto a esse cavalo... No diga mais nada a
ele. E nem a mais ningum.
          Desde ento o soldado Viramundo passou a merecer do seu comandante
uma considerao especial. E naquele mesmo dia o capito Batatinhas mandou
chamar o tenente Fritas, ordenando:
          - A partir de hoje, fica terminantemente proibido qualquer soldado chamar o
tordilho de Bunda Mole.


          NA SUA curta temporada como soldado (se digo curta, embora lhe
parecesse longa,  que extraordinrios acontecimentos nos quais se viu envolvido, e
que sero por mim reportados oportunamente, deram com o grande mentecapto no
olho da rua, devolvido  vida civil mais cedo do que se esperava)11, Viramundo
aprendeu a lavar cavalo, encilhar cavalo, raspar cavalo, aparar crina e rabo de
cavalo, montar a cavalo, fazer terra-cavalo e fazer trincheira no cho a cav-lo.
Aprendeu a cantar o Hino Nacional (s a primeira parte) e o Hino da Cavalaria:
          Ns somos da Cavalaria!
          Que  a sentinela avanada
          Da ptria me que em ns confia
          Pra no viver eternamente avacalhada!
          S no aprendeu a fazer ordem-unida. No peloto de recrutas em evolues
no ptio, sob as ordens do sargento Baldonedo, um homem corpulento e de maus
bofes como deve ser todo sargento, um! dois! um! dois! direita... vooolver!,
Viramundo virava  esquerda, peloto para um lado e ele para o outro, em pouco
dava de cara no mouro do alambrado. Na meia-volta, fazia um rodopio pelo lado
errado, perdia o equilbrio e se destrambelhava contra os demais, atrapalhando a
formao do peloto inteiro. O sargento Baldonedo acabou desistindo e mandou-o
de volta  estrebaria, resmungando:
          - Esse Viramundo  dose pra cavalo.
          Dispensado dos exerccios, Viramundo passava o tempo sentado nos
traves da cerca, vendo os outros recrutas praticar volteio e trabalhar os cavalos, ou
os oficiais nos treinos de adestramento e salto de obstculos, entre comentrios de
um e outro:
          - Bate as pernas, animal!
11
   Se algum leitor acaso est achando longos os meus perodos e parnteses, que me perdoe, mas  porque o que
tenho a dizer no cabe em oraes curtas e bem comportadas, e transcende, como em Euclides da Cunha todas as
regras de estilo recomendadas por Antnio Albalat. (N. do A.)
        - Vai refugar! Olha: refugou.
        - Larga a patilha, sua besta!
        Depois ia esquentar sol no ptio de manobras quela hora deserto, a
acompanhar o vo dos urubus evoluindo no azul do cu, aquela doce modorra
mineira - at que um toque de cometa convocava os oficiais para o rancho:
        Parasita da nao!
        Batatinha t na mesa!
        De tempos em tempos era o toque de revista que sacudia o quartel, pondo a
tropa em polvorosa:
        Catita, catita, cad meu chapu?
        T na cabea do coronel...
        E o comandante da Regio, general Jupiapira Balcemo, surgia para dar
uma incerta no Esquadro de Cavalaria. Hasteava-se s pressas a bandeira que
anunciava sua presena, soava o toque de cometa a ele reservado, o oficial de dia
vinha correndo apresentar-se, o comandante o recebia com as honras de estilo, a
oficialidade toda formada. O general entrava, olhava tudo e saa como entrara,
carregando solenemente a barriga.
        Assim transcorria a vida militar de Viramundo, sem que o grande
mentecapto chegasse a entender a finalidade de toda aquela presepada. s vezes
se distraa recitando o famoso soneto do poeta-soldado Jsus de Miranda, que
tambm j morara em Juiz de Fora, como ele prprio afirma:
        Nasci em Guaxup, no sul de Minas!
        Criado em Juiz de Fora, entre a gentalha,
        Abracei, tanto o bom, como o canalha,
        E amei, da mulher santa s messalinas!


        Como soldado em campo de batalha,
        Lutando pelos montes e campinas,
        Ora nos bosques, ora nas colinas
        Batidas pelo fogo da metralha,


        Demonstrei o maior patriotismo,
        Quando em perigo a impvida Nao!
        Cumprindo o meu dever com herosmo,
        Na vida militar, cheguei a alferes!
        E foi no mundo a minha diverso:
        - Briga de galos, versos e mulheres!..
        .
        Se na vida militar no chegou a alferes, cedo Viramundo revelaria no campo
de batalha, lutando pelos montes e campinas, ora nos bosques, ora nas colinas, o
mesmo acendrado patriotismo do poeta de "Veritas Veritatis".
        Um dia estava o grande mentecapto distraidamente a polir o ferro de uns
arreios por ordem do sargento Baldonedo, quando o capito Batatinhas mandou
cham-lo:
        - Preciso que voc me cumpra outra misso secreta. Saber onde  que o
tenente Fritas no domingo passado levou a moa naquele cavalo.
        E advertiu:
        - Mas olha l, hein? Isso fica s entre ns e o cavalo. No diga para
ningum, visto?
        J o havia proibido de falar no assunto com quem quer que fosse, e mesmo
de conversar com o cavalo, a no ser por necessidade de servio, isto , por
exclusiva ordem sua:
        - Se uma notcia dessa se espalha, j pensou o que isto aqui vai virar? Vem
gente de toda parte do mundo!
        O comandante do 4 Esquadro de Cavalaria deixava para anunciar ao
mundo o extraordinrio fenmeno no seu devido tempo. Por ora tinha primeiro de
tirar a limpo umas tantas dvidas sobre o Fritas e a moa de tranas.
        Com efeito, o tenente, quando saa nos dias de folga a passear pela rua
Halfeld com o seu bigodinho Ramon Novarro e o quepe meio de lado em lugar do
bibico de instruo, era o que se podia chamar de um tenente sedutor. Realmente,
vinha ele arrastando a asa para a menina dos olhos do capito. Mas as disputas
amorosas entre o Batatinhas e o Fritas nada tm a ver com este relato, seno na
medida em que delas Viramundo vinha a contragosto participando, como alcoviteiro
de um deles - papel incompatvel com o carter sem jaa de nosso heri. Alm do
mais, o capito era casado, de modo que no tinha nada que cobiar a namorada do
tenente, fosse ela realmente formosa, tivesse os olhos verdes, usasse tranas e
montasse com graa e donaire, como dissera Viramundo. Por isso  de muito bom
grado que deixo daqui por diante de fazer qualquer referncia a este fato, seno
para reportar-me s funestas conseqncias que a bisbilhotice do capito acarretou
para o esquadro sob seu comando.
        Em pouco tempo Viramundo deu cabo de sua misso, vindo informar:
        - O tordilho no saiu da baia no domingo passado.
        O capito, pensativo, coou o queixo, e falou para si mesmo:
        - Ento ela saiu montada noutro.  capaz do Fritas ter desconfiado. Ou ser
mentira daquele cavalo?


        VIRAMUNDO ficara muito pesaroso com a proibio de conversar com o
tordilho. Era o seu nico amigo no quartel. Os soldados no o levavam a srio e o
tratavam com zombarias e remoques, quando no com desdm. Os sargentos
estavam muito ocupados com as suas sargentadas para se preocupar com ele; e a
oficialidade, esta vivia metida l no cassino, conversando entre si e coando o saco
(expresso que me permito usar aqui sem nenhuma conotao pejorativa, pois no
caso no se trata de sentido figurado, referindo-se, antes, a hbito bastante peculiar
e caracterstico de cavalarianos). Assim, no restava a Viramundo seno o cavalo
tordilho para lhe fazer companhia nas horas vadias do quartel, e eram quase todas.
Mas no ousava desobedecer a ordem do comandante, pois fatalmente seria visto e
disto ele logo teria conhecimento.
        Foi ento que o grande mentecapto arquitetou um plano de levar ao seu
amigo, o cavalo Bunda Mole, a mgoa que lhe enchia o peito.  noite, quando todos
dormiam, deixou de mansinho a cama do dormitrio do 4 Peloto, escafedeu-se em
silncio e foi para o pavilho de baias. Depois de dar ao tordilho um torro de
acar, passou-lhe o brido e montou mesmo sem sela, como j aprendera a fazer.
Para ganhar o terreno baldio aos fundos do quartel e, alm dele, o campo aberto,
tinha de passar pela guarita onde dormia a sentinela e atravessar o curral onde
dormia a cavalhada, pois as baias, em nmero reduzido, eram destinadas apenas 
montaria dos oficiais.
        Viramundo assim fez. Tendo passado a porteira do curral, estimulou o
cavalo, saindo a galope pela vrzea. J  distncia respeitvel do quartel, reduziu a
andadura, ps-se a conversar com o animal:
        - O capito Batatinhas me proibiu de falar com voc, a no ser quando ele
mandar. E ele s quer mandar, para que voc d notcia da namorada do tenente.
        O cavalo relinchou.
        - Eu sei que da ltima vez ela no saiu com voc - respondeu o mentecapto.
        O cavalo tomou a relinchar.
        - Como fiquei sabendo? Por acaso: o sargento Baldonedo me contou que
tem mais de uma semana que voc no sai da baia.
        Ficou calado, at que o cavalo relinchasse outra vez.
        - Tambm acho - respondeu. - Tambm no estou gostando nada disso.
Sou como voc, no gosto de me meter na vida alheia. Vamos mudar de assunto.
        E assim, cavalgando o seu amigo pelos campos e vergis, o grande
mentecapto, sob a luz do luar, passou grande parte da noite entretido em conversar
com o cavalo da sua loucura.
        E to entretido estava que, de regresso ao quartel, s quando se viu na
cama estranhou que a cavalhada estivesse quieta naquela noite l no curral. Os
animais no se escoiceavam, nem se mordiam, nem relinchavam como nas outras
noites. Sem dar maior importncia ao fato, adormeceu, pouco antes que a cometa
estraalhasse o ar com o toque de alvorada:
        Ai, meu Deus,
        Que vida esta minha!
        Se deito, no durmo,
        Planto me aporrinha!
        O que ocorreu ento ficou registrado para sempre como um dos
acontecimentos mais bizarros na histria da cidade. Em pouco comeavam os
telefonemas para o quartel:
        - Tem um cavalo solto aqui na rua, em frente ao Foro.
        - Tem cinco cavalos galopando pela estrada em direo a Santos Dumont,
pra l de Benfica.
        - Aqui no curral da Prefeitura j tem mais de dez cavalos do Esquadro
recolhidos na rua.
        Viramundo, ao voltar do passeio noturno com seu amigo, to enleado
estava que se esquecera de fechar a porteira do curral. Os cavalos, um a um,
deslizaram mansamente para fora, fugiram todos, e eram mais de cem. Tinha cavalo
solto pela cidade de Juiz de Fora inteira, e adjacncias. Em pouco o comandante
chegava, furibundo:
        - Quem foi o miservel... Quede o oficial de dia?
        Convocou a oficialidade toda, mandou abrir sindicncia:
        - Quem estava de sentinela?
        E o telefone a tocar:
        - Interurbano. De Matias Barbosa. J tem cavalo at l.
        - E como  que a gente vai fazer pra recolher todos?
        A impresso era de que a cavalhada se espalhara at os extremos limites
de Minas Gerais. Depois de tomar as necessrias providncias, o que quer dizer,
depois de dar ordens a esmo que no conduziriam absolutamente a nenhum
resultado, o capito despachou os oficiais e se deixou cair na poltrona, derrotado.
Ento se lembrou de convocar Viramundo, e pediu-lhe em segredo:
        - Voc seria capaz de descobrir quem foi o filho da puta que me abriu
aquela porteira... Talvez o tordilho saiba.


        AS MANOBRAS militares em Minas Gerais naquele ano marcaram poca.
Nestas, sim, terei de me imiscuir, pois a participao do praa de pr Geraldo
Viramundo foi decisiva para o inesperado desfecho que elas tiveram.
        Estavam em guerra os exrcitos Azul e Vermelho. Participavam soldados
dos regimentos de infantaria de So Joo del Rei e de Belo Horizonte, outro de
artilharia no sei de onde, e at o Batalho de Caadores da Bahia, o qual, no
sendo de Minas Gerais, melhor andaria no participando dessa guerra, para que no
tivesse o fim que nela teve. O 4 Esquadro de Cavalaria de Juiz de Fora,
subordinado ao Exrcito Azul, e que interessa  nossa histria, iria juntar-se ao seu
Regimento, que partiria de Trs Coraes, onde era sediado.
        E mais no digo, pois no me perderei em detalhes de estratgia militar em
que me confesso pouco versado, os quais em nada enriquecero o meu relato; alm
do que, no entenderia eu mesmo, e o leitor muito menos, aquilo que nem os
prprios militares na poca chegaram a entender. Tentasse eu descrever com
preciso histrica todos os lances das manobras, e me sentiria perdido como
Fabrice del Dongo na batalha de Austerlitz. Muito trabalho j me custou recolher
depoimentos de veteranos de guerra e antigos moradores dos locais onde se
travaram as batalhas, que me permitissem reconstituir a participao de Viramundo
naquela guerra incruenta e sem quartel, que se no chegou a manchar de sangue o
solo de Minas, marcou indelevelmente a sua histria com o ferrete do herosmo e da
glria, graas  bravura do nosso mentecapto. Quisera, para poder narrar as cenas
picas por ele vividas no campo de luta, o gnio de um Tolstoi, que, com muito
menos, recriou em pginas imortais as faanhas de Pedro Besukov na batalha de
Borodino!
         O Esquadro de Cavalaria estava acampado no Chapado do Bugre, s
margens do Riacho do Pau Mrio, perto de uma localidade denominada Vila dos
Confins, e acreditando achar-se s margens do So Francisco e perto de Pirapora.
A aviao inimiga no lhe dava trguas, em sucessivos ataques areos:
         - Ateno! Bombardeiros  vista!
         Todos corriam para as barracas camufladas com ramos de rvores. No
havia cavalos: os cavalarianos que se arranjassem a p. Tinham sido transportados
at ali em caminhes de campanha, enquanto os animais, embarcados na
estaozinha de Mariano Procpio, que era perto do quartel, seguiam de trem, para
encontr-los no caminho, e at aquele momento ningum sabia onde o trem fora
parar.
         O bombardeiro inimigo, um teco-teco do Aeroclube de So Joo del Rei,
deixava cair meia dzia de bombas de efeito moral, que vinham a ser sacos de
papel cheios de cal viva. A bateria antiarea, comandada pelo aspirante Helvcio,
abria fogo com tiros de festim, e o aviozinho sumia no horizonte. Passado o perigo,
o aspirante se apresentava, dando conta de sua misso:
         - Inimigo neutralizado, comandante.
         - Abatido? - perguntava o capito, muito srio.
         - Quem, eu?
         - O avio, sua besta.
         O capito Batatinhas, irritado, descobria que o inimigo acertara em cheio
uma bomba de cal na carroa de cozinha, exatamente dentro do caldeiro de feijo.
Naquele dia ficariam sem almoo - com exceo do pessoal da bateria antiarea,
que, inconformado, foi  mata, matou um tatu e comeu. No h tatu que agente.
         Depois houve a carga de cavalaria planejada pelo comandante para
desalojar uma unidade inimiga que se plantara atrs do morro. Para isso teriam de
descer outro morro e atravessar um vale. Carga de cavalaria a p era manobra
militar de difcil concepo, mas perfeitamente compatvel com a imaginao
criadora do grande mentecapto Geraldo Viramundo. Metido em tudo aquilo sem
entender exatamente o que se passava, pediu licena durante as instrues para
perguntar se o ataque seria a sabre, lana, espada, florete, gldio, adaga, alfanje ou
cimitarra. E muniu-se de um rebenque, que, na sua frtil inventiva, faria o papel de
todas essas armas.
          Desencadeado o ataque, a soldadesca progredindo de rastros pelo terreno,
de acordo com o regulamento, eis que Viramundo se despenha desembestado
morro abaixo, como se estivesse debaixo de bala num cavalo a galope, e, brandindo
seu rebenque, investe contra um rebanho de cabras que pastava bucolicamente nas
fraldas do outeiro, julgando tratar-se de tropa inimiga. E o fez de maneira to
quixotesca que, para fielmente descrever o que se passou, terei de faz-lo em
espanhol:
          Las cabras huan sin rumbo, ganando el campo, a los berridos y
enloquecidas, pues el gran mentecato reparta rebencazos a troche y moche como si
pretendiese aniquilar a todo un ejrcito. Entrevervanse entre ls piernas de los
soldados, perturbando su embestida y echando a perder toda la estrategia que el
capitn Papitas haba planeado en detalle. EI mismo, desesperado, erguase en la
cumbre de la colina, equilibrando sus anteojos de larga vista. Barajaba la hiptesis
de que una bala imaginaria del enemigo pudiese cogerle de sorpresa. Y sus gritos
estridentes rebotavan en la llanura:
          - Sujetad a ese loco! Liquiddlo antes que l me embadume la guerra!
          Extenuado, despus de haber dado fuga al rebao que se desparramaba
por el valle, Viramundo detvose, jadeando, y alz la mirada con aire arrogante, com
la certeza de que recogera los laureles de la victoria. Mientras tanto el sargento
Baldonedo, cumpliendo religiosamente las rdenes del comandante, consigui
alcanzarle y aplicle un tremendo puetazo, arrojndole al suelo, desfallecido.12


          A NOITE a tropa recebeu ordem de deslocar-se para fazer frente ao inimigo
- ou para dele escapar, no ficou bem claro. O inimigo estava em toda parte e em

12
   Para os leitores menos versados no idioma de Don Miguel, apresento abaixo a verso para o portugus,
realizada a meu pedido pela insigne tradutora dona Nenm Werneck de Castro, a quem apresento os meus
efusivos agradecimentos:
          As cabras fugiam para todo lado, berrando doidamente, sob os golpes de rebenque que o grande
mentecapto distribua a torto e a direito como se dizimasse um exrcito inteiro. Misturavam-se aos soldados em
grande confuso, perturbando seu avano e pondo a perder toda a estratgia planejada pelo capito
Batatinhas. Este, desesperado, erguia-se no alto do morro com seu binculo, sob o risco de levar um tiro
imaginrio do inimigo, e berrava a plenos pulmes:
          - Segurem esse maluco! Acabem com ele antes que me avacalhe a guerra!
          Extenuado, depois de ter posto o rebanho em fuga pelo vale, Viramundo se deteve, ofegante, e olhou
em torno com orgulho, para colher os louros da vitria. A esta altura o sargento Baldonedo, seguindo ao p da
letra as ordens do comandante, logrou alcan-lo e desferiu-lhe tremendo cachao, pondo-o por terra,
desacordado. (N. do A.)
lugar nenhum. O Esquadro de Cavalaria prosseguia a p, no escuro, engavetando-
se num batalho de artilharia que, desnorteado, no sabia se estava indo ou
voltando. Descobriu-se que se tratava de unidade do Exrcito Vermelho buscando
posio para travar combate. Os comandantes se desentendiam:
        - Suma com a sua tropa! Tudo junto assim no  possvel. Vocs so
inimigos, acabo prendendo todo mundo.
        - Ento prende!  um favor que voc me faz.
        Chovia e a estrada, completamente congestionada de tropas, j se cobria
de lama. Um pesado canho, puxado por uma parelha de muares, havia errado a
direo de uma ponte e descido barranco abaixo at um crrego, e l ficara
adernado. Todos davam ordens, ningum obedecia. Dentro da noite surgiu a cavalo
um coronel da infantaria para avisar ao comandante do Esquadro que os
Caadores da Bahia haviam perdido o rumo, quelas horas deviam ter ultrapassado
as fronteiras de Minas Gerais e provavelmente j estariam prximos do Rio Grande
do Sul. O capito Batatinhas disse que no tinha nada com isso, porque os
Caadores da Bahia eram inimigos - verificou-se ento que o coronel a cavalo era
inimigo tambm.
        - Quer saber de uma coisa? O senhor est preso.
        Prendeu-se o coronel e arrecadou-se o seu cavalo.
        Em meio a tamanha balbrdia, Geraldo Viramundo se perdeu. Quando deu
por si, estava metido no mato, sozinho, sem nenhuma referncia para se orientar.
Foi seguindo assim mesmo, e o dia comeava a clarear, quando deu com os
costados numa cidadezinha dos lados de Serras Azuis chamada Branca Bela, que
de bela s tinha o nome. Pediu comida e abrigo numa casa e l ficou alguns dias, j
amigo dos moradores, um menino de 8 anos chamado Niginho e uma velha coroca e
banguela, dona Filomena. Era gente boa, e a casa, embora pobre, dava para trs.
Geraldo Viramundo foi ficando, j a pensar em viver ali para sempre, reintegrado 
vida civil e passando os seus dias a brincar com o Niginho:
        - Niginho, pinho, minho, demofinho, siricotinho...
        - Viramundo, pundo, mundo, demofundo, siricotundo!
        O garoto fazia lembrar a sua infncia: tambm era criado solto como ele em
Rio Acima, em correria pelos pastos, empinando papagaios, jogando pio e bolinhas
de gude. Um dia Viramundo jogou birosca com ele - e ganhou. O grande mentecapto
lembrava-se da sua coleo, que havia atirado para o ar no dia em que fizera o trem
parar - e o Pingolinha, coitado, to pequenino que ele era, sentia saudade dos
irmos, de dona Nina e do Boaventura, vinha-lhe uma vontade de chorar. A velha
Filomena vivia resmungando pelos cantos, pitava um cachimbo fedorento, mas
cozinhava bem e do pouco que havia em casa conseguia fazer milagres. Tinha um
insignificante peclio que o marido lhe deixara, e no se cansava de falar no
falecido, afirmando que homem bom era aquele, hoje em dia no se faz mais
homem assim no. Niginho era um rfo que ela havia adotado. Ficara fascinado
com a farda de Viramundo, e s vezes os dois saam marchando juntos, tocando
tambor com a boca, ou a cantar:
        Marcha, soldado
        Cabea de papel
        Se no marchar direito
        Vai preso pro quartel.
        Uma tarde o menino entrou em casa esbaforido, gritando:
        - Evm eles, Viramundo! Evm eles!
        A cidade foi invadida de soldados. Excitado, Viramundo saiu  rua para
encontrar seus companheiros.
        Ao dar com ele, os soldados o cercaram, desconfiados.
        - Voc  vermelho ou azul? - perguntou-lhe um tenente com cara de fuinha.
        A princpio Viramundo no entendeu:
        - Nem uma coisa, nem outra - respondeu. - Sou branco, mas no alimento
preconceito racial.
        S ento se lembrou das manobras:
        - Na guerra, perteno ao Exrcito Azul.
        - Pois ento entregue-se - tomou o tenente. - Ns somos vermelhos.
        E o fuinha o levou preso em meio aos seus. Niginho chorava, desesperado,
vendo que ia perder o amigo. A velha Filomena rogava pragas contra os soldados.
L foi ele, levado pelo inimigo, que viajava a p, eram soldados da infantaria. No
caminho, cruzaram com uma patrulha de sapadores, comandada pelo cabo Tino, um
soldado gordo, suado e vermelho, que por sinal era tambm dos vermelhos.
Aqueles seguiam em sentido contrrio. O tenente Fuinha confiou o prisioneiro ao
cabo Tino, que tentou recus-lo, alegando ter outra misso a cumprir, mas foi
obrigado a acatar a ordem superior. Na realidade os infantes no sabiam o que fazer
com o prisioneiro, e os sapadores sabiam menos.
        E assim, Viramundo veio voltando com eles, na esperana de regressar a
Branca Bela. Ao cair da noite, acamparam  beira de um crrego. No tinha barraca
para Viramundo, e a comida era pouca. Cabo Tino foi franco com ele:
        - No podemos te matar, como gostaramos, porque teramos de responder
a conselho de guerra. Portanto, esta noite, enquanto dormimos, trate de fugir,
porque seno amanh voc vai se arrepender.
        Viramundo obedeceu: alta noite, quando os soldados dormiam, ganhou a
estrada, pensando em voltar para Branca Bela e se reinstalar na casa da velha
Filomena, passar os dias brincando com seu amigo Niginho.
        Foi quando se deu o episdio que, graas ao extraordinrio patriotismo do
grande mentecapto, veio acabar com a guerra, praticamente antes de ter ela
comeado.
        Para bom entendimento do que aconteceu, terei de apresentar adiante
alguns esclarecimentos sobre certas pragmticas militares.


        DESDE os tempos mais remotos, qualquer luta armada entre Estados
comea, como se sabe, por uma declarao de guerra ou ultimato, e termina por um
armistcio que encerra as hostilidades, sacramentado atravs de um termo de
rendio, seguido de um tratado de paz. Em guerras como a que se travava na
Provncia de Minas Gerais naquela fase crucial da histria de nossa terra os
entendimentos em torno do conflito geralmente so feitos atravs de documentos
preparados com a devida antecedncia, tanto os que se referem  declarao de
beligerncia como os termos de rendio. Estes ltimos so sempre dois, cada um
firmado por uma das partes em conflito, reconhecendo sua derrota ante a outra. Tais
documentos ficam em poder do Estado-Maior, que decidir ao fim da guerra qual a
faco vitoriosa. Pois naquela noite era o prprio Estado-Maior que seguia pela
estrada num automvel dirigido pelo sargento Ubirajara, tendo  bolia o major
Sequinho, ajudante-de-ordens, e refestelados no banco traseiro nada menos que
trs generais: o general Passos Dias Aguiar, o general Jacinto Aquino Rego e o
general H. Romeu Pinto. Levavam eles consigo uma pasta contendo preciosos
documentos, entre os quais os termos de rendio firmados pelos comandantes dos
dois exrcitos em guerra, para fazer prevalecer um ou outro, segundo sua alta
deliberao no prprio campo de batalha.
          E foi esse mesmo automvel que, seguindo de luzes apagadas como soem
proceder as viaturas em tempo de guerra, atropelou um soldado que caminhava,
trpego, no meio da estrada. Quando Viramundo abriu os olhos, pensou que estava
sonhando. Viu-se a si mesmo, j dia claro, dentro de um carro em disparada, tendo
de um lado um sargento na direo, do outro um major, e atrs de si uma trinca de
generais.
          - No morreu no - dizia o major Sequinho. - Est voltando a si.
          - Depressa, para o hospital de fogo  ordenou um general.
          O sargento Ubirajara seguia o mais depressa que podia, embora no
tivesse a mnima idia de onde ficava o hospital de fogo.
          - Parece que ele no sofreu grande coisa - comentou o segundo general.
          Em verdade, Viramundo, j inteiramente desperto, nada sofrera ao ser
atropelado, alm do susto.
          - Pergunte-lhe quem  ele, de onde vem e para onde vai - ordenou o
terceiro general.
          - Quem s? De onde vens? Para onde vais? - perguntou o major Sequinho.
          O grande mentecapto limpou a garganta para responder:
          - Chamam-me de Viramundo. Quero ir para Branca Bela. Quase vou pro
outro mundo quando o carro me atropela.13
          Os generais se consultavam em voz baixa, sem saber se o prendiam ou o
soltavam. Tinham misso mais importante a cumprir que transportar um simples
soldado biruta. Em dado momento, saltaram na estrada para verter gua contra um
barranco, coisa que os generais tambm costumam fazer, e resolveram aproveitar
para deix-lo ali sem dizer gua vai. O major e o sargento tambm haviam saltado, e
no satisfazer igual necessidade, postaram-se a respeitvel distncia um do outro e
ambos dos generais. Viramundo  que ficou por ali mesmo, a observ-los. A pasta
com os documentos de guerra passou de um para outro general, a fim de que
tivessem as mos livres enquanto se aliviavam, e acabou nas suas mos.



13
  Por um desses insondveis mistrios d parapsicologia, Viramundo deu resposta semelhante  de Manuel du
Bocage, quando se viu diante de um salteador em Lisboa, e que lhe fez as mesmas perguntas: "Quem s? De
onde vens? Para onde vais?" ao que ele respondeu:
        Sou o poeta Bocage
        Venho do caf Nicola
        Vou deste para o outro mundo
        Se disparas a pistola. (N. do A.)
         Foi quando se deu o mais extraordinrio: pressurosos, ainda recolhendo os
respectivos membros e fechando as braguilhas, embarcaram todos no carro e
partiram numa nuvem de p, deixando o soldado no meio da estrada com a preciosa
pasta. Viramundo tentou cham-los, mas em vo. Ento sentou-se numa pedra,
abriu a pasta, e ao primeiro documento que lhe caiu sob os olhos, estes se
arregalaram: era o termo de rendio do Exrcito Vermelho.
         No quis ver mais nada: atirou o resto para o ar e saiu pulando de alegria,
empolgado por verdadeiro delrio cvico:
          - Acabou a guerra! Vencemos! O inimigo se rendeu! - gritava, cheio de
entusiasmo, danando na poeira da estrada.
         A partir deste ponto, os elementos de que disponho para o prosseguimento
do relato so um tanto confusos. Alguns do Viramundo como tendo regressado a
Branca Bela para rever dona Filomena e seu amigo Niginho, e s ento encetando
viagem at So Joo del Rei, da para Juiz de Fora. Outros o levam diretamente 
primeira daquelas cidades, sem esclarecer como teria chegado l. Que esteve em
So Joo, no h dvida. E todos so acordes em que ali deu entrada num carro de
bois, j amigo fraterno do carreiro, que lhe propiciou durante a viagem generosas
pores de paoca para matar-lhe a fome. O certo  que se tivesse feito todo o
percurso em carro de boi, teria levado alguns anos para chegar a qualquer lugar
civilizado. Consta que, fosse qual fosse o meio de transporte de que se utilizou at
So Joo, foi encontrando pelo caminho as terrveis marcas da guerra que havia
assolado a regio: soldados desgarrados da tropa, veculos enguiados ou sem
combustvel, armas abandonadas, por todo lado tristeza e desolao. No havia
como penetrar o seu entendimento conturbado o fato de que pelo menos a tristeza e
a desolao eram parte integrante da paisagem mineira, mesmo em tempos de paz.
O grande mentecapto ia anunciando de passagem, aos berros, para os ouvidos
indiferentes dos lavradores que encontrava pelo caminho:
         - A guerra acabou! A guerra acabou!
         E  certo que tenha comido paoca na estrada, pois, ao chegar a So Joo
del Rei, precipitou-se at o balco do primeiro bar que encontrou e pediu uma
garrafa d'gua, a qual bebeu inteira pelo gargalo, para desentupir a garganta. Estava
nisso, quando deu com a fisionomia familiar de um tenente de infantaria a observ-
lo, curioso:
          - Viramundo! - exclamou finalmente o oficial. 14
          Logo o reconheceu, pois se no era outro seno o estudante Dionsio, de
Ouro Preto!
          - Como estou feliz em rev-lo! Voc agora  soldado? - e Dionsio abriu os
braos para abra-lo.
          Viramundo se esquivou delicadamente:
          - Tambm estou feliz em rev-lo, tenente, mas respeito a hierarquia.
          E perfilando-se, fez-lhe a devida continncia. Depois mostrou-lhe com
orgulho o documento de que era portador:
          - No preciso mais perguntar se o senhor  azul ou vermelho, para saber se
somos amigos ou inimigos. A guerra acabou!
          O estudante Dionsio no era azul nem vermelho. Oficial da reserva, fora
convocado para a ativa, e estava servindo em So Joo del Rei. Conseguira ser
dispensado das manobras, pois no queria nada com a guerra, e se limitava a voar
como observador num teco-teco do aeroclube local, acompanhando as evolues
dos pobres-diabos l embaixo, s vezes lhes atirando mesmo um saco de cal 
guisa de bomba, para dar mais realismo aos combates. Fora ele, sem dvida, o
responsvel pela bomba que havia cado no caldeiro de feijo.
          Ao ver o documento que Viramundo lhe exibia, j todo amassado e cheio de
manchas, no precisou de l-lo na ntegra para compor uma expresso de
entusiasmo:
          - Rendio dos vermelhos! Mas isto  importantssimo! Tem de ser levado
imediatamente ao quartel-general dos azuis, para que cessem as hostilidades.
          Dali por diante tudo foi fcil. No mesmo dia Dionsio ps o seu amigo num
nibus e pagou-lhe uma passagem at Juiz de Fora, onde ele certamente seria
recebido em triunfo no s pelos seus companheiros de farda, como por toda a
populao da cidade. Era, pelo menos, o que lhe assegurava Dionsio, ao despedir-
se dele num caloroso abrao que Viramundo, olhos molhados, desta vez admitiu
receber. Durante a viagem, mo resistiu, e anunciou o fim da guerra aos demais
passageiros, numa patritica alocuo que ameaava prolongar-se at Juiz de Fora,
se o motorista no o tivesse mandado calar a boca.
14
  Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a
oportunidade de conhecerem novas obras.
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receb-lo em nosso grupo.
        - Calo-me, mas em nome dos superiores interesses da ptria - reconsiderou
ele.
        No recebeu consagrao alguma e nem foi acolhido em triunfo. Ao
apresentar-se no Esquadro, teve a surpresa de verificar que a guerra se acabara
havia muito tempo, pois os soldados j se tinham recolhido aos quartis; entre
mortos e feridos, todos se salvaram. Por pouco no foi julgado desertor. O
comandante, considerando o seu caso, resolveu condecor-lo pelo extraordinrio
feito, concedendo-lhe solenemente um certificado de 3 categoria, que o dava para
todo o sempre como absolutamente incapaz para a vida militar.
        - O que consolidou a paz foi o documento de que voc heroicamente se fez
portador - assegurou-lhe o capito Batatinhas.
        No se sabe se o capito assim se manifestou para consol-lo ou se por
esse tempo j manifestava igual predisposio para ingressar no universo mental
habitado por Viramundo. O certo  que, antes que ele desse baixa, convidou-o a
participar dos festejos de aniversrio do Esquadro, nos quais lhe seria reservado
um papel da mais relevante importncia.


        O QUARTEL se engalanou para celebrar a grande data de maneira
condigna. Sob a presidncia de honra do comandante da Regio Militar, general
Jupiapira Balcemo, e perante seleta assistncia, composta de altas personalidades
civis e militares, senhoras e senhoritas da fina flor da sociedade local, foram
realizados vrios torneios, lias, porfias e competies. Os soldados executaram
vistosas evolues de volteio, como verdadeiros cossacos, com exerccios de terra-
cavalo, tesoura, transposio, e outras piruetas eqestres. Houve provas de salto e
demonstraes de adestramento entre os oficiais, durante as quais o tenente Fritas
se desdobrou em esforos para impressionar sua namorada, a moa de tranas,
presente na assistncia. Ao v-la acenar sorrindo para o tenente, o capito
Batatinhas fechou a cara e o cavalo tordilho relinchou.
        Mas o comandante do Esquadro reservava para o final das celebraes o
seu grande nmero, capaz de despertar a admirao de toda a cidade, do pas e do
mundo, e para o qual era imprescindvel a contribuio de Geraldo Viramundo. Para
isso, no se cansava de louvar-lhe a herica atuao durante as manobras,
conseguindo arrancar das mos do inimigo os termos de rendio. Chegou mesmo a
propor-lhe, como a mais honrosa das distines, o seu ingresso no CCC, que s
admitia oficiais, mas que abriria para ele uma exceo.
            - CCC? - Viramundo reagiu, demonstrando logo sua averso. - Comando de
Caa aos Comunistas? Jamais! Sou democrata, respeito a liberdade de credo e de
religio.
            - Nada disso - esclareceu o comandante. - Clube dos Companheiros da
Cavalaria. Tambm conhecido na intimidade como Culho, Cavalo e Cachaa.
            Agora, era ele, comandante do Esquadro, que anunciava orgulhosamente
ao pblico a extraordinria surpresa que havia reservado para o final das
festividades:
            - Excelentssimo senhor general Jupiapira Balcemo, comandante da 4
Regio Militar! Minhas senhoras e meus senhores...
            Ningum podia acreditar no que ouvia: um cavalo falante? O comandante
do Esquadro de Cavalaria, que todos j desconfiavam no regular l muito bem,
ficara maluco de vez?
            Com um sorriso superior, o capito Batatinhas enfrentou a descrena geral,
mandando vir o tordilho, j encilhado com jaezes do mais alto luxo, e com ele o
ainda praa de pr Geraldo Viramundo, todo chibante na farda limpinha que vestia
pela ltima vez.
            - Faremos agora uma demonstrao...
            E o capito cedeu a palavra a Viramundo e ao tordilho. Postados diante da
tribuna de honra, ficaram ambos, o cavalo e seu amigo, sem saber o que dizer.
            - Pergunte alguma coisa a ele - ordenou o capito, impaciente.
            - Perguntar o qu, comandante?
            - Qualquer coisa. O nome dele, por exemplo.
            Viramundo protestou:
            - Tudo menos isso. O senhor sabe que ele no gosta, comandante.
            - O seu nome, ento. Qualquer coisa.
            Viramundo dirigiu a pergunta ao tordilho e este permaneceu em silncio.
            - Pergunte outra coisa, porra!
            E o capito voltou-se para a assistncia, a justificar-se com um sorriso
amarelo:
            - O nome do soldado  mesmo meio difcil...
           Viramundo perguntou ao cavalo o nome do capito, e o animal nem abriu a
boca. A descrena se alastrava entre os espectadores, alguns j fazendo graas e
trocando motejos:
           - O cavalo no gosta de batatinhas...
           O mentecapto tirou do bolso um torro de acar e levou-o  boca de seu
amigo:
           - Que h com voc, hoje? Est aborrecido?
           Mastigando o acar, o animal limitou-se a olh-lo com olhos de uma
tristeza cavalar.
           Ento Viramundo fez uma ltima tentativa:
           - Como se chama o general comandante da Regio Militar, aqui presente?
           O tordilho firmou-se de sbito nas patas, ergueu o rabo e, depois de expelir
gs ruidosamente, despejou no cho uma chuva de bosta. A assistncia explodiu
em gargalhadas, enquanto o general Jupiapira Balcemo protestava, possesso,
brandindo os punhos:
           - Prendam esse farsante! E voc tambm, capito! Vai ser punido por
acreditar numa tratantada dessas! Eu conheo esse cavalo, ele no  de nada! No
passa mesmo de um Bunda Mole!
           Uma onda de revolta se apossa de Viramundo neste instante. Avanando
at a tribuna de honra, pe-se a esbravejar, cheio de indignao, descompondo o
general:
           - No admito que ningum chame assim o meu amigo! Ainda mais um
general bunda mole como o senhor!
           Estabelece-se grande tumulto. Vrios soldados avanam para prender o
mentecapto. Todos falam, gritam, ningum ouve ningum. O animal ergue os beios,
mostrando os dentes, e pe-se a relinchar loucamente, como um verdadeiro
Bucfalo. Quando todos afinal se calam e as atenes nele se concentram, o
tordilho se volta para o grande mentecapto e, numa voz grave de baixo profundo,
fala para quem quiser ouvir:
           - Obrigado, Viramundo.


           CAPTULO VI
        Da passagem musical de Viramundo por So Joo Del Rei, sua estada na
priso de Tiradentes e o crime de Joo Toco, at a crise espiritual que o levou 
desesperana em Congonhas do Campo.

        ESPINHOSA  a misso do escritor. Mormente quando se empenha em
fazer o levantamento da vida de personagem to abstruso como o que veio a cruzar
o meu j comprometido destino literrio. Antes de levar avante o relato de suas
aventuras e desventuras, devo esclarecer que no sou diretamente responsvel pela
veracidade do episdio que d fecho ao captulo anterior. Limito-me a vender o
peixe - no caso, o cavalo - como me foi vendido. Se o leitor no quiser comprar, no
o censuro. S peo que no tome o episdio como um desses efeitos de fim de
captulo que os escritores costumam usar, para atingir pelo exagero truo o fim
colimado. E longe de mim a pretenso de com iso ingressar na prestigiosa corrente
do realismo mgico, to em voga ultimamente, a fim de induzir o leitor a acreditar
com naturalidade num fenmeno espantoso, como  o de um cavalo falar. Eu, de
minha parte, acredito. Tenho visto ao longo da vida tantas cavalgaduras bem
falantes, que mais uma no me faz a menor mossa.
        E vamos asinha prosseguindo em nosso relato, que muito ainda terei a
relatar - mesmo passando por cima do pandemnio desencadeado quando o cavalo
falou, para no ter de registrar outras coisas que ele acaso tenha falado. Vou direto
ao nibus em que Viramundo est viajando, para cuja passagem despendeu o que
lhe sobrou do soldo recebido, depois dos devidos descontos.
        Viajando para onde? De volta a So Joo del Rei. O encontro com o ex-
estudante Dionsio, agora tenente, veio despertar-lhe velhas recordaes, e seu
corao se confrangeu: por onde andaria aquela que elegera como sua amada para
o resto da vida? T-lo-ia esquecido inteiramente, depois de intensa troca de cartas
em Ouro Preto, repletas de to ardoroso amor? Dionsio, que tanto o estimulara no
passado, era o nico que poderia levar  sua alma, de novo ferida pela paixo, o
blsamo de uma notcia alvissareira sobre ela - quanto mais no fosse, dar-lhe
indicaes de seu atual paradeiro.
        Foi procur-lo no Hotel do Espanhol, onde residia o tenente, e teve a sorte
de dar com ele no saguo, j de volta do quartel onde servia. To logo o viu,
Viramundo abriu os braos em sua direo, exclamando:
        - Tenente, senti renascer em mim a velha paixo, por isso voltei!
          Dionsio recuou um passo, assustado ante tamanho mpeto. Havia se
esquecido da desventura amorosa do grande mentecapto, e por um segundo julgou
ser, ele prprio, o objeto de tal paixo.
          - De que se trata? - perguntou cautelosamente.
          - De que se trata? Senhor meu Deus, dai-me foras! Apenas eu sinto as
penas com que o amor to mal me trata. Pois se trata de Sua Alteza, Marlia
Ladisbo, serrana bela, filha do Governador Geral da Provncia! Ento no se
lembra?
          - Ah, se me lembro! - e Dionsio, para no agravar a sandice do grande
mentecapto, que aos seus olhos j parecia mais do que agravada, acrescentou: -
Leandro, aquele colega nosso que escrevia cartas a voc como se fosse a filha do
Governador...
          Viramundo o olhava, estarrecido. Dionsio se perturbou:
          - Bem, na poca eu at que procurei te prevenir, no se lembra? Mas voc
no acreditou...
          Viramundo continuava a olh-lo sem ver nada. Constrangido, Dionsio
pretextou um motivo qualquer e se afastou.
          E para sempre: devo dizer que o seu comportamento me parece de tal
maneira indesculpvel, que o expulso de uma vez deste livro.15
          Era to pungente a sbita conscincia da verdade, que Viramundo se
afastou dali como um sonmbulo, trocando as pernas pela rua. Apalpou no bolso o
mao de cartas que nunca mais deixara de carregar consigo, mesmo nos tempos de
guerra, em pleno fragor da batalha. Debruou-se na amurada do rio do Lenheiro e
ps-se a rasg-las, uma por uma, em mil pedacinhos que esvoaavam no ar como
borboletas alucinadas, tangidos pelo vento que soprava. Deixou escapar um soluo
estrangulado como se limpasse a garganta, endireitou-se e foi andando.
          Naquele momento cruzava a Ponte da Cadeia um sujeito curvado ao peso
de uma tuba que faiscava ao sol. Viramundo o acompanhou com os olhos distrados.
Desde menino se deixava fascinar por instrumentos musicais; sempre que via
passar uma banda de msica no resistia e seguia marchando no seu rastro, como



15
  Tenho precedente ilustre para assim proceder: o de Oswald de Andrade, que expulsou o Pinto Caludo de seu
romance por ter soltado um traque. (N. do A.)
cachorro vagabundo atrs do batalho. Era o alfaiate Josias, que, como todos os
habitantes da cidade, tocava numa das centenas de orquestras existentes.
           Viramundo no andou dez passos e ouviu o som de um fagote vindo de
uma farmcia. No resistiu e entrou. O farmacutico, um velho de nome Policarpo,
sentado no seu banquinho ao fundo da farmcia vazia, mal tirou a boca do
instrumento para perguntar o que ele desejava.
           - Estou com dor de dente - respondeu.
           Em verdade uma dor de dente insidiosa e pertinaz o atormentava desde
Juiz de Fora. O velho Policarpo lhe estendeu um tubo de cera Dr. Lustosa,
recomendando que pusesse um pouco na cavidade do dente que doa, e voltou ao
seu instrumento. O mentecapto ficou a ouvi-lo.
           - Voc toca alguma coisa, meu filho? - perguntou ele, ante o interesse do
fregus.
           - Quando era menino l em Rio Acima tocava flauta de bambu - e
Viramundo acrescentou, nostlgico: - Quando era soldado tinha muita vontade de
tocar tambor, mas nunca me deixaram.
           Seu Policarpo apiedou-se daquela triste figura que tinha diante de si,
achando que a melancolia de sua voz advinha da dor de dente, sem saber da dor
maior de amor que lhe ia n'alma. Ento, j que ele gostava de msica, convidou-o
para assistir naquela noite ao ensaio da Euterpe Lira de Ouro, num casaro
abandonado l no bairro do Matola. Viramundo agradeceu, prometendo comparecer,
despediu-se e saiu.


           - AQUI funcionava antigamente um asilo de rfos - informou o
farmacutico,  noite, ao receber Viramundo, que foi o primeiro a chegar. - Depois o
inspetor do asilo, um tal de Laurindo Flores, matou o coronel Antnio Pio, foi preso e
o asilo acabou. Quis pr a culpa no provedor, o miservel. Morreu na priso, o que
foi mais que merecido. Isto aqui hoje pertence  prefeitura, que nos empresta para
os nossos ensaios.
           Seu Policarpo regia a orquestra, fazendo as vezes de maestro. Tocava
fagote para si mesmo, na farmcia - ou quando faltava o sargento Tio, e o negro
s faltava quando de servio no quartel.
           Aos poucos os outros foram chegando, e entre eles Josias, o alfaiate, que
fora visto naquela manh com sua tuba. Seu Expedito, dono do aougue, tocava
bombardino. Dr. Euclides, promotor, tocava saxofone (tenor). Seu Giuseppe,
sapateiro, tocava obo, e o filho, Nicola, tocava clarineta. Seu Nassif e seu Abdala,
do Bazar e Armarinho Dois Irmos, tocavam respectivamente pistom e trombone (de
vara). Sujiro Kutuzuda, o japons da oficina de rdio, tocava rabeca. Li Meng-chiau
Tzu, o chins da tinturaria, conhecido apenas por Li, tocava tringulo. Jorge
Paleotta, do posto de gasolina, tocava trompa. Dr. Emerlindo Gutapercha, cirurgio-
dentista, tocava viola de gamba, e sua mulher, dona Eponina, diretora do grupo
escolar, tocava viola d'amore. Seu Lobato, coletor estadual, tocava flauta. Sua me
sempre dizia: toca flauta seu Lobato tinha uma flauta, a flauta era de seu Lobato. E
outros mais.
         Havia um menino que tocava violino, em dueto com o Estgio Neves, da
agncia funerria. Moreno, magrinho, de olhos vivos e brilhantes, era de se ver
como ele arrancava gemidos plangentes do violino, quase sumido ao lado da figura
macia de seu colega de instrumento. Dizia-se que o Neves, de to corpulento, teria
de fabricar na funerria um caixo especial para quando morresse. At a morreu o
Neves.
         - Esse menino vai longe - vaticinava o farmacutico, passando a mo em
seus cabelos, findo o ensaio. E acrescentava com convico: - Em msica no  l
grande coisa, mas leva jeito para escrever, tem redao prpria, virgula muito bem.
Ainda vai acabar na Academia Mineira de Letras.
         Seu Policarpo tinha em mente dois objetivos ao convidar Viramundo para
assistir aos ensaios. Primei ro, o de realmente proporcionar alguma distrao quela
to estrambtica figura que lhe aparecera na farmcia. Segundo, percebendo logo
que se tratava de um pobre-diabo sem eira nem beira (no lhe cobrara a cera Dr.
Lustosa), via nele a pessoa ideal para ficar morando de vigia no casaro do Matola -
tarefa que ningum na cidade se abalanava a cumprir, pois alm de praticamente
abandonado, diziam mesmo que o lugar era habitado por assombraes. Assim, os
msicos poderiam deixar seus instrumentos, dispensados que do transtorno de lev-
los sempre que havia ensaio, o que se dava quase todas as noites.
         De volta para a cidade, props-lhe semelhante trato, em troca de alimento e
algum dinheiro de bolso para as despesas. Viramundo aceitou, com uma ressalva:
         - Dinheiros de sacristo, cantando vm, cantando vo. Contento-me com
casa, comida e roupa lavada.
          O que, evidentemente, no passava de uma maneira de dizer, pois em
relao  roupa, Viramundo s possua a do corpo, que lavava ele prprio quando
lhe era proporcionada a cara oportunidade de tomar um banho.
          Ficou ele, pois, morando no casaro do Matola guardio dos instrumentos
da Euterpe Lira de Ouro.
          Ora, compartilhava a moradia com o grande mentecapto, no um fantasma,
ou vrios, como muitos acreditavam, mas outro ser igualmente assustador: um
gamb, que vivia tambm ali, entre o forro e o telhado. Viramundo no era de se
assustar por to pouco, e certa noite, ao chegar da rua, deu com o bicharoco parado
na porta do quartinho dos fundos que escolhera para seu dormitrio, e nem um nem
outro fugiu: ficaram se olhando fixamente, sem uma palavra - aquela no era uma
espcie de animal com quem Viramundo gostava de conversar.
          - Com licena - falou apenas, pedindo passagem, e foi entrando.
          No dia seguinte o gamb surgiu novamente, e como parecia esfomeado,
Viramundo atirou-lhe um pedao de po que trouxera para complementar  noite o
seu jantar, como era de seu vezo fazer. O marsupial cheirou a cdea e no quis
com-la, pois gambs, pelo menos os de So Joo del Rei, no comem po, mas
chupam ovo e bebem cachaa. Limitou-se a lanar um olhar de agradecimento ao
seu novo companheiro de moradia, antes de lhe virar as costas e se afastar.
          Dali por diante passaram os dois a viver, cada um para o seu lado, em
perfeita harmonia debaixo do mesmo teto - ou, para ser preciso, um embaixo e outro
em cima. Graas a essa condescendncia do grande mentecapto em relao a
bicho to repelente, admitindo que circulasse  vontade em vez de mat-lo a pau,
como se deve proceder,16 deu-se verdadeiro desastre com a Euterpe Lira de Ouro,
num grotesco episdio que abalou toda a cidade, e que em seguida passarei a
narrar.


          A FESTA de Nossa Senhora das Mercs seria naquele ano comemorada de
maneira excepcional: fora realizado um concurso entre as quinhentas e sessenta e
sete orquestras existentes na cidade, e, derrotando at a grande orquestra sinfnica,
com mais de duzentos anos de existncia (embora os msicos no fossem os

16
  Para maiores informaes sobre o assunto, consultar o conto "Galinha Cega", no livro do mesmo nome, da
autoria de Joo Alphonsus. (N. do A.)
mesmos de sua fundao), a Euterpe Lira de Ouro tirara o primeiro lugar. A ela
caberia, pois, a honra de tocar na nave da Igreja de So Francisco - j que a prpria
Igreja das Mercs era pequena para to magnificente espetculo.
        Esta a razo pela qual os ensaios se faziam to intensos desde a
retumbante vitria, que, dizia-se  boca pequena, devera-se menos aos mritos
musicais da Euterpe que ao misterioso surto de disenteria do qual foram vtimas,
sem exceo, todos os msicos da grande orquestra sinfnica na noite do concerto
de deciso final, levando-a  inesperada derrota. Se culpa do infausto
acontecimento decorreu de sabotagem dos seus concorrentes, no me cabe afirmar
- embora seu Policarpo no deixasse de sorrir quando mencionavam na cidade o
jantar oferecido antes do concerto  orquestra inteira pelo restaurante Fra Diavolo,
do Bepino Marsala, que tocava contrabaixo na Euterpe. O certo  que, depois do
jantar, os msicos da sinfnica, enquanto tocavam, se borravam todos.
        Na vspera do concerto, Viramundo cuidou dos instrumentos com especial
carinho, sob o olhar atento e estpido do gamb, que naquele dia parecia estar mais
bbado que um gamb. Passou uma flanela nos metais para aumentar-lhes o brilho
e at mesmo as estantes das partituras mereceram seus cuidados. O concerto se
realizaria pela manh, durante a missa solene, e constaria da execuo da "Missa
em D Maior", de Beethoven, que a Euterpe Lira de Ouro ensaiara at a exausto.
Seu Policarpo tivera apenas de fazer na famosa pea musical uma ligeira alterao,
dispensando-lhe a parte coral (entre outras razes, porque a Euterpe no dispunha
de cantores) e dando nfase em seu lugar  parte da tuba de seu Josias, para
compensar a sustentao do acompanhamento.
        A igreja estava  cunha quando o farmacutico subiu ao pdio colocado na
parte central do portentoso coro, que se abria graciosamente, em volutas barrocas,
sobre um arco elptico, estendendo-se s partes laterais da nave. Espalhados ao
longo desse coro estavam os seus msicos, atentos  partitura. Seu Policarpo
ergueu a batuta, olhando fixamente para seu Josias, que, no arranjo feito para
prescindir da parte coral, era quem daria a primeira nota com sua tuba. O alfaiate
soprava, soprava, e nada. Em vez da primeira nota, o que a tuba emitiu foi um
insuportvel mau cheiro que se espalhou por toda a nave. Os fiis se entreolhavam
com estranheza, apreensivos, no estivesse a Euterpe tambm atacada de
disenteria, como vingana de Deus contra o que haviam feito com a sinfnica. Seu
Josias, enchendo as bochechas, parecia que ia estourar, e eis que o maestro,
horrorizado, v ser expelido do instrumento, como de um canho, um verdadeiro
petardo, que logo se materializou na forma de um horrendo e fedorento gamb.
        O que se seguiu, como tantos outros episdios que ocorrem neste
tumultuoso relato, foi inenarrvel. Projetado l embaixo, em meio aos espectadores,
o animal caiu no colo de um deles, que vinha a ser o de dona Edvirges Gambar,
primeira dama da cidade, pois era a dignssima e gordalhufa consorte do
Excelentssimo Sr. Dr. Epaminondas Gambar, Prefeito local, sentados ambos em
lugar de honra, em frente ao altar-mor. O Prefeito, sem perda de tempo, agarrou
pelo rabo o gamb que j se aninhava nos peitos de sua esposa e o atirou para
cima. Horripiladas, as demais figuras presentes ao grandioso espetculo sacro-
musical protegiam o rosto com os braos ou tapavam os narizes com o leno,
enquanto o bicho descrevia uma parbola no ar, indo cair diante do altar, justamente
na cabea do celebrante, frei Helano (tambm conhecido por Pito Aceso). Num
extraordinrio reflexo trazido ainda dos tempos de futebol no seminrio, o sacerdote
controlou o gamb com uma cabeada, matou no peito e desfechou-lhe violento
chute de efeito, com tamanho senso de pontaria que ele por pouco no foi parar no
coro, devolvido  orquestra regida pelo maestro Policarpo.
        Viramundo, que a tudo assistia, dissimulado a um canto (de algum tempo a
esta parte sentia-se pouco  vontade dentro de igrejas, por motivos que sero
abordados mais tarde neste relato), no chegou a ver o tumulto que se deu quando
todos queriam sair ao mesmo tempo, fugindo daquele horror. Fugiu ele prprio pela
porta da sacristia e, consta at hoje na cidade, correu tanto que sem perceber
deixou para trs So Joo del Rei e foi parar em Tiradentes.


        POR QUE Viramundo agora se sentia pouco  vontade dentro de igrejas?
Era o que ele se perguntava, admirando o interior da Matriz de Tiradentes, de um
fausto ofuscante aos seus olhos: o requinte oriental nas obras de talha do altar-mor
laminadas de ouro, os anjinhos chorando nos altares laterais, outros rindo.
Viramundo olhava cada detalhe, tentando entender o sentido que continham.
        Que sentido tm as coisas? - o grande mentecapto perguntou a si mesmo,
sentando-se num banco da nave quela hora vazia, e veio-lhe de sbito a
conscincia da prpria mentecapcidade, to despropositada quanto a minha ousadia
em escrever semelhante palavra. No entendia mais nada de nada - e tal
desentendimento o atingia to fundo, que Geraldo Viramundo ps-se a chorar.
        O leitor deve estar lembrado de crise semelhante, que o assaltou, anos
antes, quando era pouco mais que um adolescente, tambm numa igreja, ou, mais
precisamente, na capela do seminrio em Mariana. Mas daquela feita o choro era
fruto de suas meditaes, ao passo que agora decorria de constatao nascida da
mesma dvida que o levara, em menino, a interpelar o padre Limeira em Rio Acima:
meditar em qu? No havia mesmo nada sobre que meditar, conclua agora. Sentia-
se completamente vazio por dentro, numa solido sem remdio.
        Tentou pensar em sua amada to distante, a doce e terna Marlia de seus
olhos, mas a revelao de que as cartas no eram dela se interpunha, dorida, em
sua mente - viu que ela tambm ia se transformando em sua alma, deixando o
corao vazio e se perdendo na lembrana. No havia mais nada em que se agarrar
para sobreviver. Fora reduzido  depresso mais simples, e noves fora, zero, como
dizia o Dr. Panialeo. Se alguma coisa lhe restava no esprito, era apenas a
conscincia disso.
        Os leitores a esta altura podero pr em dvida a verossimilhana do meu
relato, pelo tom subitamente macambzio que o mesmo assumiu, depois de haver
passado por tantas e to animadas tropelias. Dou-lhe razo, na medida em que j
me falecem luzes para acompanhar a bruxuleante claridade da mente do nosso
heri, que dir no momento em que ela ameaa mergulhar na escurido. E a
escurido, ele prprio j afirmava no debate pblico de Barbacena, quanto maior,
menos se v.
        Viramundo saiu da igreja para a luz do dia e ps-se a andar como um
autmato pelas ruas de Tiradentes. No o impressionaram as caladas de lajes bem
varridas, o meio-fio de pedra recm-caiada, tudo arrumadinho na cidade morta,
porque no tinha sequer noo de onde estava. E sabia menos ainda que recente
mente fora recebido ali em visita oficial o prprio Governador Geral da Provncia
Clarimundo Ladisbo, com a sua comitiva, e a cidade se enfeitara para receb-lo.
Mal podia imaginar Viramundo quo perto andara de rever aquela que j fora a sua
amada a vida inteira e que parecia ter deixado de viver em seu corao.
        Seguindo sem rumo, como abandonada. Ao deter-se diante de uma
igrejinha, transformada em pequeno museu quela hora fechado, ouviu de sbito
uma voz atrs de si:
        - Eh, voc a, companheiro.
        Voltou-se e no viu ningum. Deu de ombros e j ia prosseguir na sua
caminhada, quando o chamaram de novo:
        - Eh, companheiro,  aqui!
        Olhou para o prdio fronteiro  igrejinha e viu uma janela de grades
enferrujadas. Era a cadeia local, e o nico preso ali cumprindo pena o chamava l
da sua cela:
        - Ado foi feito de barro. Amigo, me d um cigarro.
        Viramundo respondeu prontamente:
        - De barro foi feito Ado. Amigo, no tenho no.
        Mandou que aguardasse um momento, e se afastou. Na primeira venda que
encontrou, pediu um cigarro a um fregus, e, sendo atendido, voltou correndo:
        - Aqui est.
        Estendeu o cigarro por entre as grades e depois ficou por ali de conversa
com o preso, que se chamava Joo Toc. Este lhe contou que j cumprira seis anos
de uma pena de quinze. Seu ngulo de viso era apenas aquela igrejinha, e de tanto
v-la, apreciando o movimento de visitantes e turistas, acabou aprendendo alguma
coisa sobre a sua histria, que repetia para quantos se dispusessem a dar-lhe uns
trocados - e assim ia vivendo. Como a conversa se prolongasse, e em termos
diferentes do usual, o carcereiro veio l de sua sala ver quem  que estava de prosa
com o Joo Toc. Ao dar com Viramundo, convidou-o a entrar:
        - No faa cerimnia. Aqui dentro voc conversa mais  vontade.
        Viramundo aceitou e o carcereiro, abrindo com uma enorme chave a porta
de grades, deu-lhe entrada na cela do prisioneiro, trancando-a em seguida. Este
havia armado no meio da cela uma espcie de barraca de campanha, feita de lona
de caminho, para proteger-se no apenas do frio, como dos olhares bisbilhoteiros
dos passantes l da rua. E foi ali dentro que, ambos comodamente sentados numa
esteira, conversa vai, conversa vem, Joo Toc contou a Viramundo a sua histria,
como se segue.


        "NASCI na Divisa Alegre, um lugarzinho de nada pra l de Tefilo Otni,
perto de Pedra Azul, j no caminho de Vitria da Conquista.  mesmo ali na divisa
da Bahia, da o nome. O que a gente fazia l era garimpar mais garimpar, s que
no achava nada no. Passava fome, cobras e lagartos eu tive de comer,
apanhados no brejo perto do Rio Mosquito, que de rio no tem nada, s tem mesmo
 mosquito, um filete d'gua que no d nem pra matar a sede. A obrigao vivia da
mo pra boca, mulher reclamando, os filhos chorando de no ter o que comer. Ento
arresolvi me desgarrar pra Diamantina que era dita terra prometida l na Divisa,
tinha diamante de dar com o p, reluzindo no cho, nem precisava cavar, era s
apanhar os grandes, que os pequenos era que nem cascalho de tanto que tinha.
Ento passei a mo na patroa e nos meninos, mais meu genro e dois cunhados, e
meti o p na estrada, vinhemo tudo pra Diamantina.
        "Uma lonjura dessa no d pra maginar: levei um ano, da pra mais, em
andana com a tribo, pernoitando em paiol de fazenda, rancho de beira-caminho,
chiqueiro e curral, adonde dessem pra gente pasto e pousada. Vai da, depois de
muitas luas afinal a gente arribou, s que no arriamos em Diamantina mas ali nos
pertos, que dentro da cidade no deixavam garimpar, era tudo duma companhia l
que tinha explorao. Ento eu passava o dia no cabo da enxada como se fosse no
eito e mais meu cunhado, e o outro cunhado, e o genro e o resto do povinho, cava
que cava de manh at de noite e s desencavando pedra, porque diamante no
tinha no. Daqui prali, dali pra l, a gente no tendo nem onde cair morto, no dava
mesmo pra viver e no fim de dez anos eu falei assim comigo voc no vai achar
diamante nenhum, seu Joo, o melhor  voltar todo mundo pra Divisa Alegre que ali
pelo menos no tem diamante mas a vida  melhorzinha, o governo tava
prometendo servio seguro pra quem quisesse trabalhar.
        "Ento reuni o pessoal e sentei p na estrada de volta pra minha terra de
nascena. Mais um ano no calcanho, terra batida palmo a palmo, vivendo de favor,
eu, a mulher e os meninos, de vez em quando perdendo um, que isso de filho 
criao que morre muito. Cheguei e fui pro mesmo lugar de onde tinha sado.
Governo deu servio no. Plantei minha rocinha e fui me agentando. At que um
dia... Bem, a  que comea mesmo a minha histria. At que um dia tive um sonho.
        "Sonhei que amanhava a terra e de repente, numa enxadada certeira, a
terra escorreu... A terra escorreu e diante de meus olhos brilhou, tirando fasca, um
diamante enorme, deste tamanho, um diamanto mais bonito que uma estrela no
cu. Como uma estrela no cu? Como o prprio olho de Deus! Olhei ao redor do
meu sonho pra ver onde  que eu tava, e pois no  que eu tava era em Diamantina,
no mesmo stio onde enterrei minha iluso.
        "E l fui eu de novo, no dia seguinte mesmo, arrastando comigo minha
cambada. Levei nisso outro entreano, repetindo pernoites j vividos, toma estrada! E
dei comigo de novo em terra diamantina. Voc havera de ver a gana que eu procurei
o diamante do meu sonho. O vale do Tijuco ficou todo arrevirado. De vez em quando
desmoronava, eu ia ver, no era um diamante, era um calhau. Vai um dia, sonhei de
novo.
         "Desta vez procurei prestar bastante ateno no sonho pra ver se descobria
adonde  que tava o diamante. A mesma coisa: eu mandava uma enxadada, a terra
escorria, e ele l brilhando de cegar a vista. Agora eu pude botar reparo. Era numa
grota, uma espcie de salo de pedra aberto debaixo duma montanha, e o lugar era
num canto junto da parede de rocha, perto duma touceirinha de capim. Acordei no
meio da noite todo suado e tremendo, parecia estar num febro daqueles, mas no
estava, era s emoo.  que desta vez eu sabia adonde desencavar o diamanto:
era na Gruta do Salitre, um lugar que tem em Diamantina mesmo, pra l do Bairro
da Palha, pouco antes da Vila da Extrao: fica perto da chacra da Chica da Silva,
ali mesmo onde o amante da mulata encheu um lago e botou nele um barco pra ela.
At tomei nota pra no esquecer e, mais assossegado, tomei a dormir. Tomei a
sonhar tambm, s que agora era um sonho diferente: me apareceu um negro
grando sorrindo com dois dentes de ouro e me perguntando por que  que eu tava
sastisfeito assim. Eu disse pra ele que era porque dispois de mais de vinte anos eu
tinha achado o diamante dos meus sonhos: era na Gruta do Salitre - e mostrei pra
ele o lugar. Quando acordei me arrependi de ter contado, mas aos dispois at achei
graa, pois que bobabem, s! aquilo no passava de um sonho.
         "Deixei pra ir na gruta de noitinha, que ali tambm  lugar proibido de
garimpar, s a tal companhia de minerao  que pode. Levei comigo um lampio,
mas desci no escuro de pedra em pedra at o groto no p da montanha. S
quando eu  tava naquele salozo de pedra  que acendi a luz e sa procurando.
Me lembro que levei um susto medonho com o danado de um lagarto de olho grande
me olhando da greta duma pedra... Sa procurando e encontrei: a parede de rocha
tal qual eu tinha sonhado, a touceirinha de capim... S que a terra estava toda
remexida, algum tinha estado ali antes de mim. E era remexido fresco, daquele dia
mesmo.
         "Voltei pra cidade com a cabea azucrinada, sem saber o que pensar. Ainda
era cedo e me lembro que tomei uma cachaa no botequim do Jsu pra botar as
idias no lugar. Tinha l uns seresteiros, o Slvio Felcio e o Non-Vai-da-Valsa com
aquele vozeiro dele, e os dois Eullios violeiros, o Alexandre e o David. Tavam
ameaando uma seresta praquela noite mas eu ali sem escutar nada, s matutando,
matutando. Pois ento no tinha diamante nenhum - quem sabe agora  que eu
estava sonhando? Pelo sim, pelo no, resolvi no beber mais no. No caminho de
casa, passei pela casa de lapidao e achei aquele trem meio esquisito: uai, s,
mais de oito horas da noite e ainda tava aberta? Tinha uma ajuntao de gente na
porta, todo mundo animado, comentando... Fui at l, abri caminho e entrei, pra ver
o que era. A casa  um lugar onde eles fazem valiao das pedras e at compram
na hora, se tiver algum bobo que quer vender. Pois a primeira coisa que eu vejo 
um preto debruado no balco, e quando me viu entrar sorriu pra mim, um sorriso
de dois dentes de ouro.  ele - pensei. Olhei pro pratinho da balana e meu corao
parou dentro do peito: um diamante maior que um ovo de codorna, brilhando feito
uma coisa, o diamante do meu sonho! Todo mundo comentava em redor falando ao
mesmo tempo mas de repente ficou tudo calado quando eu caminhei at o negro e
falei assim: Esse diamante  meu. Agora sim, parecia que eu tava sonhando. Ele
deu uma risada e virou de costas. Eu tornei a dizer: Esse diamante  meu. Ento
ele respondeu, assim mesmo de costas: Era seu, agora  meu. Pra que voc foi
bobo de me contar? Ento eu perdi a cabea e avancei, mo estendida pra apanhar
o diamante na balana, todo mundo me olhando sem entender nada, aquele silncio
em redor. Ele me deu um empurro to forte que eu ca pra trs, bati com a cabea
na quina dum banco de pedra, quando passei a mo no cabelo ela ficou melada de
sangue. Ele soltou uma gargalhada, e ento eu no vi mais nada. Quando dei tento
de mim j tinha arrancado da cinta a lambedeira e enterrado na barriga dele at o
cabo. Ele morreu ali mesmo e eu fui condenado a quinze anos de cadeia. Fiquei
sabendo muito tempo depois que na confuso o diamante sumiu, ningum sabe
onde foi parar, ningum viu, tem gente que acha que ele nunca existiu, que tudo no
tinha mesmo passado de um sonho."


        O FIM da histria de Joo Toc, uma dvida certamente no ter ocorrido a
Viramundo mas pode ocorrer ao leitor, como, alis, aconteceu comigo: tendo ele
cometido o crime em Diamantina, em cuja comarca certamente foi julgado, por que
diabo acabou cumprindo pena em Tiradentes?
         simples, e a explicao foi por mim colhida no Arquivo Pblico Mineiro,
durante as minhas pesquisas, depois de consultar documentos da poca, relativos 
segurana do Estado. Apurei que a cadeia de Tiradentes estava, havia anos,
completamente vazia, em razo da inexistncia de criminosos naquela cidade. Em
convnio firmado com a Secretaria do Interior, para que no fosse forada a fechar a
cadeia local por falta de uso, a municipalidade pediu que lhe encaminhassem algum
preso excedente na cadeia de outro municpio. Ora, o problema de Diamantina era
justamente o oposto: a cadeia, ali, se achava instalada no antigo Teatro Santa
Isabel, e a populao local, com justas razes, achava que o prdio devia ser
restaurado e devolvido  sua serventia original, pois que a cidade cultivava mais a
arte do que o crime. Assim, quanto menos presos l houvesse, tanto melhor, e Joo
Toc, por ser de bom comportamento, foi logo transferido.
        Outras eram as dvidas de Viramundo, quando o preso se calou:
        - Tem seis anos que voc no v sua mulher e seus filhos?
        Joo Toc assentiu, os olhos cheios de lgrimas:
        - No sabem nem onde  que eu tou.
        - Vou ajud-lo a sair daqui, se voc prometer que volta - disse Viramundo. E
contou-lhe o que estava planejando.
        Esperaram que escurecesse e somente ento Viramundo chamou o
carcereiro:
        - Abre aqui que eu quero ir embora!
        O carcereiro veio abrir, rindo:
        - Pensei que voc queria ficar aqui pra sempre.
        Na meia-luz da cadeia, no viu que foi Joo Toco quem deslizou para fora
em lugar de Viramundo, pois os dois haviam trocado de roupa. S na manh
seguinte o homem percebeu o engodo de que fora vtima.
        - Ele prometeu voltar - assegurou Viramundo.
        - Ento voc fica preso at que ele volte.
        O carcereiro, um homem bonacho e de boa paz chamado seu Rolim, no
tinha dado grande importncia  fuga do outro:
        - O que  preciso  que tenha algum preso, seno a cadeia fecha e eu
perco o meu emprego.
        Viramundo ficou preso um ano e dois meses.


        JOO Toc jamais voltou. Talvez esteja at hoje perdido na imensido de
Minas Gerais, cavando o solo  procura do diamante de suas iluses. Viramundo foi
solto porque um dia baixou na cadeia outro preso, um bbado que fazia arruaa na
rua em frente  casa do padre Toledo.
        Era um homem completamente diferente do grande mentecapto, aquele que
seguia pela estrada, em meio a uma leva de romeiros a caminho de Congonhas do
Campo. Estava entre eles por mero acaso, porque iam na mesma direo e eram
tantos, que no havia como evitar-lhes a proximidade, o que, de resto, no o
incomodava. Apenas era completamente diversa da deles a sua disposio de
esprito. Enquanto cegos, zarolhos, aleijados, pernetas, manetas, papudos, lzaros,
estropiados e maltrapilhos seguiam cheios de esperana no corao, Viramundo,
desditoso e atormentado, era algum que parecia nada mais esperar da vida. No
que aquela temporada na cadeia de Tiradentes lhe tenha sido penosa ou sofrida,
pela privao da liberdade que ele tanto prezava, ou que o tivessem submetido a
maus-tratos. Ao contrrio, o carcereiro, seu Rolim, como j disse, era homem
tranqilo e de boa ndole. Procurou deix-lo em paz, vendo que seu sofrimento
interior no encontraria palavras que o abrandassem. Viramundo passava quase o
dia todo calado, imerso em seus pensamentos, no falando seno o estritamente
necessrio para revelar que sua grande mgoa no era com ningum mais, seno
consigo mesmo. Nada em sua figura lembrava agora o jovem destemido e
destemperado que vem trazendo a nossa histria em permanente sobressalto.
Cabisbaixo, taciturno, ia palmilhando com indiferena a longa estrada de Minas sem
esperar que ela o levasse a lugar nenhum.
        Qual o motivo de tamanho abatimento? A conscincia de que jamais
mereceria o amor de sua Marlia, que de sbito se abateu sobre ele na Matriz de
Tiradentes, entre reflexos de ouro do altar e querubins chorando e rindo? Mais do
que isto. Embora a perda do amor fosse crucial para a sua alma, ela no era seno
a exteriorizao de algo mais grave que sentia passar-se no fundo de si mesmo, e
que ele prprio jamais saberia formular em palavras: havia simplesmente perdido a
f. F em qu? No sabia. Em verdade, no sabia nem se ele prprio existia
realmente ou se no passava da criao alucinada de algum mais louco ainda, a
divertir-se com sua loucura at que ela o levasse desta para melhor.
        Deixemos de perquiries metafsicas, antes que elas comprometam de vez
o meu relato. Quem no tem vergonha, toma ch de congonha, diz o mineiro.
Congonhas  vista. Uma torre de igreja acabava de despontar alm da colina, na
curva da estrada. Surgiu um rio - e a cidade ficava do outro lado, nenhuma ponte de
permeio. A leva de romeiros se deteve, indecisa. Uma velha com um sorriso de um
s dente, encostada na porta de um casebre  beira do rio, informava:
         - A ponte caiu faz uns trs anos. O jeito  passar por dentro d'gua ali em
riba, na curva, que d nas canelas.
         Seguiram o conselho da bruxa, Viramundo no meio deles. L do outro lado,
foram galgando penosamente o caminho, enquanto do outro lado, outros bandos de
romeiros engrossavam uma enorme multido de infelizes.
         De repente, em meio ao vozerio que o cercava, invocaes, lamentos,
ladainhas e jaculatrias, ouviu uma voz conhecida:
         - Me leva direito, Matias, que seno eu te dou umas bordoadas!
         Era o cego Elias, de Ouro Preto, que o filho, agora um rapazinho, conduzia
rua acima, puxando-o pela bengala branca. Viramundo se deu a conhecer, e os dois
velhos amigos se abraaram, comovidos:
         - Vou ganhar olho novo s pra poder te ver pela primeira vez! - dizia o cego,
rindo. - imagina s o susto que eu vou levar!
         E juntos foram subindo a ladeira. Viramundo repetia mentalmente os versos
de Alphonsus de Guimaraens sobre aquele lugar, que sabia de cor:


         Vai-se pela ladeira acima
         At chegar ao alto do morro.
         To longe... Mas quem desanima,
         Se ele  o Senhor do Bom Socorro!


         Eram versos que falavam justamente do que estava se passando ao seu
redor:


         Quando o jubileu se aproxima,
         Ai! quanta gente sobe o morro...
         To longe... mas quem desanima,
         Se ele  o Senhor do Bom Socorro!


         Entrevados de muitos anos
         Vo de rastros pelos caminhos
         Olhar os olhos to humanos
         Do Bom Jesus de Matozinhos.


         Saem de leitos como de eas,
         Espectros cheios de esperana
         E vo cumprir loucas promessas
         Pois de esperar a f no cansa.


         - Ai que eu j no agento! - gemeu o velho Elias.
         Viramundo deu-lhe o brao e repetiu os ltimos versos em voz alta:
         - Direis talvez: Chegar l em cima...
         Antes de l chegar eu morro!
         To longe... Mas quem desanima,
         Se ele  o Senhor do Bom Socorro!


         O cego sorriu na sua escurido e ganhou nimo novo. A cidade estava
repleta de romeiros mas ainda assim Viramundo logrou instalar-se com seu amigo e
o filho no poro de uma casa abandonada e em runas, num subrbio. No dia
seguinte seria a festa que atrara para ali toda aquela multido de peregrinos, vindos
das mais longnquas plagas de Minas Gerais. O cego Elias no via a hora de ir para
a igreja pedir o seu milagre. Viramundo preferiu no acompanh-lo:
         - Acho que na igreja no tem mais lugar para mim - murmurou, como para si
mesmo.
         - A gente chega cedo...
         De repente o velho Elias se endireitou:
         - No tem lugar como? Ento Jesus Cristo Nosso Senhor no est l para te
proteger?
         - No sei se ele est l.
         E o grande mentecapto sorriu tristemente:
         - Este foi o melhor homem que j existiu. E no entanto, olha s o que
fizeram com ele.
         O cego se surpreendia com o desalento de seu amigo:
         - Que sacrilgio  esse, Viramundo? Deixa essas idias pra l, que isso 
coisa de ateu! Voc no  comunista nem nada!
          E l se foi ele com sua bengala branca e o filho fazer suas preces a Nosso
Senhor. Pensou que na volta j ia poder dispensar o Matias, e queixou-se a
Viramundo, desanimado:
          - At agora no estou enxergando nada.
          - A verdadeira viso  a da luz interior - respondeu Viramundo. - E eu sou
como um cego tateando na escurido.
          -  isso mesmo - concordou Elias, impressionado. - S que eu bem que
gostaria de ter tambm um pouquinho de luz exterior.
          Ao fim de dois dias, deixando na capela seus votos, a maioria dos romeiros
tinha partido, esperanas recolhidas para se reacenderem no ano seguinte. Era um
verdadeiro museu de horrores: dependurados pelas paredes, em molduras ovais,
retratos retocados com lpis de cor, de mistura com braos, pernas, cabeas e at
seios de cera ou de madeira, indicando a localizao das chagas. Pelos cantos,
dezenas de muletas, aparelhos ortopdicos e bengalas brancas - revelando que ao
longo do tempo outros que no o velho Elias tinham sido atendidos nas suas preces.
          Foram dias de muita perturbao para a cidade, de modo que a polcia
andou estimulando  sua maneira, isto , aos empurres e a golpes de sabre, a
sada dos mais renitentes, que prolongavam sua permanncia, ainda  espera de
um milagre. Ignorando tal disposio das autoridades, Viramundo, Elias e o filho se
deixaram ficar mais um pouco. E naquela tarde o grande mentecapto aproveitou a
calmaria que reinava agora em Congonhas para fazer aquilo que seu amigo no
podia fazer, a no ser que merecesse enfim o milagre esperado: olhar de perto os
profetas do Aleijadinho.
          Era aquela hora tardonha e morna, na indolncia de Minas Gerais, em que o
sol castiga os telhados e s, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota
incomparvel.17
          L estavam eles, os profetas, assistindo imveis ao rolar dos tempos,
dispostos pela escadaria e no adro,  distncia regular um do outro, como sentinelas
da eternidade. Em vo lento, um urubu riscava o azul do cu por entre manchas de
nuvens. Tudo quieto e parado, em suspenso. At ali no chegava a confuso do
mundo. Geraldo parecia ter sado do mundo. O tempo havia parado.
17
  O verso do poeta fala, como se sabe, do Tutu Caramujo de Itabira, e que aqui foi mencionado em Congonhas
apenas por convenincia literria. Alis, houve quem o tomasse como uma referncia ao Viramundo, donde lhe
adveio tambm este cognome. (N. do A.)
          Eis seno quando irrompe no adro da igreja o filho do velho Elias a gritar:
          - Acode, Viramundo, que eles esto matando o meu pai!
          E Matias, enquanto Viramundo o acompanhava correndo, explicava
confusamente que dois soldados quiseram retirar  fora o cego do poro e atir-lo
fora da cidade. O pai reagira com a sua bengala, e os soldados caram de sabre em
cima dele.
          Encontraram o velho Elias estirado no cho de terra do poro que lhes
servia de abrigo. Viramundo ajoelhou-se e tomou-lhe a cabea branca nas mos,
sem saber se ainda havia vida por detrs daqueles olhos opacos. Mas o velho
ofegava, engasgado, e afinal abriu a boca para deixar escorrer um filete de sangue.
Viramundo chamava-o pelo nome, ansioso, abraava-o, beijava-lhe os olhos:
          - Elias, o que fizeram com voc, Elias, por que fizeram isso, meu Deus... - e
soluava, molhando de lgrimas o rosto do amigo.
          Em pouco era um corpo sem vida que ele apertava desesperadamente nos
braos.
          Mais tarde era o delegado que chegava e tomava as providncias para
abafar o crime que seus comandados haviam cometido. Mandou que o rabeco do
necrotrio transportasse naquele mesmo dia o corpo da vtima para Ouro Preto em
companhia do filho, conforme desejo deste, depois que o legista passou o atestado
de bito em que se lia: Causa mortis - ignorada.


          L ESTO eles, dentro da noite - e agora os doze vultos escuros,
recortados contra um cu embruscado e soturno, adquirem propores fantsticas,
esmagadoras, de gigantes. Daniel, o rosto imberbe sob o barrete hebraico, leo a
seus ps, assume uma expresso reflexiva e mstica. Osias tem o semblante
perdido num sonho distante. Jonas interroga as alturas, Joel se volta como a dizer:
esperem pelo pior. Os olhos oblquos de Ezequiel observam, mordazes, Baruch
permanece insensvel. Naum curvado para a frente, Ams numa postura
desgraciosa de quem espera. Habacuc ergue dramaticamente o brao. A barba
hirsuta de Isaas lhe d rigidez ao rosto. Jeremias e Abdias se assemelham, e
tambm aguardam para sempre.
          Algum os contempla, um por um, plantado no centro do adro, mergulhado
na penumbra. O tumulto que lhe vai na alma atingiu o auge, como ondas
gigantescas que se chocam furiosamente contra a pedra, tentando romper os
diques. De sbito, numa voz irreconhecvel, como que arrancada do fundo de uma
caverna, ele grita para os cus, erguendo os braos:
        - Por que me abandonaste?
        Por algum tempo fica imvel, os olhos vtreos voltados para o alto, como 
espera de uma resposta. E volta a gritar:
        - Acaso sou eu o guardio de meu irmo?
        Num passo estugado e rgido, comandado pela prpria demncia, marcha
de um para outro dos profetas, detm-se diante de Isaas:
        - Quem  cego, seno o servo do Senhor? Tu que vs tantas coisas no as
observars? Tu que tens os ouvidos abertos, no ouvirs?
        Caminhou mais alm, sem que a esttua fizesse ouvir a sua voz de pedra.
        - E tu, Habacuc? At quando levantarei a minha voz para ti, padecendo
violncia, sem que tu me salves? Por que me mostraste a iniqidade, reduzindo-me
a ver diante de mim somente a opresso e a violncia?
        Voltou-se e avanou impetuosamente pelo adro:
        - E tu tambm, Jeremias! Em minhas entranhas, em minhas entranhas sinto
a dor. Os afetos do meu corao perturbaram-se dentro de mim.
        Um raio cortou o cu, iluminando por um segundo os solenes vultos de
pedra que cercavam Viramundo, e o trovo rolou pela noite. Pingos d'gua
tombavam, misturando-se ao sal de suas lgrimas a escorrer pelo rosto. Depois a
chuva se despencou forte, poderosa, arrasadora, sem que ele se importasse.
Quando amainou, ainda estava ali, de p, desafiando as potestades dos cus do
fundo da noite em que mergulhara.
        E a noite se foi. A aurora conseguiu romper as nuvens com seus dedos cor-
de-rosa, para encontr-lo prostrado na soleira da igreja, finalmente adormecido, as
costas apoiadas no umbral de pedra, em cujo beiral, sobre sua cabea, depois de
riscar o ar batendo as asas, uma pomba branca veio pousar.


        CAPTULO VII


        Onde Viramundo, depois de pegar touro  unha em Uberaba, vai de Ceca
em Meca para cumprir o seu destino, reverenciando a literatura mineira, passando a
noite com um fantasma e quase morrendo por uma mulher.
            UM TOURO que vem desembestado - ou desentourado - pelas ruas do
centro de Uberaba? Ou acaso estarei em Pamplona? Vejo gente fugindo em pnico,
alguns gritando de terror, outros rindo nervosamente, todos correndo aos
trambolhes, tropeos e trompaos. Alguns sobem em rvores, outros se protegem
nos desvos das portas ou atrs dos postes, muitos esbarram e cambaleiam e caem
e so pisados pelos outros. H mesmo quem galgue janelas em saltos prodigiosos
que mais tarde no sabero explicar e muito menos saberiam repetir. O touro,
bufando como uma locomotiva e largando labaredas pelas ventas18, investe furioso
como as guas do Mar do Norte invadiram a Holanda quando se romperam os
diques da cidade de Leide durante o cerco das tropas espanholas comandadas pelo
general Valdez. Perdoem os leitores a extensa comparao, certamente um pouco
inadequada ao contexto, mas acontece que acaba o livro chegando ao fim sem que
se me oferea outra oportunidade de us-la.
           Neste ponto, alis, confesso que me sinto tentado a interromper em
definitivo o meu trabalho, e se prossigo,  nica e exclusivamente por um imperativo
de conscincia como escritor, diante de meus leitores. No tenho o direito de traz-
los at aqui, para abandon-los em meio  jornada rdua que juntos
empreendemos. Agora, o jeito  vender o resto das entradas, o espetculo continua
- quem pariu Mateus que o embale. Portanto, continuemos, mesmo aos atropelos
trancos e barrancos, com que Geraldo Viramundo nos arrasta consigo ao longo de
suas peregrinaes.
           Peo vnia, porm, para esclarecer que daqui por diante o meu relato ser
um tanto claudicante na sua ordem cronolgica, dado que, por muito haja tentado,
no consegui estabelecer, a partir de Congonhas do Campo, o roteiro preciso do
grande mentecapto pelas cidades da Provncia de Minas Gerais.
           Consultando minhas anotaes, verifiquei a existncia de notcia precisa
sobre ele em Uberaba, por ocasio da Grande Exposio Agropecuria (no sei se
antes ou depois de sua agonia no adro da Matriz, provavelmente antes). Como
chegou at l, s Deus sabe. O leitor j deve ter percebido que Viramundo entrava
nas cidades e delas saa sem pedir licena, como alis procedem os demais
personagens em relao a esta minha histria.



18
  Apenas um lembrete para os futuros estudiosos da presente obra: em outra parte da mesma foi feita a
comparao de uma locomotiva com um touro. (N. do A.)
             O episdio do touro solto pelas ruas no entrou aqui apenas para dar uma
movimentada partida a este captulo, como elemento decorativo, segundo moderna
tcnica narrativa em que  mestre o romancista Jorge Amado19.  tambm uma
espcie de pano de fundo para a descrio do sensacional acontecimento que deu
em seguida. Pois no meio da turbamulta, quem se no via seno o prprio Geraldo
Viramundo, fugindo tambm? No se tratava propriamente de uma corrida de touros
em Salvaterra: o touro na realidade nem touro era, mas uma vaca brava que tinha
fugido no momento em que a transportavam para o curral da Exposio, e investira
contra o populacho que a acirrava.
             Ao desembocar-se na praa, deteve-se diante da loja de um tal de
Fernando Sabino existente naquele local,20 e por pouco no a invadia, quando uma
mulher de vermelho, indiferente a tudo, ali entrou para comprar um retrs.
             Depois recuou sobre suas poderosas patas, abrindo na praa um leque de
gente que se espalhava, horrorizada, em todas as direes, e resolveu partir por
conta prpria para o local da Exposio. O leitor no perde por esperar a surpresa
que lhe reserva ali o nosso emocionante relato.
             L chegando, o povaru correu para um lado e a vaca para outro, numa
bifurcao do tapume logo  entrada, que delimitava a parte destinada aos
espectadores da parte destinada aos animais. Aconteceu, porm, que se inverteu a
escolha das direes, no tumulto reinante, precipitando-se o pblico na sua correria
para o setor dos animais, enquanto a vaca invadia a galope o setor do pblico, com
as arquibancadas naquele momento apinhadas de gente.
             Goya teria de mobilizar toda a sua genialidade pictrica se quisesse
reproduzir o que se passou ento: foi uma cena verdadeiramente goyesca. Plantada
nas quatro patas, mastigando uma espumante baba bovina, a expelir vapor pelas
ventas, a vaca se deteve a olhar, momentaneamente surpresa, aquele povo todo,
como a escolher em que setor investir primeiro. Estava exatamente em frente 
tribuna de honra, e que se ali achava, toda airosa e garrida, ao lado do seu
dignssimo pai, cercada de sua vassalagem? Esta a surpresa reservada no
somente ao leitor mas ao prprio Viramundo, que se deixara ultrapassar pela vaca

19
  nico baiano que, por um descuido do Autor, logrou cruzar a fronteira de Minas e introduzir-se  sorrelfa
nesta obra, que cuida exclusivamente de mineiros. (N. do A.)

20
     Nenhum parentesco com o escritor de mesmo nome (N. do A.)
na corrida e chegava naquele instante, espaventado e espavorido, embora j no
tivesse mais por que se espavorir. Ao ver a vaca, estacou e ia disparando de volta
quando seus olhos deram com aquela que um dia havia eleito como sua amada para
a vida inteira. Ao lado do pai, Marlia Ladisbo olhava apavorada para a massa
enorme de ossos e msculos e chifres, a menos de trs metros, prestes a se abater
ferozmente sobre eles.
          O grande mentecapto precipitou-se num timo at o traseiro do animal e
puxou-o pela cauda. Se fisicamente no podia com uma gata pelo rabo, que dir
uma vaca! Remov-la daquela maneira, nem com a f que remove montanhas. A
prpria vaca, aborrecida, voltou a cabeorra para ver quem era aquele importuno
que lhe fazia ccegas, e o atirou longe apenas com uma rabanada, como se
espantasse uma mosca. Depois escarvou o cho com as patas e baixou a cabea
para investir.
          Ento  que se deu o prodigioso episdio, do qual existem at hoje em
Uberaba testemunhas oculares que no me deixam mentir. A assistncia, paralisada
de medo transida de horror, acompanhava tudo num silncio, mortal: nunca tinham
visto vivente algum agarrar um touro  unha. Pois foi o que fez o grande
mentecapto: literalmente agarrou a vaca pelos chifres e no satisfeito ante a sua
indomvel bravura, com a fora de um Hrcules torceu-lhes os cornos, partindo-os
ao meio.
          Aqui, antes que o leitor feche este livro para atirar-mo  cara, peo-lhe
pacincia para ler antes a retrogresso21 que se segue.


          QUANDO baixara naquela regio, Viramundo tinha pedido abrigo a um
pintor chamado Erich Raspe, que habitava por aquelas bandas, a dois quilmetros
da cidade, e este, que era tambm um pouco viramundo ele prprio, no vacilou em
acolh-lo. Raspe, alemo de nascimento, fugira ao bulcio do mundo e viera buscar
em plena solido do Tringulo Mineiro a tranqilidade que a metrpole no lhe
soubera proporcionar. Desde sua chegada, porm, metera-se numa contenda com o
vizinho por uma questo de limites: de tal maneira se desavinham e to complicada
era a referida questo, que por pouco no sou forado a usar a palavra pendenga.

21
   Neologismo criado pelo Autor, como modesta contribuio ao idioma ptrio, para suprir uma lacuna do lxico
relativa  acepo que os povos de lngua inglesa do  expresso "flashback". (N. do A.)
          Para resumir direi apenas que o vizinho de Raspe era um tipo de m
catadura e no melhor reputao, a quem chamavam to-somente de Baro, sem
que nenhum ttulo nobilirquico justificasse semelhante tratamento. O seu prestgio
poltico no local advinha tanto do grande nmero de cabeas de gado como de
eleitores que mantinha em seus respectivos currais. Sendo o Baro homem soez,
tencioneiro e pimpo, vivia em desaguisados com todos que o cercavam e lanava-
se  porfia por questo de d c aquela palha.
          A palha, no caso, vinha a ser uma nesga de terreno onde o pintor houvera
por bem lanar a sua hortinha, junto ao crrego que por ali passava em curva
caprichosa. Mais caprichoso ainda era o gado do vizinho que, na preguia de buscar
gua do outro lado do pasto, onde o mesmo crrego ia ter, transpunha a frgil cerca
do pintor para dessedentar-se ali mesmo, destruindo a horta do homem em grandes
pisadas e cagadas. De pasto do seu gado, o terreno alheiro foi-se transformando
para o Baro em pasto de sua cobia. Em breve estabelecia como divisa do terreno
o prprio crrego e mandou seus pees completarem o trabalho dos animais na
destruio da cerca, anexando arbitrariamente ao seu terreno conquistado pelos
cascos.
          Certa manh, quando Raspe acordou e chegou  janela, deu com uma vaca
a ruminar tranqilamente seu ltimo p de repolho, ali mesmo, debaixo do seu nariz,
do outro lado do crrego, onde outrora costumava plantar o que comia. No me
consta que as vacas comam repolho, seno apenas capim, mas tambm no parece
verossmil que o pintor em sua horta cultivasse capim - detalhe, de resto
perfeitamente despiciendo para a compreenso deste episdio. Indignado, Raspe
passa a mo numa velha espingarda de dois canos e d um tiro de carga dupla para
o ar, no intuito de espantar de seus domnios a intrusa. Mas no o fez to para o ar
como pretendia, e o tiro cobriu o terreno, a vaca, a elevao do pasto e foi acertar de
cheio os cornos de outro ruminante mais distanciado, que era mantido em estbulo
especial. Tratava-se de outra vaca, recm-parida esta, valiosssimo exemplar zebu-
indiano a ser exibido na Exposio para provavelmente conquistar o primeiro
prmio.
          Um camarada do stio do pintor veio trazer a notcia do acontecido: o tiro
cortara os dois chifres pela base, tinha visto com seus prprios olhos:
          - Ainda bem que seu Baro t de viagem. Quando ele chegar, sai de baixo!
        O pintor ficou seriamente preocupado. Estando a quizila dos limites j em
litgio judicial, a dos chifres prometia trazer-lhe complicaes bem mais graves.
Corria o risco de perder o stio inteiro, sem com isto indenizar nem a metade do que
valia a vaca atingida.
        - Estou arruinado - Dizia Raspe, levando as mos a cabea.
        Viramundo testemunhara o acontecido, e resolveu intervir:
        - Para tudo existe jeito, quando por mal no foi feito.
        O veterinrio que acompanhara o parto da vaca estava na ocasio
examinando uns leites no stio do pintor e se interessou pelo caso, resolveu ajudar:
        - Vaca recm-parida  marrada certa.
        - No se cutuca boi com vara curta - sentenciou o grande mentecapto. - E
vaca muito menos.
         noite, em companhia do veterinrio, Viramundo foi furtivamente at o
estbulo da vaca que, depois de ter sido posta a dormir com uma injeo de
anestsico, recebeu de volta o seu par de chifres com o auxlio de um pouco de cola
que o pintor preparara.
        E agora, ali diante da assistncia estarrecida no campo da Exposio
Pecuria, eram aqueles mesmos chifres que Viramundo erguia no ar em triunfo, de
costas para a vaca, que, sem seus adornos, ficara completamente avacalhada. Ao
dar com os olhos na sua Marlia, que, como os demais, aplaudia-o entusiasmada,
ele fez uma reverncia, como um toureiro diante da presidncia das corridas. Ela
acenou para ele, rindo, divertida, e pedindo-lhe que se aproximasse. Ele, porm,
limitou-se a fixar nela um olhar que era a um tempo mensagem de amor e de
despedida para sempre.
        Depois voltou-lhe as costas e perdeu-se na multido.


        QUANDO dona Maria Eudxia tapava o ltimo pote do doce de manga que
fizera naquele dia, na sua casa em Leopoldina, deu com um vagabundo a espi-la l
na porta da cozinha. Achou graa no olhar doce que ele esticava para o doce.
        - Quer um pouco? - perguntou, pensando em lhe dar um restinho que no
coubera no pote. Mas sua experincia da vida fez com que ela fosse mais longe:
aquele olhar comprido de cachorro vadio era fome, no tinha dvida.
          - Entre - convidou. - Vou lhe dar alguma coisa para comer.22
          Ps na mesa da cozinha um resto do empado de galinha que sobrara do
almoo.
          - Pronto. Pode comer tudo, se quiser. Como  o seu nome?
          Ele, j sentado  mesa e devorando a torta, retirou o garfo da boca para
responder:
          - Jos Geraldo Peres da Nbrega e Silva. Mas sou conhecido por
Viramundo.
          - Conhecido aonde?
          - Por a. Pelo Brasil inteiro dentro de Minas Gerais. E a senhora, qual  a
sua graa?
          - Maria Eudxia - e ela sorriu, encantada com a educao do vagabundo.
          - Muito prazer, senhora dona Maria Eudxia. Quem tem corao aberto, de
Deus est sempre perto.
          - Bonito, isso que voc falou.
          - Obrigado. Eu sei falar uma poro de coisas assim.
          Viramundo acabou de comer o empado, limpou a boca com as costas da
mo, lavou o prato na pia da cozinha e depois pediu licena para se retirar.
          - Onde  que voc mora? - perguntou dona Maria Eudxia.
          - Ainda no fixei paradeiro.
          - Gostei de voc - disse a boa senhora, olhando-o com a doura de seus
doces de manga. - Eu sou assim, sabe? De certas pessoas gosto  primeira vista.
Quantos anos voc tem? Parece to menino...
          - Eu tinha vinte, mas isso j faz muitos.anos.
          - Voc no tem pai nem me?
          - Eu tinha, mas tambm faz muitos anos.
          - Quer ficar morando aqui? Tem um quartinho ali nos fundos...
          - Muito obrigado, senhora dona, mas no momento estou desprevenido, de
modo que no posso assumir essa despesa.



22
  Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a
oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros ttulos procure por http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros. Ser um prazer
receb-lo em nosso grupo.
        - No precisa pagar nada no.  de graa. Voc paga me ajudando nos
doces: apanhando manga e vendendo os potes. Moro aqui sozinha com a S Rita
cozinheira, mas essa negra  imprestvel que s vendo.
        Eu no estaria transcrevendo na ntegra o dilogo entre Viramundo e essa
senhora, se no fosse pela esperana de surpreender nele alguma eventual
referncia que ela acaso fizesse  nossa relao de parentesco - pois se trata nada
menos que de minha tia - dando-me, assim, oportunidade de mencionar meu pai e
meu av. Como nada falou ela (embora lhe deva informaes valiosas sobre a
passagem de Viramundo pela cidade), falo eu:
        Meu av Nicolau, italiano de nascena, era dono do Salo Recreio, um bar
com pitoresco caramancho na antiga rua 1  de Maro, local tambm conhecido
como praa do Ginsio, com uma tabuleta  entrada em que, para no vender fiado,
ele se valia da clebre advertncia de Dante:
        Lasciate ogni speranza voi ch'entrate.
        Importava barris de Chianti da Itlia e foi o introdutor do sorvete em Minas
Geris, no ano de 1892, para o que fazia vir do Rio, pela Estrada de Ferro
Leopoldina, blocos de gelo encaixotados e protegidos por serragem (a metade se
derretia pelo caminho). E meu pai, seu Domingos, (antes de casar-se com a suave
dona Odette), inspirado mais pelo vinho que pelo sorvete, juntou-se a um
farmacutico de nome Joo Teixeira e abriu uma fbrica de Soda e de gua de
Selters - precursora, portanto, da alka-seltzer. Dos dois feitos muito me orgulho.
Perdo, leitores.
        Dito o que, informo que Viramundo passou a morar no quartinho dos fundos
da casa de tia Maria Eudxia (posso, daqui por diante, cham-la assim), a apanhar
manga no pomar e a vender na rua os potes de doce que ela fazia, deliciosos, por
sinal. Havia na cidade um vendedor de cocada tido por Chico Doce, muito estimado
de todos e a quem Viramundo logo se afeioou. Como o grande mentecapto, Chico
Doce no era l de beber nem fumar, e sendo religioso, rezava em voz alta o dia
inteiro, repassando as contas do rosrio no bolso, enquanto Viramundo declamava,
tambm em voz alta, os versos do poeta que ali viveu e morreu:
        - Hoje  amargo tudo quanto eu gosto:
        A bno matutina que recebo...
        Os que viam a dupla pela rua com seus doces, um rezando, outro
declamando poesia, achavam graa, apontando:
        -   L vo os dois doces...
        Um dia o Doce de Manga disse para o Doce de Coco:
        - Se algum dia o Prazer vier buscar-me
        Dize a esse monstro que eu fugi de casa!
        - Voc vai embora?
        - Vou. Estou me despedindo.
        - Para onde?
        - Para onde fores, pai, para onde fores
        Irei tambm, trilhando as mesmas ruas...
        No mesmo dia prestou conta a tia Maria Eudxia dos doces que vendera,
no quis receber um tosto. E despediu-se dela, comovido:
        - A minha sombra h de ficar aqui.
        Ela tambm perguntou para onde ele ia, e ele respondeu simplesmente, em
prosa mesmo:
        - Vou cumprir o meu destino.
        E depois de dizer adeus ao poeta em seu tmulo, como era de hbito (um
jazigo humilde e rstico onde se lia "Augusto dos Anjos - poeta paraibano"),
desapareceu sem deixar vestgios.


        DIZEM que, a partir da, foi visto certa ocasio em Cataguases, mas temo
que o estivessem confundindo com o romancista Rosrio Fusco, a quem de uma
feita cheguei a procurar para colher informaes. Ele me respondeu rindo:
        - Conheci Viramundo muito bem, mas no te conto nada, pois minha grande
aspirao  um dia escrever sobre ele.
        A ser verdade, infortunadamente o romancista morreu sem realizar o seu
intento, que acabei assumindo. Outro ilustre filho de Cataguases, o Csar, de
prenome Viterbino, intrpido historiador que foi parar nos pagos do Sul, me
assegurou com firmeza:
        - Era o Fusco mesmo. Nunca existiu viramundo maior do que ele.
        Ao que o contista Chico Incio acrescenta:
        - Viramundo e Fusco eram dois num s.
        H tambm em Minas quem chegue a afirmar que Viramundo era irmo
mais moo de Diadorim, mira e veja! Nonada. Alan Prateado, outro celebrado
romancista das Alterosas, afirma com segurana:
            - Sei que existiu, porque l em Patos de Minas, quando eu era menino, at
se cantava uma musiquinha dedicada a ele, assim: Oi, cad Viramundo, pemba...
            - No  pomba no? - pergunto, tomando nota.
            - No.  pemba mesmo - assegura o romancista, que sabe o risco do
bordado.
            Em Curvelo, encontro traos substanciais da presena do grande
mentecapto. Dizem eles de uma noite passada por Viramundo na prpria casa
assassinada por Lcia Cardoso em sua famosa crnica - noite esta que, depois de
haver eu mencionado tantas sumidades no campo das letras, atira-me aos ombros
grande responsabilidade ao tentar descrev-la.
            Constava que a tal casa de Curvelo, na realidade uma chcara, era mal-
assombrada. Viramundo, na noite que ali pernoitou, teve oportunidade de verificar
que realmente assim era. No foi como o fantasma do casaro do Matola em So
Joo del Rei, onde ensaiava a Euterpe Lira de Ouro, que no passava de um
simples gamb.
            Num botequim da cidade, onde, como de costume, Viramundo entrara para
pedir um copo d'gua, um bbado falava no fantasma que vivia naquela chcara. O
grande mentecapto se interessou, e ficou sabendo que se tratava do espectro de
uma mulher, estrangulada pelo marido no princpio do sculo. Ele fugira em seguida
e o corpo dela ficou dias e dias abandonado no casaro vazio at ser encontrado
pela polcia. A alma penada jamais repousaria enquanto no surgisse algum que
passasse a noite com ela. Todas as noites ia postar-se na varanda, numa longa
camisola branca, cabelos soltos ao vento, as rbitas vazias voltadas para a curva da
estrada, aguardando eternamente. Assim rezava a crnica fantasmagrica de
Curvelo.
            Viramundo resolveu verificar o fenmeno com seus prprios olhos - fosse
como tosse, a chcara, pelo que diziam, lhe parecia um lugar to bom como outro
qualquer onde se abrigar. E naquela mesma tarde se dirigiu para l.
            A casa parecia suspensa na luz trmula, e tudo afastava de si, em esquisito
encantamento...
            ...No se distinguia sequer um suspiro e a morte parecia realmente
percorrer com lentido aqueles grandes espaos...
            ...As almas tinham fugido, espantadas pela luta violenta e irreal do negro e
da luz...
          ...Mas, havia entre todos um quarto fechado, guardando ciosamente dentro
de si um bloco de penumbra, onde em tranqila reserva se escondia o segredo da
vida...
          As frases transcritas acima so da primeira pgina de um dos dois
romances de Nico Horta, em que o consagrado escritor mineiro descreve casa
semelhante  que Viramundo encontrou. Tomei-as de emprstimo porque me
falecem recursos para faz-lo com tanta arte.
          Viramundo vasculhou o primeiro andar da casa, e nada viu que pudesse
denunciar a presena da tal mulher assassinada. No havia mvel algum, e o tempo
deixara as suas marcas por toda parte: grandes manchas de umidade nas paredes e
no teto, cujos caibros j se despregavam, vidros partidos nas janelas, teias de
aranha no ngulo das portas, soalho de tbuas apodrecidas, rinchando sob os ps.
O grande mentecapto, como sempre, escolheu um canto pequenino onde se abrigar,
desta vez um vo da escada que levava ao segundo andar, e que no chegou a
subir, menos por qualquer espcie de temor que por achar to precrios os degraus
carcomidos e o corrimo despregado, que poderiam mesmo ruir sob seu peso.
Munido de um toco de vela e de uma caixa de fsforos que agora se acrescentavam
a seus pertences, ao cair da noite ajeitou-se para dormir, cansado que estava de
tanto que caminhara naquele dia - sendo certo que no consegui apurar de quo
longe viera ao ali chegar.
          Dormiu um sono perturbado, cheio de pressgios e vises. Sonhou com a
casa de sua infncia em Rio Acima, o Armazm Boaventura - Secos e Molhados.
Seu irmo Breno j  frente do negcio, quando deixara a cidade. E o pai, os
bigodes lusitanos retorcidos, a olh-lo com uma ponta de ternura, dona Nina
acolhendo-o nos peitos fartos com carinho. De sbito uma tempestade furiosa
fustigava de vento e de chuva o seu sonho, arrastando tudo de roldo por uma
correnteza que o levava, e a gua o envolvia de todos os lados, ele se sentia
afogar... Acordou sobressaltado ao claro de um raio e viu que l fora realmente
chovia e o vento chicoteava a copa das rvores, silvando doidamente, enquanto
uma veneziana, j meio aos pedaos, era sacudida com violncia de um lado para
outro. Ficou de p, apoiando-se  parede, e ouviu um tatalar de asas no escuro, algo
frio e viscoso roou seu rosto e o morcego se foi s tontas pela janela. Ao erguer os
olhos, viu num relance,  luz de outro raio, no alto da escada, junto ao primeiro
degrau, o vulto branco de uma mulher a olh-lo.
        Teria sido iluso? Esfregou os olhos, tomou a olhar: no viu mais nada. E
nem podia ver, na escurido em que se achava mergulhado. Procurou nos bolsos o
toco de vela e os fsforos, custou a conseguir que um se acendesse, midos que se
achavam. Em seguida,  luz vacilante da vela, ele, a quem Deus poupara o
sentimento do medo, comeou a subir os degraus carunchados, cuidadosamente,
experimentando com o p a resistncia de cada um antes de galg-lo. Ao chegar ao
topo da escada, justo no lugar em que julgara ter visto a apario, ouviu de sbito
uma estridente e sinistra gargalhada de mulher, to bestial e horripilante, que se ele
no chegou a se abalar, eu prprio mal ouso continuar o meu relato. Sinto meus
cabelos se arrepiarem ao ver Viramundo, absolutamente imperturbvel, em vez de
despencar escada abaixo como eu na certa faria, avanar destemidamente por um
corredor de onde lhe parecera ter vindo a medonha gargalhada, guiado apenas pela
precria luzinha de seu toco de vela. Ao chegar diante do tal quarto fechado, a que
se refere uma das frases por mim transcritas, torceu a aldraba enferrujada e
empurrou a pesada porta, que se abriu lentamente, rangendo nos gonzos. No
mesmo instante uma lufada de vento apagou a chama da vela. Viramundo ficou
parado  entrada, irresoluto, devolvido  escurido, quando uma voz quase
inaudvel, sussurrada do fundo do tempo, chamou l do quarto:
        - Entre, meu filho.


        INTERROMPI o meu relato em obedincia a uma das regras fundamentais
do gnero gtico, segundo a qual devemos mudar de assunto abruptamente no
ponto crucial da narrativa, a fim de tirar o mximo de efeito do suspense, e mais
tarde retomar a ela por um outro ngulo. O outro ngulo, no caso, s pode ser o do
fantasma.
        Assim que a mulher assassinada pelo marido no princpio do sculo viu
entrar nos seus domnios a figura tambm meio fantasmagrica daquele vagabundo,
ficou muito apreensiva. Como ousas? - pensou consigo, antes de volatilizar-se para
ver de perto de quem se tratava. Vestiu seu camisolo branco para espantar este
ltimo intruso, como j nem precisava mais fazer para outros raros que apareciam,
pois estes davam uma olhada rpida de turista e saam vendo fantasmas.
        Foi at o alto da escada, abriu os braos e assim mesmo no escuro
mostrou-se em toda a sua espectral horripilncia. Pois o estranho indivduo, em vez
de fugir devidamente horripilado, como era de se esperar, no  que acende um
toquinho de vela e vem subindo a escada? Teve medo, ela sim, teve medo de no
mnimo ser de novo assassinada. Quem seria aquela sinistra apario que no tinha
medo de fantasmas, nem se impressionara com a lenda de sangue que era o pavor
dos forasteiros? Deu meia-volta e fugiu para o corredor, onde ficou encolhida num
canto, tremendo de medo. Quando viu que ele vinha mesmo, desistiu de apelar para
rudos de correntes ou de passos, gemidos e sussurros, ou quaisquer outros
procedimentos fantasmagricos, partindo logo para o recurso mais eficaz, que era a
gargalhada infernal. Nem assim aquele louco desistiu. Chegou a pensar se no se
trataria de um fantasma. Ento correu para o quarto, no qual no podia se trancar,
porque a aldraba, que era um tributo aos romancistas capazes de se lembrar de
semelhante palavra, s se abria pelo lado de fora, o que vinha a ser um contra-
senso, pois trancando-se l dentro, qualquer um podia entrar e ela no podia sair - a
no ser que passasse atravs das paredes, nmero que no fazia parte do seu
repertrio. E j que ele abria a porta, no lhe restava seno mudar de tcnica e
procurar atra-lo, o que imediatamente fez, devolvendo-nos ao captulo anterior, pois
o chamou em voz sussurrada:
        - Entre, meu filho.
        A escurido era tanta, que na hora Viramundo se lembrou da ltima
pergunta do professor Praxedes no debate em praa pblica, j fazia tanto tempo:
eu sou teu filho mas tu no s meu pai. Quem era ento?
        - Quem  a senhora? - perguntou ele.
        Voc o que ? - perguntava o Dr. Pantaleo, diretor do hospcio de
Barbacena. Adamastor responderia: sou aquele oculto e grande cabo, a quem
chamais vs outros Tormentrio. A voz - porque at aquele instante Viramundo no
tinha como testemunha da presena de algum naquele quarto seno a voz  no -
respondeu nada. Ento ele riscou calmamente um fsforo e tomou a acender o seu
toco de vela. A princpio no viu seno sombras vagas que danavam como
duendes nas paredes do quarto, enquanto ele avanava, protegendo a chama com a
mo. Mas em pouco pde distinguir um catre onde, metida num enorme e encardido
camisolo branco, uma velha, estendida lascivamente como uma messalina, sorria
para ele um sorriso desdentado:
          - Eu sou a moa assassinada - grasnou ela, e acenou para ele, fazendo
trejeitos sensuais: - Vem c, vem... 23
          Viramundo pensou rapidamente que se ela fora assassinada no comeo do
sculo, como dizia o cachaa naquele botequim, ento devia ser mesmo muito
velha.
          - No diga bobagem - reagiu ele. - Se a senhora foi assassinada no estaria
viva, isto  uma incongruncia.
          - Eu morri - protestou a velha bruaca. - Sou o fantasma da moa. E aquele
que dormir comigo...
          - Tem cabimento, vov, na sua idade? Que  que a senhora est fazendo
nesta casa?
          A velha entregou os pontos com um muxoxo:
          - Eu vivo aqui.
          - Se vive  porque no morreu, est vendo? H quanto tempo?
          - Desde que a moa foi assassinada.
          E a velha soltou um risinho:
          - Ele matou a mulher por minha causa...
          Sem se abalar, Viramundo sentou-se no cho sobre as pernas cruzadas,
botou a vela entre os dois e pediu:
          - Me conte essa histria, vov.
          A velha bruxa, numa vozinha de nhenhenhm, comeou a desfiar a sua
histria, longa demais para que eu a reproduza aqui. Disse, em resumo, que era
criada da sinh-moa j l se iam tantos anos que at perdera a conta, e sendo
ambas jovens, formosas e lous, logo o dono da casa comeou a dividir com ela os
carinhos que dispensava  esposa. Aos poucos essa diviso foi deixando de ser
equilibrada e imparcial, merecendo ela muito mais do que a patroa. Esta desconfiou
e    resolveu    mand-la       embora.      Profundamente         apaixonado,       ele   protestou,
confirmando as suspeitas da mulher. Discutiram, brigaram, ela o ofendeu, ele perdeu
a cabea e esganou-a. Depois fugiu para sempre.
          - E eu fiquei aqui esperando que ele um dia voltasse. Para que no me
descobrissem, acabei me transformando em assombrao.
23
  Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a
oportunidade de conhecerem novas obras.
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        QUANDO o abantesma encerrou a sua histria que, como disse, era longa,
cheia de passagens arrepiantes e digresses romnticas que eu no saberia
reproduzir, Viramundo deixou o casaro. Soube que saiu de Curvelo ao amanhecer -
algum o viu caminhando pela estrada que leva a Santana do Rio Verde. Mas antes
que eu descobrisse onde diabo ficava essa cidade mineira, tive ocasio de detectar
sua passagem por outras, a saber:
        Em Itana privou das relaes dos dois irmos gmeos (embora usassem
sobrenomes diversos) ali nascidos, verdadeiro patrimnio cultural da cidade, tal o
fantstico conhecimento enciclopdico de ambos, que juntos se completavam, indo
o primeiro, Marco Moura, da letra A  letra L, e o segundo, Aurlio Matos, da letra M
 letra Z. Com eles Viramundo hauriu profundos ensinamentos humansticos, que
muito contriburam para a sua sabedoria a partir de ento.
        Em Itajub via sempre um velho de cabea branca e jeito austero
pachorrentamente sentado na varanda.
        Um dia lhe disse da rua:
        - Eu j vi uma nota de dinheiro com um retrato de Vossa Excelncia.
        Em Ponte Nova conheceu e ficou amigo do homem que mais gostaria de ter
sido. E nessa poca Milton Campos ainda no era o que chegou a ser.
        Em Brejo das Almas encontrou pela primeira vez o poeta maior e em ltabira
prestou-lhe homenagem, de joelhos diante do sino da igreja que o batizou, rendendo
graas  poesia e ao sentimento do mundo que ela lhe deu.
        Em Sabar no chegou a morar na clebre penso das trs gordas. As
gordas tinham morrido de enfiada e a casa fora parcialmente demolida a machado
pelo ltimo hspede, um tal chamado Joo Ternura, e sua irm Lcia, obra
consumada mais tarde por um fidalgo de nome Rodrigo, que acabou de tomb-la.
        Em So Loureno bebeu gua mineral num copinho onde estava escrito
"Lembrana de Caxambu", pensando estar em Cambuquira bebendo gua de
Lambari.
        Em Januria bebeu um copo de cachaa que lhe deram como se fosse
gua e depois pulou no So Francisco e nadou at Carinhanha, na fronteira da
Bahia. Por causa desta faanha, a referida cachaa ganhou o seu nome.
        Em Monte Santo conheceu um tal de Castejo que era preto e ficou branco.
        Em Trs Coraes, vale seis! aprendeu a jogar truco.
        Em Arax se purificou tomando banho de lama.
        Em Vila do Prncipe tomou uma carona no caminho de Jorge Frana
Jnior, um brasileiro.
        Em Caratinga conheceu o filho do pai do Etienne.
        Em Carmo de Minas, Rubio, o filho da me do Murilo.
        Em Ub, o Aryba Roso.
        Em Nova Lima chupou lima com Eli Lima.
        Em Passa Quatro passou em brancas nuvens.
        Em Mar de Espanha aprendeu a navegar.
        Em Pedro Leopoldo pintou e bordou.
        Em Passos fez isso e aquilo.
        Em Pirapora fez assim e assado.
        Em Poos de Caldas fez e aconteceu.
        Em Par de Minas.
        Em Paracatu.
        Em Formiga.
        Em Sete Lagoas.
        Em Araguari, Uberlndia, Varginha, Muzambinho, Carangola, Abaet,
Alfenas, Baependi, Baro de Cocais, Caet, Belo Vale, Boa Esperana, Morada
Nova, Chapu d'Uvas, Divinpolis, Pitangui, Gro-Mogol, Ituiutaba, Bom Despacho,
Lavras, Ouro Fino, Viosa... Chega! Em toda parte. Ai, Viramundo de minha vida,
que vira Minas pelo avesso sem revelar aos meus olhos o seu mais impenetrvel
mistrio. Ai, Minas de minha alma, alma de meu orgulho, orgulho de minha loucura,
acendei uma luz no meu esprito, iluminai os desvos do meu entendimento e
mostrai-me onde se esconde esse vagabundo maravilhoso, esse meu irmo
desvairado que no fundo vem a ser o melhor da minha razo de existir. Foi ele, esse
iluminado de olhos cintilantes e cabelos desgrenhados que um dia saltou dentro de
mim e gritou basta! num momento em que meu ser civilizado, bem penteado, bem
vestido e ponderado dizia sim a uma injustia. Foi ele quem amou a mulher e a
colocou num pedestal e lhe ofertou uma flor. Foi ele quem sofreu quando jovem a
emoo de um desencanto, e chorou quando menino a perda de um brinquedo,
debatendo-se na camisa-de-fora com que tolhiam o seu protesto. Este ser
engasgado, contido, subjugado pela ordem inqua dos racionais  o verdadeiro fulcro
da minha verdadeira natureza, o cerne da minha condio de homem, heri e pobre-
diabo, pria, negro, judeu, ndio, cigano, santo, poeta, mendigo e dbil mental,
Viramundo! que um dia h de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na
sua fragilidade, terrvel na pureza da sua loucura.
         At que descobri onde ficava Santana do Rio Verde.


        QUE NO passava de um mero distrito de Montes Claros. Isso de Santana
do Rio Verde era arte e manha de um cujo de nome dos Arcanjos, dito Belmyro, que
nasceu l e depois de se apaixonar pela menina do sobrado (o nico existente ento
no lugar), mudou-se para a capital onde, de amanuense, passou a escriba maior da
montanha, laureado e aclamado. Esse cujo, que andava por l na poca,
involuntariamente lanou Viramundo no caminho de uma aventura em Montes
Claros que por pouco no deu com ele morto e enterrado no cemitrio local - pois foi
quem o apresentou  donzela Marialva:
        - Quero que voc conhea essa deidade.
        Marialva, que de donzela (pelo menos na acepo mineira da palavra) tinha
apenas os seus 18 anos, estava parada  porta da penso onde residia e atuava,
quando os dois iam passando e se detiveram. Viramundo havia abordado o
beletrista Belmyro, pedindo uma informao. Ficaram de conversa, e vieram
discreteando do Largo de Cima ao Largo de Baixo. Depois de apresentar-lhe a
deidade, Belmyro se foi, muito de indstria, deixando os dois a ss: achara que o ar
famlico de Viramundo denotava fome tanto de comida como de amor e, tendo
simpatizado com ele, depois de dar-lhe uns cobres de mo beijada, achou que ele
podia despend-los com a Marialva, que bem os merecia.
        A moa, que tambm achara graa em Viramundo, convidou-o a entrar para
conversarem na sala, pois a dona da penso no gostava que as suas inquilinas
cassem no porto.
        - Muito obrigado, senhorita - escusou-se ele, com uma delicada mesura -
mas estou propenso no momento a fazer uma ligeira refeio, pois no tenho tido
oportunidade de comer ultimamente. Para isso disponho de uns dinheiros que o
senhor dos Arcanjos me propiciou. Alis, agradeceria se a senhorita me indicasse
um local onde possa faz-lo, pois ainda no conheo bem a cidade.
        Marialva, divertida com aquela maneira complicada de falar, se disps a
acompanh-lo. Como Viramundo acedesse, deu-lhe o brao e o conduziu a um lugar
das proximidades, onde, entre outras coisas, serviam refeies ligeiras, como ele
desejava.
           E assim, de braos dados, empertigado ele, sorridente ela, como um casal
de noivos, o grande mentecapto e a jovem meretriz deram entrada no Taco de Ouro,
animado botequim onde se comia, bebia e jogava sinuca nas mesas ao fundo,
reduto da mais fina flor da malandragem naquela zona. Foram aclamados com uma
salva de palmas que a Viramundo no causou a menor espcie, mas que a Marialva
deixou ligeiramente perturbada, sem que soubesse a razo, acostumada que estava
a semelhantes patuscadas.
           Sentaram-se a uma mesa e estavam saboreando um sanduche de
mortadela, quando algum se debruou sobre o ombro dela, e disse, em tom de
advertncia:
           - Montalvo esteve aqui procurando voc
           - Quem procura acha - tornou ela, com um gesto de menosprezo.
           Em pouco era o prprio garom que vinha dizer:
           - Se eu fosse voc sumia daqui, que o Montalvo ficou de voltar.
           Marialva tomou a dar de ombros. Cinco minutos no eram passados e uma
mulher loura que acabara de chegar ao botequim veio avisar, sem que ela tampouco
se incomodasse:
           - Encontrei o Montalvo e ele mandou dizer que voc no perde por
esperar.
           Quando acabaram de comer, Viramundo, alheio a tudo, chamou o garom
para pagar a conta com o que lhe havia dado o generoso Belmyro, certamente
insuficiente mesmo para refeio to ligeira como aquela - pormenor do qual ele
nem teve tempo de tomar conhecimento. No momento exato em que Marialva levava
o copo aos lbios, uma poderosa manopla a segurou pelo pulso e torceu-o, fazendo
cair na toalha um resto de cerveja preta:
           - Voc vem comigo - ordenou uma voz autoritria por cima do seu ombro.
           Era o Montalvo.
           Quando Marialva foi forada por ele a se erguer, algum junto ao balco
dizendo "eu bem que avisei" e comentrios cautelosos circulando em voz baixa
entre os fregueses, subitamente Viramundo se ergueu tambm, de maneira to
brusca que a cadeira tombou para trs:
           - O senhor faa o favor de larg-la - falou em voz alta.
          O silncio que se fez no botequim foi to repentino como o que baixava no
salo quando Tom Mix empurrava a porta de vaivm nas fitas de cinema em Rio
Acima. Montalvo, um homem troncudo e de maus bofes, de botas, casaco de
couro, camisa xadrezinho, chapu de vaqueiro e leno no pescoo grosso, a cara
furada de bexigas e pequeninos olhos maus, limitou-se a olhar Viramundo com
curiosidade e surpresa, perguntando a Marialva, a apont-lo:
          - Quem  esse z molambo?
          -  um amigo meu - desafiou ela, erguendo a cabea.
          Montalvo largou-a, pondo as mos na cintura:
          - Um amigo seu? Uai, voc agora deu pra recolher mendigo em porta de
igreja?
          E como ele desferisse uma gargalhada, sendo desses que soltam o foguete
e apanham a vareta, ao redor os outros o secundaram, rindo tambm, e aliviando
um pouco a tenso ambiente. Montalvo tornou a agarr-la pelo brao e puxou-a:
          - Vamos embora.
          - Largue a moa - ordenou Viramundo novamente, postando-se diante dele.
          Montalvo se limitou a espalmar a mo no peito do mentecapto, com ar
aborrecido:
          - Ora, v ver se eu estou ali na esquina - e empurrou-o com violncia.
          Viramundo atravessou de costas todo o botequim, arrastando na sua queda
vrias cadeiras e respectivos fregueses, e foi cair estendido em cima de uma das
mesas de sinuca ao fundo, interrompendo animada partida, que j estava pela bola
sete. Logo verificou que Montalvo no estava ali na esquina. Recuperando-se, saiu
em desabalada carreira quando o outro j arrastava Marialva consigo, para deixar o
botequim, e se atirou sobre ele, cavalgando-o com destreza.
          O brutamontes no contava com essa, nem sabia que o grande mentecapto
fora da cavalaria: por pouco no vai ao cho com aquela inesperada carga no
lombo. Em vo rodopiava, corcoveava, escoiceava e relinchava: o cavaleiro,
juntando firmemente as pernas em suas ilhargas e agarrado ao leno no pescoo
como num brido, estava cada vez mais seguro. Agora todos no botequim riam s
gargalhadas do sucesso de Viramundo e gritavam upa! upa! num ambiente de
grande excitao ante aquele inesperado espetculo de rodeio. Erguendo as patas
dianteiras como uma montaria prestes a bolear, Montalvo recuou, at que
Viramundo batesse violentamente com as costas contra a parede, e s assim logrou
desmont-lo. Caiu sobre ele de pancadas e pontaps:
         - Agora eu te ensino a montar na puta que te pariu.
         Quando finalmente o destacamento policial da zona irrompeu no Taco de
Ouro quase toda destrudo, Viramundo estava estendido no cho do botequim em
lastimvel estado, e o adversrio montado sobre ele, ainda a castig-lo. Marialva
chegou a quebrar uma garrafa de cerveja em sua cabea, sem que ele se abalasse.
Foi preciso o concurso de quatro policiais para imobilizar o feroz Montalvo e lev-lo
preso.
         Marialva conduziu o grande mentecapto at seu quarto e cuidou dele com
um desvelo de esposa: deitou-o em sua cama, ps-lhe compressas de gua com sal
no rosto, deu-lhe malvona a bochechar, passou-lhe leos e ungentos pelo corpo
dolorido.
         - Daqui a pouco voc vai estar melhor - dizia ela. - Ainda foi de muita sorte
que ele no tivesse te matado. Nunca vi ningum valente como voc!
         E passava-lhe carinhosamente a mo pelos cabelos.
         Aturdido, Geraldo Viramundo recebia aquele carinho sem entender o
sentimento poderoso que se desencadeava em seu ser, transbordando do corao
em grandes ondas, inundando-lhe todo o corpo com uma indefinvel antecipao de
felicidade e de prazer.
         - Por que voc est fazendo tudo isso por mim? - perguntou, na singeleza
de sua escassa compreenso.
         - Porque eu gosto de voc - respondeu ela simplesmente.
         - De mim, que no sou digno nem de desatar a correia de seus sapatos?
         A moa ria, olhando-o sem entender, como de resto no entendia outras
coisas engraadas que ele falava.
         Sentindo-se melhor, e como se fizesse tarde, ele quis erguer-se da cama
para partir. Tranqilizada porque o rufio que a explorava certamente no sairia da
priso to cedo, dadas outras contas que teria de prestar  justia, Marialva resolveu
suspender seu expediente daquela noite e insistiu para que Viramundo ficasse, Pelo
menos no partisse assim to tarde, esperasse pela manh seguinte. Viramundo
concordou.
         Ela deitou-se na cama a seu lado:
         - Posso apagar a luz?
        Abraou-o no escuro, e ele acolheu-a em seus braos.


        CAPTULO VIII


        Viramundo, em Belo Horizonte, entre retirantes, mulheres, doidos e
mendigos, cumpre o seu destino.


        - VOU partir - disse ele.
        - Fica - pediu ela, espreguiando-se na cama.
        - No posso. Eu tenho de ir.
        - Por que voc tem de ir?
        - Porque est chegando a minha hora.
        - Para onde voc vai?
        - Para onde me levarem os meus passos.
        Este dilogo deveria constar do fim do captulo anterior, quando Viramundo
partiu ao clarear o dia, como costumava fazer. Razes de ordem tcnica me levaram
a transferi-lo para c. Achei que a conversa, pelo seu laconismo, no se coadunava
com a intensidade da cena que a antecedeu,  qual, por uma questo de discrio e
delicadeza, julguei de bom alvitre no aduzir mais nada. Mesmo porque, mais nada
eu poderia ver, depois que apagaram a luz.
        Por outro lado, no tenho como deixar o nosso heri na cama de Marialva
para sempre. Ele deve cumprir o seu destino, como bem o disse. E eu o meu,
acrescento. Quanto mais no seja, haveria uma razo que ele, na sua desrazo,
podia ignorar mas eu no posso: o perigo de Montalvo ser solto de uma hora para
outra e simplesmente acabar com o meu relato.
        Os leitores devem ter notado, e eu j disse alhures, que Viramundo no 
mais o mesmo homem. No que a luz do bom senso tenha enfim prevalecido sobre
os impulsos obscuros da sua demncia. Ao contrrio, de algum tempo a esta parte,
principalmente depois da morte do cego Elias, qualquer coisa se apagou no seu
esprito. O raio que coriscou na sua cabea naquele instante, dando-lhe uma
fulminante conscincia da iniqidade que prevalece neste mundo, foi demais para a
sua inocncia, matou o menino que ele trazia dentro de si. Matou o menino.
        Ele hoje  um homem. Quem o visse naquele trem sacolejante, vindo do
serto de Montes Claros a caminho de Belo Horizonte, em meio ao amontoado de
retirantes no vago malcheiroso da segunda classe, no o distinguiria dos demais
infelizes que o cercavam: rostos macilentos, corpos mirrados e sujos, crianas de
nariz escorrendo e olhos remelentos, tudo sob aquela cor indefinvel e encardida da
misria, olhares apticos e o pattico silncio dos que j se acostumaram com o
sofrimento. Viramundo  apenas mais um entre eles. J no tem a barba rala e
escassa dos vinte anos: com o tempo ela se tornou cerrada, endurecendo-lhe as
feies. Em seu olhar brilha apenas aquela luz mortia dos que nada esperam e no
tm mais para onde ir.
        No mesmo trem seguiam tambm algumas mulheres que Montes Claros
demitira de seus quadros sociais. Isolavam-se como podiam dos retirantes e eram
alegres, cantavam e se distraam pelo caminho, contrastando com a tristeza que
envolvia seus miserveis companheiros de viagem. Algumas delas reconheceram
Viramundo, pois tinham assistido com entusiasmo  sua prova de valentia no
botequim em defesa da Marialva, a quem conheciam e estimavam. Ento o
chamaram para o seu seio (no sentido figurado), deram-lhe um pedao de frango
com farofa. Dali por diante, a viagem lhe proporcionou entre elas alguns momentos
de distrao.
        Ao chegar, os retirantes escorreram pela rua como uma corrente de detritos
e foram para debaixo do Viaduto, engrossar o rio da misria de Belo Horizonte,
enquanto as mulheres iam suprir o mercado da zona bomia, levando Viramundo
com elas. No ficaram todas num s lugar: espalharam-se pelas numerosas
penses e puteiros existentes por ali mesmo, a partir da praa da estao, segundo
indicaes e referncias de amigas em Montes Claros. E foi naquele mesmo dia que
Viramundo teve a primeira das trs surpresas que a capital lhe reservava.
        Por mero acaso se deixou ficar com as ltimas companheiras de viagem a
se albergarem. Uma, Marieta de batismo, passaria a se chamar Marion; outra, Maria
das Dores, se chamaria Liliane; a terceira, Cleonice, j se chamava Brigite. Esta
Brigite fora a que o convocara no trem e o pusera  vontade entre as outras. Era
uma louraa decidida e despachada, ancas largas e peitos bem nutridos, cujos
encantos femininos residiam exatamente na sua boa disposio de esprito, sempre
alegre e bem-humorada, disposta a fazer e acontecer. Logo se afeioou a
Viramundo e a afeio foi mtua: o grande mentecapto sentiu que contaria com ela
em quaisquer circunstncias, o que pde comprovar mais cedo do que esperava.
          Quando Viramundo se viu  frente da dona da penso em que as trs
ficariam, no se deu a conhecer, e nem ficou sequer surpreendido, ao ver de quem
se tratava, embora os estragos que o tempo lhe trouxera: no era outra seno a
prpria viva Correia Lopes, de nome Petronilha24, em Mariana naquela poca
referida como Peidolina. Agora se dava a conhecer simplesmente como dona Lina,
nome que ser por mim perfilhado neste relato daqui em diante, por mais compatvel
com a gravidade dos acontecimentos que terei de narrar e nos quais ela ter a sua
parte.
          A pedido de Brigite, dona Lina admitiu que Viramundo ficasse morando no
barraco ao fundo do quintal, como zelador da limpeza e da boa reputao da casa,
sem trocadilho.
          - J me disseram que voc  valente e de confiana - arrematou a cafetina.


          POR essa ocasio, trs providncias administrativas foram sucessivamente
tomadas pelo governo, acarretando graves conseqncias para a ordem pblica da
capital, com repercusses na interior, at os extremos limites da Provncia de Minas
Gerais. A primeira delas se relacionava  deciso, tomada pelo prprio governador
Ladisbo, de extinguir os antros de meretrcio do centro da cidade, transferindo-os
para local em que o decoro pblico no fosse ameaado. A medida decorreu do
incidente em que se viu envolvida a prpria primeira dama, quando baixou das
alturas governamentais para, incgnita, fazer compras nos armarinhos dos turcos da
rua dos Caets, de sua predileo por serem mais barateiros, e foi confundida com a
dona de uma penso nas imediaes.
          A notcia correu a rua Guaicurus como um rastilho, despenhando-se pelas
transversais e adjacentes e botando em polvorosa toda a putaria mineira. Naquela
manh Viramundo tomava caf com bolinhos de feijo em companhia de dona Lina
e algumas de suas inquilinas, quando Brigite chegou com a novidade:
          - Vo mudar a zona de lugar. Vai ter de sair daqui.
          As outras logo se acercaram:
          - Vai pra onde?
          - Pra casa da me Joana - disse uma.
          Todas riram, menos Brigite, cujos olhos fuzilavam:

24
  Trata-se de evidente descuido do Autor. O nome da viva Correia Lopes em Mariana era originalmente
Pietrolina. (N. do Editor)
        - s vezes me d vontade de fazer um estrago louco.
        Marion, uma das que haviam chegado de Montes Claros com Viramundo,
soltou um suspiro de cansao:
        - Pra mim pode ir at pra puta que o pariu, eu pouco estou me
incomodando.
        E sem ligar para o falatrio animado das demais, comeou a se lastimar:
        - No h quem agente essa vida! L na minha terra era mais folgado. Aqui
a gente no pra! Pega daqui, pega de l, e toma na frente, e toma atrs, e toma por
cima, e toma por baixo, e cada troo de meter medo, isso l  vida de gente?
        A revolta geral, porm, era com relao  mudana da zona, ningum sabia
para onde, e as mulheres se entreolhavam, apreensivas.
        A partir daquele dia o ambiente mudou naquelas ruas. As autoridades
haviam comeado a fazer presso, para forar a mudana, impondo o cumprimento
de leis havia muito esquecidas, e os fregueses, temerosos de complicao com a
polcia, foram se tomando cada vez mais esquivos e raros.
        At o dia em que dona Lina chamou Viramundo e, pesarosa, pois com o
tempo passara a dedicar-lhe grande estima, informou que teria de mand-lo embora:
        - So ordens da polcia. No podemos ter mais nenhum homem dentro de
casa.
        Antes que ele partisse, ela o chamou para acertar as contas.
        - No quero nada, dona Lina. O que eu tenho me basta.
        A   cafetina   olhou-o   espantada,   pois   sabia   que   ele   no   possua
absolutamente nada de seu. Aos poucos os olhos dela foram se tornando antigos, e
eram os da viva Correia Lopes quando foi apedrejada em Mariana. Ela vacilava,
sem saber se perguntava ou no.
        Afinal tomou coragem:
        - Viramundo, um dia voc disse que foi do seminrio de Mariana. No meu
tempo havia l um moo, tambm seminarista, com um olhar puro como o seu, mas
no usava barba, era quase um menino, podia ter uns dezoito anos...
        - Sou eu mesmo, dona Lina - disse ele apenas.
        A antiga viva Correia Lopes ficou confusa - no fundo sempre soubera que
era ele, aquele jovem que a protegera contra a fria da multido. Abraou-o,
emocionada, respirando fundo para no chorar , pediu que ele ficasse:
        - Pensando bem, talvez a gente d um jeito...
        - De mulher  que no me vestirei - respondeu ele, srio.
         Ela chegou a rir, enxugando uma lgrima:
        - Ento conte comigo sempre. Naquilo que eu puder fazer por voc...
        Estas palavras de despedida tiveram mais importncia num futuro prximo
do que ambos estavam longe de poder imaginar.


        DEBAIXO do Viaduto, do lado que fica entre a rua da Bahia e o Parque
Municipal, havia um valhacouto de indigentes: eram cegos, coxos, lzaros, bbados,
vagabundos e todos mais que costumam ser englobados na categoria genrica de
mendigos. Pois ali, no desvo do Viaduto, eles se abrigavam, faziam suas
necessidades e dormiam, sendo tcito que a policia, nas rondas noturnas pela
cidade para recolher desocupados,  falta de melhor ocupao, fazia por ignorar
aquele antro, tantos eram os que ali seriam encontrados sem que se soubesse que
destino lhes dar. Durante algum tempo as autoridades estiveram propensas a atir-
los no Rio Arrudas com uma m ao pescoo, mas cedo renunciaram a esta soluo,
que seria ideal, no f'ora a circunstncia de aos poucos aquele rio ter ficado deveras
raso, no passando de dois palmos de gua ptrida, na qual os mendigos, em vez
de afogar-se, se ergueriam com pedra e tudo e voltariam para debaixo do Viaduto.
        Com o tempo, comearam tambm a buscar refgio sob o Viaduto as levas
de retirantes escaveirados e famintos que os trens despejavam diariamente na
estao ali perto, vindos das zonas mais pobres da Provncia de Minas Gerais, e
eram praticamente todas.
        Pois foi tambm no Viaduto que, numa noite de chuva, Geraldo Viramundo
acabou buscando abrigo.
        Desde que sara da penso de dona Lina, andara rolando como pau de
enchente pelas ruas da capital, surpreendido com a sua condio de grande cidade,
to diferente das que conhecera at ento, e maltratado pela brutalidade de sua vida
intensa e atormentada. A princpio buscou recantos mais tranqilos e aprazveis nos
arredores da cidade, onde no chegasse o bulcio do centro, como a Pampulha ou o
Acaba Mundo (que acabou mesmo, este ltimo, acrescentado  lista de alcunhas
que o acompanharam ao longo da vida). Logo descobriria que tais lugares eram na
realidade clubes de alta elegncia e recreatividade, campestres e buclicos, dos
quais se via logo escorraado como intruso. Buscou ento os lugares pblicos onde
pudesse passar despercebido, misturando-se a outros prias como ele, e foi debaixo
do Viaduto que se viu finalmente integrado  sua raa de gente. Chegara ao mais
baixo degrau na escala social, alm do qual s restavam os do vcio, da
delinqncia e do suicdio. E mergulhara numa negra fase de completa e absoluta
indiferena a tudo que o cercava.
         Por essa poca era desencadeada pelo governo a segunda providncia de
ordem administrativa entre as trs a que me referi. As autoridades, como j se viu,
no haviam encontrado no extermnio a soluo para o problema da mendicncia.
Ora, uma luminosa inspirao do Governador Ladisbo no momento em que tomava
banho fez com que Sua Excelncia saltasse da banheira como Arquimedes a gritar
Eureka! pelos corredores do Palcio. Convocou seus auxiliares e assim mesmo,
completamente nu, exps-lhes o seu plano, sem que ningum pusesse reparo na
nudez governamental, adeptos que eram todos do que preconizava a fbula do rei
nu. Consistia a idia do Governador em fazer construir um local fora da cidade
especialmente destinado aos mendigos, onde seriam concentrados e de onde no
pudessem sair. O perigo de que tal providncia acabasse esvaziando a cidade e
criando outra mais populosa, tal o nmero de mendigos, era um risco a enfrentar.
Da a idia de chamar o local a ser construdo de Cidade Livre dos Mendigos,
valendo a ambigidade da designao entre significar que os mendigos naquele
local eram livres, ou que a cidade ficaria livre deles.
         E assim se fez. E a partir de ento as batidas policiais pelas ruas se
intensificaram. Pde enfim a polcia planejar a grande operao de recolher os
abrigados sob o Viaduto, executada justamente na noite em que Viramundo ali foi
ter.
         Nem bem ele havia chegado, e se viu perdido no tumulto de mendigos e
retirantes, compelidos por guardas armados, aos empurres, a entrar nos grandes
tintureiros que cercavam o local por todos os lados. Alguns protestavam, outros
tentavam fugir e eram logo apanhados, as mulheres choravam, agarrando-se
desesperadas aos filhos, como se os protegessem contra os centuries de Herodes.
         Ao contrrio da maioria, o grande mentecapto se deixou levar sem
resistncia, como se tal procedimento fosse perfeitamente natural. Onde estava a
chama que ardia em seu peito, de destemido amor  liberdade, que antigamente o
levaria a morrer por ela? Eram cinzas - mas cinzas das quais em breve renasceria o
Fnix da sua indomvel rebeldia. Quando chegasse a sua hora.
        Em meio aos outros, transportados como bichos naqueles estranhos
veculos, foi levado at um descampado onde se erguiam compridos galpes de
madeira e zinco, cercados de arame farpado. Depois do desembarque, que se fez
tambm com alguns empurres, os guardas conduziram todos ao local de triagem,
um imenso ptio iluminado por poderosos holofotes, onde se viram separados em
grupos de homens, mulheres e crianas. Alguns que j ali se achavam tinham a
cabea raspada e vestiam todos uma espcie de macaco azul, o que os tornava
iguais uns aos outros como um rebanho de estranhos animais. Um entre eles lhe
fazia sinais ansiosos, e acabou se aproximando furtivamente:
        - No est me conhecendo, Viramundo?
        Viramundo o olhava, intrigado. De repente seus olhos se iluminaram: era o
Barbeca! Como poderia reconhec-lo se ele sempre fora barbado?
        - Agora s falta usar uma peruca - disse Viramundo abrindo-lhe os braos.
        - Depois, depois - sussurrou o antigo vendedor de esterco, se esquivando
ao abrao. - Cuidado, tem um guarda olhando. Aqui tudo  proibido.
        Envelhecera, ou j era velho antes, sob a barba, e no se percebia. Falava
depressa, olhando para os lados, num tom nervoso e assustadio, diferente do seu
de antigamente. Contou ao amigo que ali dentro raspavam a barba e o cabelo de
todo mundo, depois jogavam inseticida, depois queimavam a roupa:
        - Me pegaram no dia em que cheguei de Barbacena.
        - Mas que espcie de lugar  este? Uma priso?
        -  a Cidade dos Mendigos. Todo dia esto trazendo mais gente.
        Um guarda se acercou e mandou que ele se afastasse.
        - Estamos conversando - protestou Viramundo. - Ele  meu amigo.
        No que o guarda empurrou o Barbeca, ele interveio, empurrando por sua
vez o guarda:
        - No toque no meu amigo!
        Era a centelha que de sbito ameaava se acender. Surpreendido, o guarda
tentou segur-lo e levou logo um safano, vendo-se debaixo de uma saraivada de
socos. Houve ligeiro tumulto, mas ningum se mexeu, alm dos outros guardas que
acorreram em ajuda ao colega. Viramundo distribua a esmo socos, pontaps e at
mordidas, gritando sempre para os demais:
        - Reajam! No sejam covardes! Eles so poucos, ns somos legio!
          Ningum reagiu, a no ser o Barbeca, que foi logo dominado. Viramundo,
mesmo depois de contido pelos guardas, continuava a se debater furiosamente,
vociferando como um possesso. Acabaram por enfi-lo numa camisa-de-fora e o
enviaram dali mesmo para o manicmio.


          VERIFICO melancolicamente ser esta a segunda vez que, contra a minha
vontade (e a dele), o grande mentecapto vai parar num hospcio. No fosse ele
quem .
          Agora, porm, teve a sorte de ser confiado, logo que chegou, ao Dr. P.
Legrino, um mdico ainda jovem mas de grande tirocnio e competncia, versado
nos mais modernos e revolucionrios mtodos de tratamento, de Freud para cima e
de Jung para baixo. Segundo sua opinio, e estou com ele (vide bibliografia ao fim
deste trabalho) as fronteiras entre a razo e a loucura so muito mais flexveis que
as paredes de um manicmio. Mandou logo que libertassem Viramundo de sua
camisa-de-fora:
          - Aqui dentro todo mundo  livre.
          E cumprimentou efusivamente o mentecapto:
          - Como tem passado? Eu j ouvi falar muito em voc, Viramundo. Pode
contar-me entre os seus mais fiis admiradores.
          - Obrigado, doutor - respondeu ele, satisfeito, tomado de fulminante simpatia
por aquele homem. - E mais no digo, pois quem de si faz alarde, o cu sem tardana
lhe arde.
          - Mas quem manqueja de sua influncia, cedo tardar! - tornou o Dr. P.
Legrino, rindo.
          - Isto! Gostei, doutor! Se meu galo canta, o teu repinica!
          - S conta o que n'alma fica, que todo o resto  titica!
          Entusiasmados com este primeiro embate, ali mesmo os dois se
confraternizaram, tornando-se imediatamente amigos de infncia. De vez em
quando o Dr. Legrino mandava buscar o Viramundo l no seu pavilho e ficavam os
dois horas sem fim conversando sobre a poesia de Murilo Mendes.25


25
  Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a
oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros ttulos procure por http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros. Ser um prazer
receb-lo em nosso grupo.
         Os dias de Viramundo ali dentro transcorriam calmos e surpreendentemente
felizes, graas ao convvio de um ser humano to inteligente e sensvel s coisas do
esprito (Legrino era tambm poeta, e um dia lhe mostrou alguns de seus versos,
que lhe pareceram do mais transcendente valor literrio). Vivia num remanso de
calma que nunca tivera antes em sua vida - prenncio, talvez, da tempestade
prestes a eclodir.
         Antes, porm, mais uma surpresa estava reservada para o grande
mentecapto. At parecia que todo mundo tinha ido para a capital, uns para acabar
na priso, outros para acabar no hospcio. Foi o caso que se achava tambm
internado ali um oficial do Exrcito cuja distrao era pr os demais internos em
formao e ficar o dia inteiro comandando ordem-unida:
         - Esquerda volver! Ordinrios, marchem!
         Os outros, que no queriam meter-se em complicaes com o Exrcito, por
amor  ptria ou por ver naquilo um bom exerccio, obedeciam humildemente. A
direo do hospital no interferia, porque as manobras do oficial haviam trazido boa
ordem para os momentos de lazer dos internos, e eram todos. Quando o diretor
aparecia, o oficial berrava para a tropa:
         - Olharrrr  DIREITA!
         E o diretor, conformado, tinha de assistir ao desfile.
         Uma tarde, Viramundo ia passando pelo ptio a caminho do gabinete do
mdico seu amigo, e parou um pouco, ficou olhando as evolues dos internos. De
longe o oficial lhe gritou:
         - Voc a, entre na fila! Enquadre-se!
         Nem passou por sua cabea obedecer - embora aquilo lhe lembrasse os
seus tempos de Exrcito em Juiz de Fora. O oficial cresceu para ele. Quando se
aproximou, ambos se reconheceram imediatamente:
         - Capito Batatinhas! - exclamou Viramundo.
         - Coronel Viramundo! - exclamou o capito.
         E batendo continncia, quis passar-lhe o comando da tropa - j que o
grande mentecapto, por ele promovido a coronel, era agora seu superior hierrquico.
         Viramundo se recusou:
         - Terei outra misso a cumprir, capito.
         Suas palavras pareciam profticas, em face do que estava para acontecer.
Pouco depois um enfermeiro vinha busc-lo, a mando do mdico seu amigo:
        - Estou desolado - informou-lhe o Dr. Legrino, fisionomia anuviada. - Estou
me despedindo, queria ver voc uma ltima vez.
        Viramundo o olhava, boquiaberto.
        - Ser nomeado um novo diretor. J fomos todos afastados.
        E acrescentou como que para si mesmo:
        - O que me preocupa so os mtodos que voltaro a usar aqui dentro.
        A cabea de Viramundo ia num tumulto. Estendeu a mo, comovido, e
apertou a do amigo com firmeza:
        - Pode ir, mas saiba que aqui dentro ningum mais ficar.
        Fez meia-volta e se retirou, marchando pelos corredores com ar marcial, j
investido na sua patente de coronel. Ao chegar ao ptio, ordenou ao Batatinhas,
que j dera por encerrados os exerccios naquela tarde:
        - Capito, rena a tropa. Misso de combate.
        O que se passou a partir da ficou na histria como um dos fatos mais
extraordinrios jamais registrados nos anais da psiquiatria mineira. E olha que o
leitor de outros Estados no tem a mnima noo do que venham a ser os anais da
psiquiatria mineira.


        A LTIMA das trs medidas administrativas do governo, que veio precipitar
os acontecimentos - demisso em massa da diretoria e de todos os mdicos e
enfermeiros do manicmio - fora tomada por uma razo aparentemente de somenos
importncia.
        O Governador Clarimundo Ladisbo, cujos bigodes caprichosamente
aparados eram ornamento capilar de que muito se orgulhava, s os confiava a um
verdadeiro mestre da tesoura e da navalha: seu barbeiro particular Alberico Pomada,
que, entre uma e outra barba governamental, gostava de tomar umas e outras pelos
botequins da noite mineira. Ora, vai um dia, ou melhor, uma noite, Pomada entrou
em crise aguda de alcoolismo crnico, e pela madrugada teve de ser levado ao
manicmio em coma etlica, a fim de que o atendessem na seo dedicada a
emergncias daquela espcie. Por distrao do enfermeiro de planto, entretanto,
foi encaminhado diretamente ao pavilho dos doidos varridos, em virtude de seu
comportamento ao chegar, quando o estado de embriaguez em que se achava o
levou a afirmar, alto e bom som, que fazia e acontecia e at o Governador lhe
obedecia.
        No dia seguinte, j melhorzinho, pediu alta ao enfermeiro, pois tinha de
fazer a barba do Governador.
        O enfermeiro achou graa e disse:
        - No posso, porque eu tenho de fazer a do Presidente da Repblica.
        Em vo Alberico Pomada pediu, implorou, esbravejou, ameaou:
        - Eu saio daqui e falo com o Governador para fechar esta merda e botar
vocs todos na cadeia, seus animais de rabo!
        Quanto mais protestava, mais se comprometia acabava perdendo a cabea
e investia contra todo mundo, era preciso met-lo numa camisa-de-fora at que se
acalmasse.
        Esta situao perdurou meses e meses e o barbeiro, j conformado, para se
distrair, fazia a barba dos demais internos, aparava-lhes o cabelo, inventava
penteados mirabolantes. Um dia quis mesmo promover um desfile de penteados, o
diretor no permitiu. A partir de ento passou a andar triste pelos cantos, correndo o
risco de acabar ficando mesmo doido. Depois entrou numa fase em que tentava
subornar os enfermeiros:
        - Me solta que eu arranjo com o Governador um cartrio para voc.
        Enquanto isso, o Governador Ladisbo, que conhecia os hbitos de seu
barbeiro, mandava revirar cus e terras  sua procura, fazendo vistorias em um por
um de todos os botequins da cidade para ver se acaso o Pomada no se deixara
ficar, esquecido, debaixo de alguma mesa. E sua barba, que no confiava a
ningum mais, foi crescendo. Quando j estava maior do que a de Maom (que,
incidentemente, tambm era um dos hspedes do manicmio), descobriu um dia o
paradeiro do Pomada: depois de ordenar durante todo esse tempo a busca em
hospitais, delegacias de polcia e at na Cidade Livre dos Mendigos, por sugesto
da filha mandou averiguar no hospcio - e de l, efetivamente, lhe devolveram o
homem, doido de jogar pedra, mos trmulas que eram incapazes de segurar um
copo, que diria uma navalha. Furioso, o Governador Ladisbo baixou decreto
exonerando todos os responsveis pela administrao da casa, do primeiro ao
ltimo. Estes, revoltados, no esperaram a designao dos seus substitutos, e se
retiraram em seguida, deixando os doidos por sua conta e risco.
        Por isso o grande mentecapto, cuja rebelio se deu aps tais
acontecimentos, no encontrou dificuldade em marchar com a sua tropa para a rua
naquela mesma noite, e eram mais de quinhentos sob seu comando. A essa altura o
capito    Batatinhas   j   tinha   organizado   os   pelotes,   promovendo   alguns
subordinados a cabos e sargentos e impondo uma estrutura rigidamente militar 
totalidade de seus comandados. E por sua vez, satisfeito, ia prestar contas ao novo
comandante-em-chefe, esfregando as mos:
          - O meu pessoal est afiado, coronel.
          No foi difcil ao comandante Viramundo atingir o primeiro objetivo da
misso de que se via investido.
          O campo de ao situava-se a alguns quilmetros dali e avanar at l com
a tropa toda era simplesmente coisa de maluco - perfeitamente adequada, portanto,
 condio dos elementos que a compunham. L chegaram tarde da noite - o que,
de certa maneira, vinha ao encontro dos planos estratgicos que o coronel
Viramundo havia equacionado com o capito Batatinhas.
          A Cidade Livre dos Mendigos dormia, sem imaginar sequer que chegara a
hora de se tornar realmente livre. Apenas as sentinelas velavam em seus postos,
dentro de guaritas suspensas em longos postes, nos extremos do campo cercado de
arame farpado. E nenhuma delas pde saber o que fazer diante da estranha
emergncia, to perplexas ficaram ao ver aquele bando enorme de homens, com o
pijama riscadinho de preto e branco usado no hospcio, marchando pela estrada em
direo  entrada principal. Podiam tentar barrar-lhes a passagem abrindo fogo, mas
com isso matariam quando muito uns dez ou vinte e no deteriam o restante. Nem
todo o corpo da guarda, encarregada da segurana do lugar, seria capaz de conter
semelhante invaso.
          Com o tumulto que se deu ento, os habitantes da Cidade dos Mendigos
acordaram, alvoroados, e vieram ver de que se tratava. Logo confraternizaram com
os libertadores. Viramundo imediatamente ordenou ao seu amigo Barbeca, que,
radiante, tinha tomado ele prprio a iniciativa de abrir os portes:
          - Capito Barbeca, assuma o comando!
          Ligeiras escaramuas se travavam e os guardas, ante a maioria
esmagadora dos invasores e a revolta dos mendigos que logo se alastrou,
depuseram as armas, que foram recolhidas, e, por ordem do comandante
Viramundo, totalmente inutilizadas.
          - No precisamos disso - afirmou ele. - No venceremos a coice d'armas.
Outro  o nosso poder de fogo, outro  o fogo do nosso poder.
        Transmitiu rapidamente suas instrues ao novo capito. Os comandados
do capito Batatinhas, por seu lado, j afeitos s lides militares, tambm no tiveram
dificuldade em orientar seus novos companheiros sobre as exigncias da disciplina.
Estavam todos excitados, talvez um pouco mais excitados do que seria de desejar,
mas embora aqui e ali ocorresse uma pequena extravagncia, o moral da tropa era
mais do que elevado.
        Antes do amanhecer puderam partir dali para a cidade em duas colunas de
rebeldes, com designao decorrente do uniforme que usavam: a dos macaces e a
dos riscadinhos, comandadas respectivamente pelo capito Barbeca e pelo capito
Batatinhas, e perfazendo uma unidade de cerca de mil homens, fortemente armados
- se bem que apenas de uma firme disposio de vencer.


        QUANDO o Governador Clarimundo Ladisbo, espreguiando; abriu as
amplas janelas de seu quarto no Palcio aquela manh, julgou que ainda estivesse
sonhando. Esfregou os olhos e tornou a olhar. A praa da Liberdade, em toda a sua
largura e em toda a sua extenso, at onde a vista alcanava, estava repleta de
gente. E era uma gente esquisita, vestida de maneira extravagante, uns de macaco
azul e cabea raspada, outros de pijama riscadinho e cara de doido, mesclados de
homens esmolambados, crianas descalas, mulheres com ar de bichos, em meio a
outras com ar de marafonas - verdadeira ral reunida numa multido que no sabia
de onde poderia ter surgido, e nem seria capaz de imaginar que existisse gente
assim nos seus domnios.
        O comandante Viramundo estabelecera o quartel-general no coreto da
praa, junto com seu Estado-Maior. Ali era procurado por estudantes, intelectuais,
polticos da oposio ou simples homens do povo que queriam aderir ao movimento.
Um jornalista atento e vivo de nome Figueir colhera a notcia e se encarregara de
espalh-la pela cidade numa edio extra de seu jornal ainda naquela manh.
Locutores de rdio com seus microfones assediavam o grande mentecapto, e
desafiavam a censura, enaltecendo-lhe as qualidades na linguagem esportiva a que
estavam afeitos:
        - Um espetculo sensacional, senhores ouvintes! Dentro de poucos
instantes, o comandante Viramundo dar incio  peleja!
         Algum abria caminho entre o povo para se aproximar do grande lder: era o
Dr. P. Legrino, que vinha trazer a sua solidariedade. E o mdico o abraou,
comovido:
         - Conte comigo, Viramundo.
         Ao passar com sua tropa pelas proximidades da zona bomia, Viramundo
mandara um emissrio convocar dona Lina, e ela atendera  convocao de
imediato, arrebanhando e trazendo consigo todas as mulheres da noite de que foi
capaz, embora muitas j houvessem sido despejadas. E antes de retirar-se, deixou-
as a cargo de Brigite, que era a que mais se movimentava, exercendo o poder de
liderana que lhe era natural:
         - Vamos mostrar a esses sacanas o que vale uma mulher.
         E Brigite incorporou-se ao Estado-Maior, assumindo o comando da legio
das putas.
         Novas levas de retirantes que haviam chegado  capital, ao ver passar
aquele exrcito de matusquelas, deixaram o Viaduto e se incorporaram s suas
fileiras, j que no tinham aonde ir nem o que fazer. Era um movimento que nascera
vitorioso.
         O Governador, aturdido, mandou convocar s pressas seus auxiliares para
saber que diabo aquilo significava. Estes, que sabiam menos, mandaram emissrios
l fora para colher informaes, enquanto a Fora Pblica era posta de prontido
para garantir a segurana das instituies, e botar logo em debandada aquela gente.
         - Ser um verdadeiro banho de sangue - cochichavam os ulicos,
temerosos do estopim que aquilo podia representar.
         Em pouco os emissrios regressavam:
         - Esto completamente loucos, senhor Governador! Trata-se de uma legio
de mendigos, outra de doidos e outra, com perdo da palavra, de prostitutas. No
meio deles uma poro de miserveis, desses que s existem na ndia. E tem um
possesso chamado Viramundo que assumiu o comando de tudo isso. , uma
espcie de Antnio Conselheiro. Acho que teremos em Minas um novo Canudos.
         O Governador perguntou o que era Canudos e, enfurecido, quis saber o que
aquela gente pretendia. Ento lhe apresentaram o ultimato encaminhado por
Viramundo, escrito por ele prprio, a lpis, numa folha de caderneta: Para os
mendigos, para os doidos e para as mulheres, liberdade de ir e vir, ficar ou sair. Para
os retirantes, casa, comida e ocupao condigna.
        - Mas isso  a subverso em marcha! - protestou, indignado. - Deve ser
coisa de comunista! Me tragam esse homem.
        Manhosamente, seus auxiliares o aconselharam a no usar de violncia,
pelo menos por ora, para evitar uma hecatombe que talvez no tivesse muito boa
repercusso na Corte, j s voltas com seus prprios problemas. Em vez disso,
melhor seria seguir o sbio princpio que sempre norteou a poltica mineira:
prudncia e capitalizao.
        Acedendo, o Governador ordenou a convocao imediata de alguns dos
mais hbeis luminares da poltica situacionista e confiou-lhes a elaborao de um
compromisso oficial de atendimento das reivindicaes daquele maluco. Os
referidos luminares, cujos nomes eram mantidos em sigilo, pois constituam as
foras ocultas do governo, juntaram logo suas cabeas numa reunio secreta e
elaboraram um documento com o protocolo de atendimento das reivindicaes
daquela patulia comandada pelo novo demiurgo. Tudo pronto, passaram a
lucubrao do seu ilustre bestunto ao Governador Ladisbo. Este, por sua vez, nem
quis ler a referida chorumela, pois assinaria no escuro aquilo que jamais pensava
em cumprir. E dignou-se de receber o maluco.
        Geraldo   Viramundo,       acompanhado     do   Estado-Maior,   comandantes
Batatinhas, Barbeca e Brigite, dirigiu-se ao Palcio, seus comandados abrindo
caminho para ele. Passou sobranceiro pelas tropas do governo j estrategicamente
colocadas e entrou no imenso saguo pisando firme, com as botas que algum j
lhe havia arranjado - um par de botinas velhas - para completar o uniforme que o
distinguia como comandante supremo dos sublevados: um velho quepe de motorista
e um cinturo com talabarte que prendia o palet mal-ajambrado, como se fosse
uma tnica militar. O papel que encarnava parecia ferver-lhe na mente, acabando
por cozinhar o que pudesse restar nela de juzo.
        Recebendo-o no salo nobre do Palcio com todas as honras de estilo,
segundo    a   pantomima     que    seus   assessores   matreiramente   lhe   haviam
recomendado, o Governador ordenou que dessem incio  cerimnia. Um de seus
arautos procedeu  leitura em voz alta do protocolo elaborado pelos luminares:
        - O Governo da Provncia de Minas Gerais, na pessoa de Sua Excelncia, o
dignssimo Senhor Governador Geral Clarimundo Ladisbo, aqui presente (ao ser
designado, o Governador fez uma discreta vnia), compromete-se neste
compromisso a - Primeiro: no sentido de preservar os superiores interesses da
ptria, a partir do respeito em toda a Provncia de Minas Gerais aos sagrados
princpios que norteiam a poltica governamental, e a fim de proteger os interesses
de cada um no proveito de todos e o proveito de todos no interesse de cada um...
        - Basta - cortou vivamente Viramundo com um gesto enrgico, descartando
o primeiro item. - Vamos ao segundo.
        O arauto vacilou, mas, a um gesto do Governador, obedeceu:
        - Segundo: levando-se em conta a necessidade de eliminar as mazelas
sociais que tanto comprometem os mais elevados foros de nossa civilizao, e na
firme determinao de assegurar a ordem pblica...
        - Basta - cortou Viramundo. - Passemos ao terceiro.
        O arauto fez um gesto de desalento, mas prosseguiu:
        - Terceiro: segundo...
        O mentecapto interrompeu:
        - Segundo ou terceiro?
        O arauto embatucou:
        - Segundo...
        - O segundo voc j leu e no interessa. Vamos ao terceiro!
        - Segundo... - gaguejou o homem, intimidado, mas afinal venceu o impasse
criado: - Terceiro! Segundo os postulados cristos a que se subordina a tradicional
famlia mineira, na defesa intransigente do decoro e da moralidade pblica...
        - Basta - ordenou o comandante Viramundo pela terceira vez, liquidando
tambm com aquele item. - Falta muito?
        - No, esse era o ltimo - informou o arauto, consternado, enrolando o
pergaminho.
        Viramundo voltou-se para o Governador Ladisbo, que, rodeado de altas
autoridades civis e militares, por sua vez rodeados de um forte corpo de segurana,
aguardava o fim da cerimnia com um sorriso de mofa, e declarou solenemente,
apontando o documento nas mos do arauto:
        - Saiba o Senhor Governador Geral da Provncia de Minas Gerais que o
respeito s normas protocolares, que regem uma tentativa de armistcio como esta,
me impedem de dizer onde Vossa Excelncia deve enfiar esse canudo.
        Fazendo-lhe uma seca mesura tambm protocolar, virou-lhe as costas e
retirou-se, seguido do seu Estado-Maior.
        Quando passava pela ante-sala num passo estugado, esbarrou de sbito na
filha do Governador, que ia entrando:
        - Eu no o conheo de alguma parte? - perguntou ela.
        Sem se abalar, ele respondeu de passagem:
        - Agora  tarde, Ins  morta. Sinto muito, mas chorar no posso.
        Deu-lhe as costas e saiu.


        QUANDO Viramundo regressou  praa, as foras de segurana j haviam
recebido ordem de dispersar a multido. E no perdiam tempo em faz-lo, usando
sem cerimnia bombas de gs lacrimognio e golpes de cassetete a torto e a direito.
Militares a cavalo, brandindo sabres, abriam grandes claros entre os que
procuravam fugir, em atropelo. Ninhos de metralhadoras se postavam nas esquinas,
prontos a atirar. Atordoado, Viramundo ordenou aos trs comandantes que
tratassem   de   organizar   uma    retirada   estratgica   de   suas   colunas   para
reagrupamento e reavaliao de foras. No havia como dar cumprimento a
semelhante ordem e a nenhuma outra, tamanha era a confuso na praa, todos se
precipitando pelas ruas laterais, onde j os esperavam tintureiros da polcia para
recolh-los. Alguns logravam escapar, fugindo desarvorados para os quatro cantos
da cidade. Furioso, o capito Batatinhas, em meio ao tumulto, empolgou as rdeas
de um cavalo da polcia montada, conseguiu com um safano derrubar o cavalariano
e montou ele prprio o animal, como nos velhos tempos, para sair num galope
alucinado para lugar nenhum, a comandar:
        - Esquadro! Atacar!
        Desabituado de montar e j um tanto duro nas juntas, acabou sendo
cuspido da sela e rolou no jardim, aparentemente desacordado. Em pouco, no
havendo mais quem dispersar, a polcia montada e as foras de segurana do
governo se retiraram, e a praa da Liberdade ficou praticamente deserta.
        O comandante Barbeca, molhado da cabea aos ps e trazendo coladas ao
corpo algumas folhas e razes aquticas, conseguiu localizar Viramundo atrs da
esttua de Pedro Segundo:
        - Tive de pular no lago pra fugir dos meganhas, fiquei l at agora.
        O capito Batatinhas veio mancando juntar-se a eles:
        - Vamos embora, Viramundo, que isto  uma guerra de merda, no h a
quem guerrear.
        Ainda restavam por ali, esquecidos, uns poucos vultos que haviam se
escondido no caramancho da praa ou entre os arbustos dos canteiros, Brigite
entre eles.
        - Pelo menos um soldado eu botei pra correr - disse ela.
        - Pois eu levei uma esfrega - disse outro.
        - Por pouco no me acertaram.
        - Eu me borrei todo.
        Pesava no ar o gs lacrimogneo, fazendo com que todos tossissem e
chorassem copiosamente, como se estivessem amargando a derrota. Era apenas
um punhado de bravos que restavam das gloriosas colunas dos macaces e dos
riscadinhos.
        - Vamos embora daqui, pessoal, que eles podem voltar.
        Brigite insistia em ficar, mas Viramundo mandou que ela partisse, com uma
peremptria ordem de comando:
        - Volte para os seus, ou melhor, para as suas.
        E despediu-se dela com um comovido abrao.
        Depois de se afastar para um canto da praa, a fim de meditar sobre a
derrota e aproveitar para urinar, Viramundo voltou com a deciso, para o que
restava de seus comandados:
        - Vamos em jornada cvica apresentar nosso protesto ao Chefe da Nao.
        Barbeca se entusiasmou, e o capito Batatinhas com ele, apesar de no ir
l muito bem das pernas. Os demais que por ali estavam se dispuseram a segui-los,
mas Viramundo os dispensou. Ento decidiram pelo menos acompanhar seu
comandante, como guarda de honra, at a sada da cidade.


        ERAM trs figuras grotescas e estropiadas, aquelas que saam do mato
para ir margeando a estrada. Quem os visse, diria tratar-se de trs protagonistas de
alguma pantomima de saltimbancos.
        Viramundo vinha  frente, no exerccio da sua longa experincia de
andarengo. Para no ser reconhecido pelo inimigo, descartara o uniforme de
comandante-em-chefe das foras rebeldes, atirando fora o quepe de motorista e o
velho cinto com talabarte.
        Barbeca, no macaco azul j rasgado e encardido, seguia-lhe os passos a
alguma distncia, como medida elementar em ttica de guerra, imposta por
Viramundo, para o caso de serem surpreendidos por um ataque. Sua careca
brilhava ao sol e a barba j repontava, sombreando-lhe o rosto e voltando a justificar
sua alcunha.
         Por ltimo, mais distanciado ainda, no seu pijama riscadinho j sujo e roto,
arrastava-se o capito Batatinhas, o p descalo, um galho de rvore  guisa de
muleta, e praguejando contra o papel de p-de-poeira que o destino lhe reservara
naquela campanha - a ele, um oficial da cavalaria divisionria!
         - Se aparecer um cavalo eu arrecado como presa de guerra - resmungava.
         - Guerra  guerra - concordava Barbeca.
         Tinham a precauo de contornar qualquer vilarejo onde o inimigo pudesse
preparar-lhes uma emboscada, e se escondiam no mato a qualquer rudo de veculo
que pudesse ser uma viatura militar. s vezes se embrenhavam pelas macegas,
galgavam morros pedregosos para fazer o reconhecimento do terreno. Chegando ao
cume, botavam a mo em pala diante dos olhos, protegendo a vista contra o sol que
chapeava nas pedras, arrancando fascas daqueles picos de ferro, e eram
montanhas e montanhas e montanhas, como um mar encapelado, azulando-se at
se esfumar no horizonte. Olhavam, e nada viam do mar de verdade que era o seu
destino final.
         - Estamos perto, comandante? - perguntava Barbeca.
         - Ainda falta um pouco - admitia Viramundo.
         Em verdade haviam vencido naquela jornada os primeiros quinze
quilmetros, faltando os restantes quatrocentos e sessenta e dois para chegarem 
Corte.
         Emergiram novamente para a estrada e foram caminhando. Estavam nos
arredores de Rio Acima, onde no havia mais rio, nem acima, nem abaixo: com o
tempo, tornara-se um fio d'gua escorrendo por entre as pedras do vale. Se
Viramundo pusesse reparo, veria que um pouco alm, nas margens daquele rio
quase inexistente, ou nadando em suas guas outrora caudalosas, havia passado
grande parte de sua infncia. Mas Viramundo no reparava em nada ao redor, s
tendo pensamento para a misso que deveria cumprir.
         Barbeca veio lhe dizer, alarmado, que encontrara  beira do riacho umas
marcas que pareciam pegadas de ona. Viramundo no deu importncia:
         -  que chegou a hora da ona beber gua - explicou.
         Ao cair da tarde, detiveram-se, escolhendo um bom lugar para o bivaque.
Viramundo recostou-se no tronco de uma rvore, enquanto o capito Batatinhas
examinava o p, sentado numa pedra:
         - Parece um p de elefante.
         Barbeca disse que era hora de providenciar o rancho, e saiu recitando, at
sumir na curva da estrada:
         - Um elefante amola muita gente. Dois elefantes amolam muito mais. Trs
elefantes amolam muita gente. Quatro elefantes...
         Ao fim de algum tempo e de 352 elefantes, regressava, feliz, trazendo
consigo, dentro de um saco de papel, um pedao de toicinho, um queijo palmira e
um pacote de biscoito de polvilho.
         - Foi arrecadado num armazm ali adiante - informou.
         E ainda atirou um mao de cigarros Alerta ao Batatinhas:
         - Toma l, capito, para parar de reclamar.
         Depois de preparar uma fogueirinha para fazer torresmo na cuia do queijo,
Barbeca procurou o toicinho e no encontrou.
         - Uai, qued o toicinho que estava aqui? - perguntou.
         - Gato comeu - respondeu o capito, que, de brincadeira, o escondera atrs
de si.
         - Qued o gato?
         - Fugiu pro mato.
         Eles se regalaram com o rancho at ltimo farelo - sua primeira refeio
naqueles dias tumultuados. Ao fim, Barbeca, satisfeito, cantarolou:
         - Atirei um pau no ga-t-t
         Mas n ga-t-t no morreu-eu-eu.
         O capito secundou:
         - S Chica-ca admirou-s-s
         Do berr, do berr que o gato deu.
         Viramundo estranhamente se recusara a comer. Afastara-se e contemplava
em silncio a paisagem. Havia nela qualquer coisa de vagamente familiar a seus
olhos, como uma paisagem de sonho, ou de um mundo anterior em que j tivesse
vivido. O sol se escondia por trs do dorso da montanha tornando o cu arroxeado,
e raiando o horizonte de riscas vermelhas como laivos de sangue. Era uma
atmosfera fantstica, com brilhos de quartzo iridescente, como devia ser a terra
quando ainda no habitada, num tempo sem memria. O grande mentecapto, sem
saber por que, sentia-se abandonado e era enorme a sua solido. Parecia evolar-se
de seu esprito uma fora qualquer que at ento o sustentava. Havia chegado a sua
hora.
        Ento ouviu confusamente o companheiro dizer que ia buscar gua,
enquanto o outro se dispunha a acompanh-lo para molhar os ps. No ficou muito
tempo sozinho. De sbito ouviu vozes e se viu rodeado de vrios homens irados,
alguns armados de pedaos de pau, que se abateram sobre ele:
        - Foi este mesmo!
        - Olha o saco ali no cho.
        Atordoado com as pancadas que recebia de todo lado, pensou apenas que
esta era a emboscada temida - como pudera ser to inexperiente de no fazer antes
um reconhecimento nas redondezas! Agora era ficar bem quieto para no denunciar
ao inimigo a presena dos companheiros, talvez eles escapassem. Nem percebeu
quando algum apareceu com uma corda e o amarraram na rvore, continuando a
castig-lo aos socos, pontaps e pauladas:
        - Para voc aprender a roubar a sua me, seu canalha.
        Se Viramundo pudesse abrir os olhos j cegos pelo sangue que escorria,
talvez reconhecesse o que falara, de nome Breno, e que era dono do armazm.
        Quando seu corpo j pendia sobre as cordas que o amarravam,
aparentemente    sem   vida,   aquele   que   se   chamava    Breno   convocou    os
companheiros:
        - Vamos embora, pessoal, que ele j recebeu sua lio.
        Um jovem, fazendo trejeitos, ainda espetou com uma vara o corpo inerte, 
altura do trax, cantando "Judas j morreu! Quem manda aqui sou eu!", e se afastou
rindo, em meio aos demais.
        Ao voltar, Barbeca, estarrecido, deixou cair a cuia do queijo, na qual trazia
gua para Viramundo, fez meia-volta e disparou como um alucinado colina abaixo
at o riacho:
        - Capito! Capito!
        Voltaram os dois, aflitos, caminhando rpido, o capito ignorando o p
dolorido. Desamarraram o companheiro, estenderam-no com cuidado no cho.
        Barbeca balbuciava, chorando:
        - Mataram o meu amigo... Mataram o meu amigo..
           - V buscar gua de novo - ordenou o capito. - Ele ainda est respirando.
           Lavaram-lhe o rosto ensangentado, limparam-lhe as feridas, mas a mais
grave era a do lado: a vara penetrara no torso como uma lana e o sangue jorrava
sem parar. Em vo o capito procurava estanc-lo com pedaos da camisa de
Viramundo. Barbeca, chorando, amparava-lhe a cabea, tentando reanim-lo,
depois de oferecer-lhe gua, que ele no chegou a beber. Ambos, desesperados,
no sabiam mais o que fazer.
           Nem havia nada a fazer: naquele instante Viramundo entreabria com
dificuldade as plpebras intumescidas pelas pancadas, olhava seus dois amigos e
tornava a fech-las, depois de tentar falar qualquer coisa e no conseguir. Ento,
sem uma palavra, entregou o esprito. Mas seus lbios pareciam entreabertos num
sorriso.
           DEO GRATIAS


           EPLOGO


            COM pesar que ponho o ponto final neste relato. Tanto me queixei ao
longo do caminho que me trouxe at aqui, acidentado e cheio de tropeos como a
prpria vida do meu personagem, e agora que dele me despeo sinto na alma um
vazio, e certo aperto no corao.  que acabei me afeioando ao grande
mentecapto, e seu destino foi ficando de tal maneira identificado ao meu, que j no
sei onde termina um e comea o outro.
           No entanto, no gostaria de ter o destino que ele teve: Geraldo Boaventura,
33 anos, sem profisso, natural de Rio Acima, foi enterrado como indigente numa
cova rasa do cemitrio local. Causa mortis: ignorada.
           Cabe-me, aqui, encerrar o meu trabalho com algumas referncias ao
destino que tiveram os demais personagens. A comear pelos dois que ali deixei,
acompanhando a agonia de seu amigo.
           Barbeca logrou regressar a Barbacena, onde retomou seu negcio de
esterco, sendo hoje comerciante do ramo naquela cidade. O capito Batatinhas,
depois de uma temporada a mais num dos hospcios de Barbacena, onde foi parar
em companhia do outro, reingressou na ativa, prosseguiu na carreira militar at cair
na compulsria e hoje  general de pijama (sem ser riscadinho).
           Os demais, pela ordem:
        Cremilda, a do primeiro beijo,  casada com Breno Boaventura, que, depois
de suplantar com seu armazm os italianos do emprio, hoje  dono de um
supermercado em Rio Acima.
        Dona Nina, me de Geraldo Viramundo, jamais chegou  saber da tragdia
em que se viram envolvido dois filhos seus, e do sacrifcio de um deles, que o outro
ajudou a consumar: cedo juntou-se a Boaventura, que havia muito j morrera.
        A viva Correia Lopes, de nome Pietrolina, dita Peidolina e mais tarde dona
Lina, aposentou-se depois que a intransigncia das autoridades veio dificultar o seu
negcio, e lamento dizer que seu destino no foi dos mais felizes: velha e doente,
viu-se recolhida a um asilo que no fica muito a dever  Cidade Livre dos Mendigos.
        O estudante Dionsio, depois de expulso deste livro, deu baixa no Exrcito e
regressou aos estudos, sendo hoje conceituado engenheiro, formado pela Escola de
Minas de Ouro Preto. A ele devo precioso subsdio sobre as aventuras e
desventuras de Viramundo naquela cidade.
        Matias, o filho do cego Elias,  soldado do Corpo de Bombeiros em Juiz de
Fora.
        O engraxate Vidal ainda engraxa sapatos em Ouro Preto, embora tenha
ficado relativamente famoso depois que deu para fazer versos de literatura de
cordel, tendo mesmo escrito um folheto celebrando as aventuras de Viramundo, mas
que nele figura sob o cognome de Geraldo Vagalume, que no consta de meus
registros, e, sendo assim, de nada valeu na elaborao deste trabalho.
        O romancista Georges Bemanos, com quem Viramundo se encontrou em
Barbacena, voltou para a Frana depois da guerra, deixando no Brasil traos
marcantes de sua passagem e boas lembranas entre os que com ele conviveram.
        Por mais que eu consultasse os arquivos de manicmios, clnicas de
repouso e similares em Barbacena e alhures, no consegui informaes sobre o
atual paradeiro de Dr. Pantaleo. Quanto a Herr Bosmann, acabou vtima de um
compl para assassinar o Kaiser Guilherme II, que ele encarnava.
        O professor Praxedes Borba Gato, com quem Viramundo travou aquele
sensacional debate na praa, no chegou a ser prefeito de Barbacena: morreu
pouco tempo depois, vtima de um insulto cerebral.
        O tenente Fritas, hoje coronel, acabou se casando com a moa das tranas,
de nome Maria das Graas, tiveram muitos filhos e, dizem, so muito felizes. Ela s
no passou a se chamar Maria das Graas Fritas porque, como o leitor deve estar
lembrado, o verdadeiro nome do tenente era Freitas.
        O cavalo tordilho morreu de velho sem pronunciar uma s palavra.
        O general Jupiapira Balcemo tambm morreu, mas de apoplexia, no
mesmo dia em que ouviu o cavalo falar.
        O menino Niginho, filho de dona Filomena, hoje  tropeiro naquela regio.
Dona Filomena,  lgico, j se foi h muito tempo e se ningum se lembrava dela
quando viva, que dir depois de morta.
        Todas as pessoas mencionadas nas aventuras de Viramundo vividas em
So Joo del Rei continuam morando l, a maioria figurando nas mesmas
orquestras. Menos o menino do violino, que cedo abandonou o instrumento em favor
da literatura e acabou realizando o vaticnio do farmacutico seu Policarpo, pois hoje
 ilustre imortal, eleito, como foi, para a Academia de Letras - no a Mineira, mas a
Brasileira. O fardo usado em sua posse foi cortado pelo alfaiate Josias. O da tuba.
        O preso Joo Toc, como j disse, no regressou  priso de Tiradentes
nem encontrou o diamante de seus sonhos. Fez melhor: acertou na Loteria
Esportiva e at hoje vive numa fazenda no Chapado das Gerais, cercado de
jagunos para se defender contra os que Ihe querem tomar a fortuna.
        Os profetas de Congonhas continuam l, para todo o sempre.
        O pintor de Uberaba, Erich Raspe, (que nada tem a ver com o Baro de
Mnchhausen), perdeu a questo de terras com seu vizinho e ainda anda por l. O
seu ttulo de glria  ter conhecido Viramundo, de quem vive cantando histrias
pelos botequins. Mas dizem que ele mente muito.
        Dona Maria Eudxia, minha tia de Leopoldina, fez doces de manga cada
vez mais deliciosos at morrer. Chico Doce, que vendia cocada, passou a vender os
doces dela tambm.
        O fantasma da casa assassinada em Curvelo est l at hoje, dizem. Mas
no espanta mais ningum, embora hoje seja realmente um fantasma, pois no h
possibilidade de que a velha em questo ainda esteja viva.
        Montalvo, o rufio de Marialva, morreu assassinado numa tocaia. Marialva
 atualmente senhora de um deputado federal por Minas, cujo nome terei a discrio
de no mencionar.
        Brigite, a que assumiu o comando de suas companheiras na rebelio de
Viramundo, tem hoje um salo de beleza na rua Guajajaras, em Belo Horizonte,
onde se fazem tinturas, alisamentos, mise-en-plis e ondulaes permanentes.
        O Dr. P. Legrino, que reside atualmente no Rio de Janeiro, e com quem
tenho a honra de privar,  uma das mais slidas reputaes da cincia mdica neste
pas, a par de sua igualmente slida vocao potica.  para mim recompensa
bastante como escritor a compreenso e a sensibilidade de sua parte em relao a
este meu trabalho. Nossa convivncia vem de longos anos, e ainda outro dia nos
entretivemos numa tertlia literria de muito saber e entendimento, regada a
generoso usque, que nos levou s primeiras horas do amanhecer.
        Quanto    ao    Governador    Clarimundo      Ladisbo,   depois   de   deixar
compulsoriamente o governo da Provncia de Minas Gerais, candidatou-se a
senador e foi derrotado; em seguida a deputado federal, sofrendo igual derrota;
assim sucessivamente a deputado estadual, prefeito e vereador. Mas foi
recentemente eleito sndico do edifcio onde reside, no conjunto Juscelino
Kubitschek, da praa Raul Soares. Sua filha Marlia Ladisbo casou-se com um
fabricante de queijos do Serro do Frio, ou Vila do Prncipe, terra de origem do ilustre
causdico Miguel Lins e do prncipe Aloysio Salles.
        A insurreio da praa da Liberdade no terminou ali. Os estudantes
empolgaram o movimento, que se alastrou pela cidade inteira, com muitos comcios,
passeatas, depredaes, pancadarias e perturbao geral da ordem pblica, at sair
vitorioso. Pelo menos  o que se presume, pois a zona bomia continua (como
Minas) onde sempre esteve, os doidos continuam no hospcio e a cidade continua
cheia de mendigos.
        E assim, chegamos ao trmino desta jornada. De Viramundo, fica apenas o
sorriso que se eternizou na sua face, ao ver sos e salvos os companheiros.
        Pedindo licena aos leitores, gostaria de encerrar o meu trabalho com uma
citao, no idioma original, de uma errata encontrada num livro de autor espanhol, a
qual bem exprime o sentimento geral que procurei captar ao longo do meu trabalho:
        Donde leese por la fuerza de las cosas,
        lease: por la debilidad de los hombres.


                                                               Rio de Janeiro, 28.4.79
        Fim
        Bibliografia:


        Afonso Arinos sobrinho:
        - Roteiro Lrico de Ouro Preto
        Antnio Cndido:
        - Macunama/Viramundo: do heri sem nenhum carter ao herosmo
oligofrnico (aula inaugural na ctedra de Literatura da USP)
        Carlos Castello Branco:
        - O Soldado Viramundo e os Militares no Poder
        Carlos Drummond de Andrade:
        - Poesias Completas
        Francisco Iglsias:
        - A Religiosidade Messinica no Contexto do Monarquismo Anarcoliberal de
Viramundo (in "Kriterion", n 13)
        Fritz Teixeira de Salles:
        - Silva Alvarenga, um Precursor de Viramundo
        Jsu de Miranda:
        - Veritas Veritatis
        Luiz Eugnio Botelho:
        - Leopoldina de Outrora - Alguns Elementos Subsidirios de sua Histria
        - Da Responsabilidade Civil de Viramundo  Luz da Razo e Perante a Lei
(tese de doutorado)
        Oswaldo Alves:
        - Um Homem Dentro do Viramundo
        Dr. P. Legrino:
        - Hospcio Sem Paredes
        - Os Doidos Tm Razo
        - A Insurreio de Viramundo, um Marco na Psiquiatria Revolucionria de
Minas (separata)
        Otto Lara Resende:
        - The Inspector of Orphans - Andr Deutsch Publishers, London (edio em
portugus esgotada)
        Paulo Mendes Campos:
        - Viramundo na Ventania (com ilustraes de Borjalo)
        Sbato Magaldi:
        - O histrionismo de Viramundo e a sua (in) experincia de ribalta
        Silviano Romano:
        -   Viramundo -     uma   interpretao estruturalista das    manifestaes
cognoscitivas atravs da semitica (monografia).
        Darcy Ribeiro:
        - O mentecapto como arqutipo na cosmogonia dos Koko-roca - ensaio de
interpretao scio-antropolgica (no prelo).




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